Pedro Decide Morrer

Pedro decide morrer – Igor Freitas

Parei em frente à barreira do viaduto, baixa e bamba, e contemplei o cenário daquela madrugada comum. Debrucei-me sobre as plaquetas de concreto frio e fiquei a olhar fixamente para o horizonte logo a minha frente. Havia tantas nuvens no céu, tantos carros passando logo debaixo de meus pés, tantos fantasmas dentro do meu coração… Um passo e todos iriam embora, embora como as nuvens, livre como os pássaros. Tinha a mão firme, segurava com força já me preparando para me levantar e me equilibrar do outro lado, onde não havia mais barreiras. Meus pés estariam livres para seguir em frente e cair. Não, não cair, voar!

Estou prestes a levantar a perna quando escuto um homem vir caminhando até mim, vindo da direita. Estranho. Era tarde e poucos passavam ali a pé. Seria um bandido? Ótimo, serei assaltado; mas, ora essa, e daí se eu for? Não tenho mais nada pelo o que viver, afinal de contas. Que me roube logo meus pertences; que me esfaqueie – bom que não terei meu próprio sangue nas mãos. Deus sabe o quanto eu desejei que meu sangue escorresse por mãos alheias. Assim, ao menos eu teria a ilusão de que não causei a minha própria morte. Seria um infortunado, uma vida perdida, não uma vida jogada fora. Já pensei em várias maneiras de como morrer sem parecer que essa havia sido minha escolha. Ninguém precisava saber de minha fraqueza. Ninguém precisava se lembrar de mim pelos estragos causados por eventos os quais eu não tinha controle. Queria morrer como uma vítima, não como um fracassado.

Mudei de ideia ao perceber que estava sendo um covarde. Mesmo na morte, não tinha coragem de assumir meus atos. Sim, eu quero morrer. Sim, essa é minha escolha. Não fingirei um acidente, não colocarei o peso da minha vida perdida nas costas de um inocente. Assumirei meu erro, e quando encontrarem minha carta, ficará bem claro que a única pessoa responsável por isso sou eu próprio.

Talvez fosse por isso o meu desconforto com a presença do homem que vinha até mim. Eu já havia me decidido que era assim que queria partir – era minha escolha, droga! Deixem saber que morri por causa disso. Deixem saber de todas as tragédias que enfim me ruíram. Não queria ser meramente reduzido a um latrocínio, a um psicopata barato ou alguém ainda mais esquecido por Deus do que eu.

Estava decidido a enfrentar o homem caso fosse necessário. Com ele mais próximo e com mais inspeção, percebo que se trata de alguém velho, mais velho que eu ao menos: quarenta, talvez cinquenta anos. Vestia roupas sem cor, largas e velhas, e sua face era carregada, olhos pesados circulados por olheiras, um rosto envelhecido de alguém que talvez já tivera alguma beleza.

Não fiquei a encará-lo. Tratei logo de voltar a face para o horizonte como se fosse um mero bêbado contemplando a paisagem numa madrugada de quarta-feira. Presumi que ou ele me assaltaria ou seguiria em frente, preocupado com seus próprios problemas. Em vez disso, o bendito parou, assumindo uma posição semelhante à minha, a uns três metros de distância.

Fiquei incomodado com sua presença. O homem, ao contrário, parecia tranquilo: tirou um cigarro do bolso e acendeu, tragou e observou. Só fez observar, e logo já não podia mais ignorar sua presença ali.

Não pude pedir a ele que fosse embora, no entanto: ele se pronunciou.

— Quer um trago?

— Não, obrigado. Parei tem dois meses.

Ele riu.

— Parou nada. Você traga um toda noite antes de dormir.

Franzi com sua asserção correta, mas logo presumi que ele simplesmente conseguiu farejar o fedor de fumaça do cigarro que havia tragado horas atrás; horas antes de eu decidir morrer.

Quis manda-lo ir se foder, mas parei. Era engraçado, todas as minhas reações normais em situações sociais já não pareciam fazer sentido agora que eu havia, bem, decidido morrer.

— Tá certo.

Ele se aproximou, entregou-me o cigarro, acendi, inalei com vontade e exalei. Vendo-o mais de perto, sinto algo intrigante sobre sua aparência, apesar de não entender exatamente o que era.

— Está aqui pelo motivo que acho que está? – Pergunto, pertinente. Novamente, era algo que eu jamais faria se eu não tivesse decidido morrer; eu simplesmente teria ignorado esse doido, seguido com a minha própria vida e o deixado com seus próprios pensamentos.

— Me matar? Ah, não. É um péssimo lugar para morrer, não acha?

— Como assim? Estarei morto mesmo. Tanto faz.

— É mesmo? Então não liga para o que acontecer quando partir a cabeça no para-brisa de um carro qualquer, possivelmente matando alguém?

— Vou esperar os carros pararem de passar.

— E se um passar por cima de seu corpo e bater? Já pensou o problema que isso vai causar para as pessoas que estavam no veículo?

Fiquei em silêncio. É claro que havia pensado em tais possibilidades, mas não conseguia conceber outra forma de morrer. Não queria sangrar até desfalecer no meu apartamento com cortes nos pulsos – muito lento e doloroso. Não tinha uma arma para algo fácil e prático, muito menos uma corda forte o bastante para aguentar meu peso. Melhor mesmo cair.

— Eu não quero trazer problemas para ninguém. Só não consigo mais lidar com os meus.

— Então você vai simplesmente passar a dor adiante? E sua família? Amigos?

Suspiro.

— Olha, quem é você? Desculpe, mas eu não tô a fim de ser julgado por um repleto estranho.

— Eu te conheço melhor do que você pensa, Pedro.

Agora, fiquei surpreso. Tudo bem ele adivinhar o cigarro, mas meu nome era um tanto demais.

— Eu não te conheço. Por favor, me deixe em paz.

— Tudo bem, se é o que você quer! Vá em frente. Se mate!

E ficou lá parado, olhando. Quis simplesmente pular a grade e saltar, mas o olhar daquele homem me incomodava profundamente.

— E quanto a você? – Estressei – Que faz aqui, afinal de contas? Veio por acaso me impedir de me matar?

— Sim.

Paro, confuso.

— Como é?

— Sim, eu vim aqui impedi-lo de se matar.

— Eu nem sei quem é você!

— Porra, Pedro, olha de perto! Não me reconhece?!

Enfim, aproximei-me mais do homem. Parei a meio metro dele e observo seu semblante. Logo, num enorme espanto, fui reparando cada traço dele: seu nariz levemente torto, seus olhos grandes, meio redondos, as sobrancelhas abertas.

— Meu Deus! Você é…

— Você. Eu sou você, Pedro, daqui a vinte anos.

Era uma piada. Uma piada muito bem elaborada, sim, mas uma grandessíssima piada.

Não sei por que, mas comecei a rir. Como que se reage ao conhecer você mesmo do futuro? Não faço ideia, então só rio.

— Viu? Sabia que faria isso. Você gargalha quando não sabe o que fazer. Achei que suas convenções sociais não faziam mais sentido agora que havia decidido morrer…

Droga, ele até parecia saber de meus pensamentos. Ele era mesmo eu. Eu era mesmo ele. Meu Deus.

— Tudo bem, então. Você está aqui para me dizer que a vida vale a pena, que as coisas melhoram, que vai dar tudo certo no final, não é? Certo, pode começar. Estou curioso.

Ele – ou eu, sei lá – simplesmente tragou de novo e deu de ombros.

— Minha vida tá uma droga. Tive altos, tive baixos. Depois, mais baixos. Já faz cinco anos que as coisas não melhoram. Agora, estou desempregado, endividado até o pescoço, solteiro e vivendo de favores. Não é exatamente uma boa vida.

Sinto o peito doer. Droga! Que piada divina mais cruel era essa?! Admito que por tolos dois segundos comecei a ter esperança de novo. Seria como aqueles contos-de-fadas, nos quais um anjo caiu do céu e o herói é assegurado de que tudo daria certo: ele era o escolhido, o protegido, o especial. Por dois tolos segundos, pensei que eu era especial; quantas pessoas recebem a visita de si mesmas do futuro?

Volto a pensar que era tudo uma piada, uma encenação. Alguém estava tirando uma comigo, como se eu já não tivesse mais motivos para querer morrer. Mas, porra, ele era tão real! No começo, demorei a perceber, mas agora não conseguia deixar de me ver ali envelhecido logo diante de mim. Era algo que não podia mais conceber, então ficou só a tristeza. Minha vida realmente estava fadada à desgraça, e eu mesmo estava ali de prova.

— Então, é isso? Você é o que eu devo esperar para o meu futuro?

— Sim. E não. Eu sou o que você provavelmente vai ser. O futuro é algo incerto: não está gravado em pedra, como muitos acreditam. Esqueça as cartomantes! Quem sabe o que acontecerá amanhã? Tudo depende de suas atitudes.

— Não tô entendendo. Eu estou vendo você aqui. O que aconteceu com você?

— Eu sou você, Pedro: a pessoa que havia decidido morrer, mas que nunca morreu. Todos os dias da minha vida são dias assim, dias como hoje. Dias em que eu não tô nem aí pra convenções sociais, para o que os outros pensam, para mim mesmo. Só sigo nesse viaduto, olhando para sempre esse horizonte, esses carros passando e as nuvens no céu. Tudo assim, sem mudar nada. Sabe por quê? Porque eu não mudei. Nós não mudamos.

Fico mudo diante o que ele havia me falado. Escoro a face sobre a barreira enquanto digiro sua afirmação. Parte de mim queria soca-lo, mesmo eu não entendendo bem por quê. Talvez fosse por ele estar me dizendo uma verdade, e eu não queria ouvir verdades. Queria ouvir belas mentiras, promessas de um futuro feliz, uma esposa linda, uma criança no colo, todos sorrindo diante uma casinha amarela com jardim, cerca branca e um cachorro no quintal. Por dois tolos segundos, eu havia acreditado que aquele homem me mostraria isso, mas não era verdade. Minha vida não mudaria porque eu não mudaria. Eu continuaria o mesmo, para sempre me destruindo nos meus próprios maus hábitos os quais eu estou cansado de saber que me ferem, mas que, por Deus, por um motivo eu não consigo muda-los.

— O que eu posso fazer?! Eu não sei! Eu já tentei mudar, mas não consigo.

— “Não consigo”. Adoramos falar isso, não é mesmo?

— Porque é verdade.

— É engraçado, mas antes de você decidir morrer, você também não conseguia falar com um repleto estranho, mas cá estamos.

— É diferente.

— Diferente por quê? Porque você não tem mais nada a perder? Acontece, Pedro, que tem sim, e eu sou a prova. Temos tanto a perder que adiamos nossa morte por vinte anos. Estou aqui, vinte anos esperando um milagre acontecer, igual naqueles contos-de-fadas no qual um anjo apareceria para me salvar e blá-blá.

Aqui, ele respira fundo e dá uma nova tragada antes de completar:

— Baboseira.

Fico calado, esperando-o falar mais. No entanto, ele nada falou, só continuou a tragar.

— Eu não entendo. Você quer então que eu me mate? Você está claramente miserável.

O Pedro de quarenta e cinco anos levanta a cabeça e respira fundo.

— Eu fico pensando em todos os anos que se passaram desde que estive aqui, nesse mesmo viaduto, contemplando essa mesma escolha, e me pergunto se teria sido melhor. A dor com certeza teria acabado. Eu não teria tido tantas novas decepções e dificuldades que pareciam cada vez maiores. Quando eu penso em tudo isso, tudo em mim urge a implorar para você que morra, que acabe com todo o sofrimento que te espera.

Meus lábios tremiam, meus olhos estavam fixos em mim mesmo. Aquele homem indubitavelmente era eu.

Ele – eu – então, começou a chorar. Lágrimas silenciosas escorriam de suas bochechas magras e secas, seus olhos fundos sob olheiras estavam agora vermelhos, fracos, indefesos como os de uma criança, e me imploravam:

— Mesmo com tudo isso, Pedro, quando eu olho para você, agora, eu não consigo pedir para que morra. Eu não consigo. Eu queria muito, mas não consigo! Como posso? Olhe só para você! Como posso simplesmente lhe apontar uma arma e puxar o gatilho?

Ele chorava, e só então reparei o revólver em sua cinta. Fiquei trêmulo, paralisado diante aquela cena surreal.

— Eu menti. Não vim para impedi-lo. Pelo contrário, eu vim me certificar que iria realmente me salvar de vinte anos muito sofridos… Mas, bastou um só olhar para você para eu desistir da ideia toda. Eu sinto muito, Pedro. Eu sinto muito, muito mesmo.

Meu coração batia forte. Eu não sabia como reagir diante aquela cena. Eu não entendia mais o que ele – eu – queria de verdade, mas vê-lo assim de tal maneira só me mostrava que aquela vida não compensava.

— Pedro… – Chamei, sentindo o peso de meu próprio nome na língua – Eu não consigo mais! Se for isso que me aguarda, então… Então eu preciso fazer isso.

Ele – eu – cessou o choro e respirou fundo. Tragou mais uma vez e fez como se nada tivesse acontecido, pois eu bem sabia que ele – eu – não gostava de chorar na frente dos outros.

— Tudo bem. Vá em frente.

Fiquei mudo novamente, agora repentinamente trêmulo diante o abismo à minha frente. Aquela conversa havia me abalado, e duvidava que conseguiria sequer passar minhas duas pernas por cima da barreira.

— Pode me dar a arma?

Ele – eu – olhou para mim, seus olhos ainda vermelhos.

— Posso. – E me a entregou.

Peguei o objeto sentindo seu metal frio. Notei seu peso: parecia pesar uma tonelada em minhas mãos trêmulas e magras, o cano da arma chicoteando para todos os lados na medida em que tentava levar seu peso absurdo em direção à minha testa, pressionar o indicador contra o gatilho e finalizar minha vida.

Fiquei com os olhos cerrados e a garganta seca antecipando o som da explosão de pólvora logo acima de minha orelha. Será que sentiria alguma dor no breve momento entre o pressionar do gatilho e o fim de minha consciência? Teria tempo para contemplar minha decisão ou mesmo para me arrepender? Ou será que iria direto para o nada, com o fim eterno de minha existência?

— E-eu não consigo… Não consigo. Atire em mim!

— Pedro…

— Por favor! Atire em mim! Eu não posso me tornar como você! Eu não posso…

Ele – eu – tinha a expressão mais triste que já vi em minha própria face. Suspirou longamente deixando logo escapar uma tosse seca antes de admitir que também não conseguia.

— Eu lhe disse: estou há vinte anos neste viaduto. Eu não consigo. Eu vim aqui hoje justamente para atirar em você, certificar-me que esse sofrimento iria acabar, mas… não consigo.

— Meu Deus…! – Falo, quase com um grito.

— Mas, se quer tanto a morte, basta apontar naquela direção e atirar naquele que vem lá.

— O quê?!

Não entendi o que ele – eu – quis dizer com aquilo. Foi então que me virei e vi um menino andando em minha direção, vindo da esquerda. Um garoto pequeno, miúdo, de talvez uns cinco anos. Era bonito, não pelos seus traços ordinários, mas por ele ser meramente uma criança comum e feliz.

Meu coração parou por dois segundos, meu corpo todo sentindo somente a sensação gélida do revólver em minha mão.

— Atire nele, Pedro. – Falou Pedro.

— O quê?!

O menino olhou para mim e, vendo a arma em minha mão, começou a chorar:

— Não me mata, por favor!

E eu chorei também.

Desabei em lágrimas. Por mais alto que o menino chorasse, mais alto eu chorava junto. O dele era um choro genuíno de criança, um choro que partia o coração de um ditador, e eu estava ali, apontando uma arma para ele, pronto para lhe dar um tiro.

— Atire, Pedro. Vamos lá. É isso que você queria que eu fizesse, não é? É isso que você quer fazer consigo mesmo. – Falou Pedro.

Olhei para Pedro, seus pequeninos olhos, seu cabelinho preto escorrido, seu joelho ralado do futebol, e finalmente entendi o que Pedro quis dizer.

Como um ser humano poderia atirar naquela criança? Que tipo de monstro faria isso?! Olhe só para ele, tão lindo, tão perfeito, tão cheio de vida e com um futuro pleno pela frente!

Gritei. Atirei a arma pelo viaduto e me caí de joelhos. Pedia perdão ao menino e o abracei, segurei-o forte e lhe prometi que nunca, nunca, nunca o machucaria.

Por vinte e cinco anos, pensei que não me amava.  No entanto, ao ver aquele menino, percebi, finalmente, que meu amor próprio sempre existiu. Ele só estava enterrado pela dor. Estava cavado fundo dentro do meu peito, mas mesmo assim sobreviveu depois de quarenta e cinco anos. Por quarenta e cinco anos ele estava lá, e era por isso que Pedro não poderia simplesmente atirar em mim. Era por isso que eu não poderia simplesmente atirar em Pedro.

O sol despontou naquele momento iluminando as faces de nós três – a minha face. Pedro e Pedro sorriam, e eu sorria também. Vi cada um partindo, cada um pelo seu lado, deixando-me ali no meio daquele viaduto, observando o horizonte.

Vivo.

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Água com Gelo (Parte 6)

29 de fevereiro, 11h45min

Sexta-feira de manhã e eu estou no clube em vez de estar resolvendo equações matemáticas – e falhando miseravelmente nelas. O sol quente de verão e o cheiro de piscina me faziam sentir como se estivesse de férias, e o sorriso de Douglas era como uma chave que abria mil possibilidades para aquele dia.

E ele estava só começando.

— Devo te agradecer por ter me salvado de uma lição chatíssima de História. – Fala Douglas, também imergindo os pés na piscina e se sentando ao meu lado. Também estava de uniforme, mas parecia muito mais tranquilo por estar ali do que eu.

— Para com isso! História é divertido.

— Quem se importa com o passado?!

Travo por dentro. Eu me importo, penso.

— Não me entenda mal, eu sei que é importante, mas acho muito chato. – Ele acrescenta, talvez pela minha expressão, ou talvez porque se lembrou de que eu almejo prestar faculdade de História.

— Como a sociedade vai aprender a não repetir os mesmos erros sem conhecer a história das coisas? – Falo.

— Eu vou deixar isso com vocês historiadores. – Ele fala, e percebo que ele, de fato, se lembrou da nossa conversa no dia anterior – Já eu, só preciso me preocupar em tirar nota, ou terei sérios problemas na escola.

— Bom, não sei quanto a você, mas vou ter sérios problemas em casa.

Douglas ri.

— Pelo jeito não é só com o passado que você se preocupa; com o futuro, também.

Fui surpreendido pelo o que ele disse, e fico repentinamente absorto diante aquela asserção, surpreso pelo o quanto ela era precisa e, mais ainda, por ela nunca ter me ocorrido antes.

— E não é que é verdade? – Falo, mais para mim mesmo do que para ele, e ele continua completamente insciente do quanto ele havia me afetado com o que havia dito.

Foi a primeira vez que percebi o quanto Douglas era, realmente, “descarregado” em comparação comigo. Por fora, éramos dois rapazes de mesma idade matando aula e com os pés mergulhados na água, mas, por dentro, enquanto ele estava apenas me olhando e balançando os pés sutilmente na água, eu estava em vários lugares ao mesmo tempo. Estava ainda na escola, pensando no que Lily e os professores pensariam de mim por ter matado aula, estava em casa, presumindo que tipo de bronca levaria de meu pai, estava no passado, preso às minhas memórias e, também, estava no futuro, o tempo todo procurando entender o que aconteceria a seguir, para que eu já ficasse preparado e capaz de reagir prontamente. Douglas era apenas si próprio, e eu era mil versões irreais de mim mesmo.

Se fossemos água, ele seria um rio raso e veloz e, eu, um profundo oceano.

— Então, vamos entrar ou o quê?

— Entrar?!

— É, ué. Na piscina.

Chego a soluçar com a minha risada repentina.

— Tá ficando louco? Nem trouxe traje de banho.

— Não tem ninguém aqui. Pode usar só a roupa de baixo.

— Eu acho que não.

— Você é quem sabe. Vou entrar.

E, simplesmente assim, ele começa a se despir, tirando tudo menos a cueca – que era branca, ainda por cima.

Como uma criança que não tem nada com o que se preocupar no mundo, jogou-se n água e ficou boiando. Boiando igual eu costumo boiar, mas, no caso dele, por falta de preocupações, não pelo excesso delas.

De qualquer forma, não pude desviar meu olhar ao vê-lo ali a deriva, seu corpo molhado de um jovem aventureiro, esportista, masculino e sem nenhuma preocupação naquele mundo insano. Senti uma mistura absurda de inveja e atração, duas coisas que não deveriam ir juntas, mas que, no meu caso, estavam sempre ali, uma acompanhando a outra.

— Só vai ficar olhando, cheio de vontade?! – Falou ele.

Só vou ficar olhando? Aquilo era um convite para entrar na água ou para algo mais?

Quase meio-dia. Que vontade de comer bolo.

Nunca senti tanto o peso de ser um oceano profundo quanto agora, me comparando com um rio raso e veloz. Parecia tão bom ser o Douglas. Parecia tão fácil, tão certo, e ele estava me convidando a fazer parte daquele seu mundo, a mergulhar naquele seu rio e navegar velozmente por ele.

E vinha o medo, pois eu bem sabia o quão perigoso um rio como aquele podia ser.

No entanto, o azul dos seus olhos e a simplicidade de seu sorriso me faziam esquecer de todo o perigo. Logo, também estou só de roupa de baixo e me jogando na piscina naquele dia quente, mergulhando em algo muito mais profundo que mera água.

Ele boiava em torno de mim e eu e mais as mil versões de mim ficavam tentando decifrar sobre como eu deveria me comportar. Como fazer para relaxar as mãos? Como fazer para parar de contar os minutos? Como fazer para esquecer, por pelo menos alguns minutos?

Eu não sabia a resposta, mas, por algum motivo, sentia que ele, sim.

A onda que ele jogou em minha direção parecia comprovação daquele sentimento, e logo estávamos numa luta de água, um afundando a cabeça do outro abaixo, apostando corrida de nado – eu perdendo de forma ridícula – e simplesmente jogando conversa fora sobre coisas maravilhosamente mundanas.

Era por isso que O Tempo me deixava em paz, percebo. Os muitos “eus” que me compõem deixam de existir quando estou com ele. Mais trinta minutos correram sem aviso e fica claro que navegar no rio que era Douglas era muito melhor que boiar em águas mortas.

— Douglas… Obrigado.

— Pelo quê?

— Só… obrigado. Gostei muito de ter te conhecido.

Ele parou, ficou me encarando por longos segundos e sorriu.

Ele estava muito perto, perto em diversas maneiras, e sentia meu coração bater. Ele abriu os lábios levemente, aproximou a face um centímetro e fiquei sem reação.

Eu podia sentir todos os meus “eus” a minha volta me observando. Eu queria ser só eu, estar apenas presente naquele momento e nada mais, mas precisava ignorá-los, ir contra todos aqueles “olhos”, todas aquelas “vozes”.

No entanto, os olhos e a boca de Douglas eram tão convidativos e o meu desejo de comer bolo de chocolate era tão grande que foram capazes de vencer todo o resto. Sem pensar, dei um passo à frente.

Um beijo, um toque, e todos os meus “eus” desapareceram. Estive, por vários anos, procurando o silêncio na água e bastou um beijo de Douglas e tudo se silenciou.

Não havia mais “eus”.

Não havia mais Tempo.

Não havia mais passado, não havia mais futuro.

Havia só aquele momento.

— Eu também. – Falou ele.

Um momento que, para o bem ou para o mal, assim como todas as minhas memórias, ficaria gravado eternamente na minha mente.

Água com Gelo (Parte 5)

29 de fevereiro, 10h00min

— Não brinca!

— Sério…

— Eu não acredito que você também escuta essa banda!

— E é a minha favorita!

— Que ótimo. Podemos escutar juntos, então.

Sorrio, mas checo as horas e sou novamente surpreendido pel’O Tempo.

— Douglas… Acabo de perceber que estivemos conversando por meia hora. Eu estava no intervalo, agora o professor nunca me deixará entrar.

Escuto Douglas rir do seu lado da linha.

— Eu também. Tanto faz.

— Tanto faz?!

— O que adianta agora? Se eu estivesse aí com você, mataria o resto da aula.

À possibilidade de vê-lo, ganho uma intrusa ousadia:

— Por que não matamos, então? – Falo, mal acreditando no que estava dizendo.

Douglas se silencia momentaneamente.

— Desafio aceito. Me encontre no clube em uma hora.

E desligou. Fiquei olhando para meu telefone incapaz de crer que havia realmente proposto aquilo. Jamais arranjava problemas na escola, e estava prestes a abandonar a aula pela metade para me encontrar com um rapaz o qual havia acabado de conhecer.

“Bom, aparentemente, este rapaz aqui está com desejo de bolo de chocolate.”

Que vontade de comer bolo.

Sem titubear, mando uma mensagem para Emily pedindo a ela para que levasse minhas coisas da escola consigo depois da aula e que as buscaria na semana seguinte. Ainda com um nervosismo característico, assim que a mensagem foi entregue, aquela sexta-feira se abriu diante de mim como se o sol tivesse acabado de despontar no horizonte.

Ela responde, e posso até imaginar sua cara de incredulidade pelas entrelinhas de sua mensagem:

“Como assim?! Kai, o que tá acontecendo? É algo grave?”

É algo grave? Ainda não sei. Espero que não.

“Está tudo bem”, escrevo.

Está tudo ótimo.

Com o coração ainda na garganta, como se estivesse cometendo algum tipo de crime, pego o ônibus e em apenas meia-hora já estou no clube, que estava, novamente, vazio pelo horário. Já eram quase onze da manhã, então muitos já estavam saindo para almoçar, e eu percebo que também já estou com fome.

Que vontade de comer bolo.

Fico apenas observando a piscina na qual eu recebi uma bolada de Douglas na tarde anterior. Gostaria de poder entrar, mas como vim direto da escola, ainda estava com meu uniforme e nenhum traje de banho. Poderia apenas tirar os sapatos e molhar meus pés, sentindo o sol de verão esquentando minha pele.

Fico de dois em dois minutos olhando para o relógio – mesmo já sabendo as horas. Cheguei trinta minutos mais cedo que o combinado, e, naquela ansiedade, O Tempo parecia ainda mais traiçoeiro. Naquele silêncio, naquela paz, tudo que conseguia pensar era nele e na sua demora.

Nele… e nela.

Jogo as mãos para a cabeça em frustração. Não adiantava. Não importa aonde ia, o que fazia, aquelas memórias sempre voltavam. Quis me jogar de roupa mesmo na piscina, mas me contenho. Seria um sufoco voltar para casa, e teria que responder a todo tipo de pergunta do meu pai e de Sora.

Cinco minutos.

Sinto a água fria da piscina e o calor do sol na minha pele.

Era um dia igual aquele.

Não, não posso, não quero pensar nisso…

Dez minutos.

Tenho meus pés mergulhados numa água fria e escura. Sinto o sol esquentando minha pele.

Não! Por favor…

Quinze minutos.

Escuto sua voz me chamando. Sua voz era de preocupação, mas eu não queria responder.

Penso em Douglas. Penso na Mãe Joana, penso no dia anterior.

“Kai? Onde está você, Kai?”

Vinte minutos.

“Kai, por favor!”

Vinte e cinco minutos.

“Kai…?! Meu Deus, Kai!”

Trinta minutos.

Levanto com um salto, só agora percebendo que havia adormecido. Olho em volta, nem sinal de Douglas. Minha cabeça está, novamente, explodindo, e agora tenho mais uma ansiedade para me atormentar. Começo a me arrepender de ter rompido a rotina do meu dia e vindo para cá. Tiro os pés da água e olho em volta, procurando alguém. Estou sozinho.

Já é onze em ponto, nada do Douglas.

Cinco minutos.

“Oi, esportista.”

Dez minutos.

“O que adianta agora? Se eu estivesse aí com você, mataria o resto da aula.”

Quinze minutos.

“Desafio aceito. Me encontre no clube em uma hora.“

Em uma hora… Em uma hora…

Finalmente, depois de exata uma hora e dezessete minutos desde nossa ligação, Douglas aparece.

— Aí está você!… Que cara é essa?

— Está atrasado.

— Ah, é verdade… Não foi muito tempo, foi?

Quis dizer que sim, mas tenho que me lembrar de que nem todos sentem O Tempo como eu. Vendo o sorriso de culpado que ele carregava, apenas dou de ombros.

— Não, não foi.

Água com Gelo (Parte 4)

 

29 de fevereiro, ??h??min

Vejo um rio. Tenho meus pés mergulhados nele. A água é fria e escura.

Escuto alguém me chamando. É a voz dela.

Não quero ir até ela. Continuo com os pés mergulhados e sentindo a correnteza.

 

29 de fevereiro, ??h??min

Abro os olhos lentamente e a primeira coisa que faço, como sempre, é olhar o relógio: 06h05min.

Sinto um vazio absurdo no peito, como se tivessem me aberto e puxado de dentro de mim meu coração. É com esse sentimento de vazio que acordo todas as manhãs, depois de sonhar os mesmos sonhos. É com essa solidão com a qual tomo meu banho, bebo meu café, dou comida e cafuné para o Bobão e ando até a escola. Na escola, no entanto, guardo tudo para mim, como sempre guardo tudo que sinto.

Fico num estado de transe. Havia ensinado a mim mesmo a ter completo foco na piscina, boiando no silêncio, então enquanto meus colegas faziam seus flertes, pirraças e grupinhos, eu ficava apenas focado, atento no professor.

Uns me achavam estranho. Outros, muito estranho, mas era melhor assim. Eu não me iludia como eles, acreditando que seríamos amigos para sempre e que continuaríamos a fortalecer os laços criados nesse período passageiro de nossas vidas. O colégio era um período muito efêmero, e, alguém como eu, que tem tanta consciência d’O Tempo, entendia que aqueles vagos anos da adolescência eram apenas o começo de algo muito maior, e isso me assustava: havia, ainda, muito Tempo pela frente.

No último ano do colegial, todos ficam preocupados com o próximo passo. Qual seria a próxima etapa? Aonde chegaremos? O que devemos fazer para alcançar nossos sonhos?

Toda minha vida se descontruía bem diante os meus olhos quando eu contemplava meu próprio futuro. O futuro é algo sombrio, incerto, assustador. O passado, sim, é claro, lúcido e tangível. Não tenho porque temê-lo, pois sei exatamente o que está ali. Já o futuro é um grande vazio, um infinito desconhecido, uma grande interrogação. Por isso, quero estudar História. Quero aprender sobre tudo que já aconteceu para, quem sabe, sentir que tenho mais controle sobre o que está por vir.

Já Douglas queria ser engenheiro. Não se preocupa com o passado, foca em construir o futuro. Nem era o intervalo e já me flagro pensando nele, na discrepância que é sua pessoa com a minha, dois opostos que pareciam ficar em harmonia.

Já não prestava mais atenção em matemática e ficava agora pensando nele, em seu sorriso e sua expressão um tanto confusa quando ele me pediu meu telefone. Gostaria de poder entender melhor suas intenções, o significado daquela sua repentina seriedade e sua atitude de esperar até o último minuto para demonstrar que queria me ver de novo.

Isso significava que ele queria algo mais que amizade? Ou que, simplesmente, estava sendo educado, e pediu meu número apenas para que eu não pensasse que ele era daquelas pessoas que sorriem na sua cara, mas que te descartam assim que viram a esquina?

Sem pensar, fiquei escrevendo seu nome no canto do meu caderno acima das equações matemáticas as quais eu havia desistido de resolver meia-hora atrás, e cheguei a obvia conclusão de que eu não poderia saber quais eram as intenções de Douglas. Só uma pessoa poderia me esclarecer essas dúvidas, e essa pessoa era ele mesmo.

Aquilo era algo extremamente frustrante. Eu, observador que sou, sempre consigo chegar a conclusões certas através das minhas interpretações dos eventos. No entanto, quando se tratava desse rapaz, era difícil dar uma resposta segura. Eu conseguia colocar todas as pistas em evidência, mas a solução ainda parecia dúbia. Estava resolvendo o que parecia ser uma simples equação de dois mais dois, mas não tinha certeza se o resultado era mesmo quatro.

Olhei para aquele nome, Douglas, e percebi, enfim, que minha insegurança não vinha da minha incerteza se dois mais dois eram quatro ou não; minha insegurança vinha da minha esperança de serem.

Fiquei com aquilo na cabeça durante o resto da aula, mal notando o sinal tocar e anunciando o começo do intervalo. Se aquela equação estivesse realmente certa, eu receberia um telefonema em breve e aquela aventura continuaria, e isso fazia meu estômago revirar, mas de um jeito gostoso. Nesse momento, eu estava ainda parado no trampolim, observando a piscina bem abaixo de meus pés e incerto se queria me jogar nela.

— Kai?! Vai ficar aí?

Ergo a cabeça quase com um susto para ver uma garota de olhos grandes e cabelos louros me encarando com as sobrancelhas erguidas.

— Oi, Lily. Acho que vou terminar esses exercícios. – Falo, simplesmente.

Emily, uma das poucas pessoas que conversam comigo por real interesse, não parecia muito satisfeita.

— Qual é?! Você ficou vagando a aula inteira, que eu vi!

— Você também, pelo jeito, ou não teria ficado reparando em mim. – Brinco, e Emily sorri, sentando-se em cima da minha mesa.

— Sabe que eu nunca presto atenção em matemática.

— Tá dizendo que eu sou mais interessante que matemática?

Ela aperta minha bochecha.

— Claro que é. – Ela diz, e começa a bisbilhotar minhas anotações – Quem é Douglas?

Dou de ombros.

— Um amigo. Conheci ontem, estava tentando lembrar o nome dele. – Falo, e Emily gargalha.

— Muito engraçado, você. Vamos, levanta da cadeira e vem socializar, rapaz.

— Lily, eu estou sentado aqui justamente porque não quero socializar.

— E acha que eu não sei?!

— Sei que sabe.

— Acha que eu ligo?!

— Sei que não.

— Então por que tá sentado aí ainda?! Anda, rapaz. Vite, vite.

O charme dela era inegável, especialmente quando usava seu (limitado) repertório de francês. No final, acabo cedendo, mas sei que ela logo iria me dispensar para conversar com as outras pessoas mais populares da escola.

Mesmo assim, eu apreciava seu entusiasmo. Era sempre assim, eu a seguia de braços dados com ela até o pátio e ela logo se perdia na multidão de pessoas interessadas na atenção de uma garota bonita como ela.

Eu não reclamava. Era assim que eu gostava, na verdade. Conseguia visibilidade o bastante para que se lembrassem de que eu ainda estava ali e sossego o bastante para eu não me perder entre eles. Enquanto via Emily rindo com sua voz estridente com uma dúzia de garotos e garotas tão bonitos e despojados como ela, eu só ficava olhando para o meu telefone.

“Tudo bem. Conheço uma lanchonete legal aqui perto.”

Tão simples, tão óbvio.

“Acho que um vício de vez em quando não seria de todo mal. Posso?”

Mas, o que queria dizer?

“Eu volto a pé pra casa. Eu espero com você no ponto.”

2 + 2 = ?

“Escuta, posso pegar seu telefone?”

O telefone toca.

Atendo.

— Alô?

— Oi, esportista.

2 + 2 = 4.

— Oi, esportista. – Respondo, sorrindo.

Água com Gelo (Parte 3)

28 de fevereiro, 20h11min

Douglas é tudo no que consigo pensar na viagem de volta. Aquela tarde ainda me parecia surreal, não só porque um rapaz como o Douglas havia, de alguma forma, entrado na minha vida, mas porque eu permiti que isso acontecesse, deixando-me levar de uma maneira tão natural que até O Tempo havia me dado trégua, pelo menos por três horas.

Talvez as melhores três horas que tive em toda minha vida.

Jogo minhas mãos na cabeça e bagunço meus cabelos em frustração. Ora, pra quê me estressar com isso? Provavelmente, estava fabricando tudo: Douglas estava apenas sendo gentil, amigável. Provavelmente, tem centenas de amigos para lhe dar atenção e estava apenas sendo simpático como é de sua natureza.

Sem dúvida alguma, minha vida voltaria a sua rotina habitual, eu novamente mergulhado em meus próprios problemas, ansiedades e vozes do passado. Quando abro a porta de casa, tudo está escuro exceto pela cozinha, e encontro meu irmão lavando a louça.

Ele me vê entrar e me entrega um olhar de morte, joga as mãos para os lados em incredulidade e me demora um segundo para me ocorrer o porquê de sua indignação:

— Onde você estava?! Era sua vez de lavar a louça hoje!

— Ah, Sora… Eu me esqueci! – Falo, sem pensar. Sora me olha com maior incredulidade ainda:

— Como é?! Se esqueceu?!

Eu paro para realmente escutar o que estava falando, e volto atrás:

— Não! Claro que não. Quis dizer que eu perdi a hora. Encontrei um amigo na rua e ficamos conversando… Não me enche, vai, eu lavo amanhã na sua vez.

— Você lava nas minhas próximas duas vezes, porque você não teve que escutar a bronca do papai por causa do seu namorico.

Eu travo por dentro.

— Não era…!

— Ai, Kaito, eu tava brincando. Você tá com fome? Vou preparar um macarrão.

Não só O Tempo não havia me ocorrido naquela noite, mas também a fome. Fui me dar conta que o bolo de chocolate não foi o bastante para me saciar somente agora, percebendo o quanto estava faminto.

— Estou sim.

Sora era chato de vez em quando, mas sempre cuidava de mim, isso eu tinha que admitir. Além do mais, sua comida era melhor que a minha, e melhor que a de meu pai.

— Então, quem é esse amigo? Você raramente sai com amigos… Você tem amigos?!

Franzo a testa.

— Acredite se quiser.

— Eu acredito. É só que você nunca fala deles.

Eu falo, só não para você, penso comigo mesmo. No entanto, como Sora havia trazido aquele assunto para a mesa, não resisti a chance de tentar saber um pouco mais sobre Douglas.

Sora era muito popular, espontâneo, extrovertido e muito comunicativo; basicamente, o oposto de mim. Havia boas chances de ele ter ouvido falar de Douglas, outra pessoa muito popular, espontânea, extrovertida e muito comunicativa.

— Douglas? – Repetiu ele indiferentemente enquanto mexia o macarrão na panela fervente. Adicionou molho, experimentou, temperou com um pouco de orégano e sal e continuou mexendo antes de continuar – Não, acho que não. Acho que me lembraria desse nome. O que ele faz?

— No último ano do colégio, como eu, mas ele estuda em outra escola. Eu… o conheci hoje.

— Entendi.

Não sei se Sora havia percebido alguma intenção maior na minha pergunta. Se percebeu, não comentou. Estava apenas interessado em comer seu macarrão e, de fato, estava muito bom. Preparei uma limonada para acompanhar, ralei o queijo e, logo, estávamos jantando silenciosamente.

Fiquei o tempo todo num conflito interno. Parte de mim queria que Sora me perguntasse mais sobre Douglas. Queria uma chance de tentar descobrir mais sobre ele, ou, até mesmo, simplesmente compartilhar aquele acontecimento incomum na minha vida. Ao mesmo tempo, sabia que não deveria me encorajar naqueles sentimentos. Deveria manter minha mente longe, continuar boiando na água calma e não me permitir divagar demais.

Era assim que eu conseguia paz, calma.

Finalmente, o jantar acabou e Sora simplesmente se levantou e foi para o seu quarto. Fico apenas com meus pensamentos e meu macarrão por terminar quando meu pai entra na cozinha, me olha de leve e abaixa a face, perguntando o que tinha para comer. Apenas falei que Sora havia preparado um macarrão, ele se serviu rapidamente e levou o prato para o quarto sem falar mais nada.

Suspiro. Lavo meu prato e vou direto para o quarto começar a atividade mais importante do meu dia: escrever.

Não escrevo poemas, canções ou histórias. Não escrevo aspirações ou divagações de uma mente criativa. Não; escrever, para mim, não é nada mais que um exercício mecânico, muitas vezes cansativo, mas o qual eu preciso fazer todos os dias.

Eu escrevo sobre os meus dias, escrevo meus sentimentos. Eu escrevo para que alguém possa ler minhas escritas e saber exatamente o que está acontecendo comigo, palavra por palavra, conversa por conversa.

Assim, começo:

Querida mãe…

Prossigo em contar detalhadamente absolutamente tudo que me aconteceu naquele dia, todas as coisas que fiz na escola, todas as pessoas que vi, o que falei para elas, o que comi no café da manhã, no almoço e na janta.

Contei sobre como fui nadar no clube.

Contei sobre Douglas.

Eu não sei o que pensar, mãe. Eu estou cansado de ter sentimentos os quais não posso aproveitar. Eu estou cansado de lutar contra meus instintos. É uma batalha em vão. É Davi contra Golias, é nadar contra a correnteza, é tentar esquecer quando tudo o que posso fazer é lembrar.

O bolo de chocolate ainda me atiça. Posso quase sentir seu cheiro, quase posso ainda saboreá-lo em meus lábios. Perto daquele forte sabor doce, água com gelo me parece tão… insuficiente.

Mas é o suficiente para Douglas. Deveria ser o suficiente para mim, não deveria?

Não deveria?

Descanso a caneta, fecho o diário, vou até a cozinha e me sirvo do mais belo copo de água com gelo e saboreio cada gole.

Até fecho os olhos, mas quando os fecho, é no bolo que estou pensando. O sabor do chocolate ainda fica na minha boca, ainda sinto o forte açúcar na língua, mordo os lábios e salivo.

No próximo minuto, já estou num banho frio.

A água é o suficiente.

Tem que ser.

Água com Gelo (Parte 2)

28 de fevereiro, 17h05min

Saímos do clube e contornamos a avenida movimentada do centro até a lanchonete que Douglas havia mencionado. Fomos conversando animadamente durante todo o trajeto. Sua energia era alegre, contagiante, e entre risos e sorrisos ele ia me contando que havia combinado de jogar futebol no clube com os amigos, mas que todos desmarcaram de última hora, explicando o porquê de ele estar ali sozinho batendo uma bola para o alto e a chutando na minha cara.

— Não pense que sou um esquisitão que vai pro clube jogar bola sozinho.

— Ah, tipo o esquisitão que vai pro clube nadar sozinho?! – Pirracei. Douglas riu, mas ficou levemente constrangido.

— Não… Não quis dizer isso. É normal ir nadar sozinho. Não precisa de mais ninguém para nadar.

Eu não quis dizer ali que ficar sozinho é precisamente a razão de eu ir nadar.

— Relaxa, estou te enchendo.

Foi o bastante, e, enfim, chegamos à Casa da Mãe Joana. Um lugarzinho simples, mas aconchegante. Todo revestido em madeira, com a luz do fim de tarde entrando pela veneziana semifechada banhando todo o ambiente num tom rubro e morno, e um ventilador de teto girando no alto num ritmo tão lento que parecia mais fazer barulho que qualquer outra coisa. Sentamo-nos pela janela, a uma mesinha com dois sofás acolchoados de um verde musgo, um de frente para o outro. No entanto, o que mais chamava a atenção no local eram as fotografias emolduradas nas paredes. Eram fotos de diversas pessoas, todas sorridentes, clientes do estabelecimento, e muitas com uma senhora enorme de sorriso grande envolvendo todos como uma mãezona faz com sua cria.

Douglas parecia bem confortável ali, inclinando-se para frente e com o corpo escorado por cima dos dois braços em cima da mesa. Claramente, ele já esteve ali várias vezes. Fato comprovado quando ele cumprimentou alegremente a senhora das fotos, que veio até nós com o mesmo sorrisão alegre.

— Como está meu bonitão?

— Muito bem, Mãe Joana. Esse aqui é o Kai, eu o conheci hoje. – Falou Douglas prontamente.

— Muito prazer! – Sorri. Mãe Joana nada menos que me abraçou, envolvendo-me em seus grandes braços e em seu calor humano.

— Seja bem-vindo à minha casa, Kai! Qualquer amigo do Douglas é bem-vindo aqui.

Ela tinha um sotaque do interior: espontâneo, alto e divertido. Vestia um vestido amarelo com flores vermelhas debaixo de um avental, e seus cabelos crespos eram envolvidos num lenço igualmente colorido. Toda a sua presença era alegre e naqueles trinta segundos em que ela estava ali, já deu para perceber como ela conseguia fotos com tantos clientes para exibir com tanto orgulho nas paredes de sua humilde lanchonete.

— E como posso servi-los? O prato de hoje é um caldo de feijão típico da casa.

— Bom, aparentemente, este rapaz aqui está com desejo de bolo de chocolate.

— E café. Com leite. E chantili. Ele vai pagar.

Douglas ri, mas Mãe Joana lhe lança um olhar de certa surpresa, o qual o desconcerta:

— Ele meio que me acertou uma bola na cara, sabe? – Completo, para resgatá-lo – É o castigo dele.

Mãe Joana apenas fez que sim, entendendo, ou não, a situação.

Não estávamos num encontro. Éramos apenas dois rapazes que, por acaso, se conheceram e estão agora comendo juntos. Douglas era apenas gentil.

Então, por que eu não conseguia parar de me afundar naquele azul de seus olhos?

— E você, querido?

— Vou querer apenas água com gelo desta vez, por favor.

— Ai, esses garotos esportistas… Não sabem o que perdem, não é mesmo, Kai?

Rio.

— Mas o resultado compensa. – Falo, sem pensar muito.

Impressão minha ou não, Douglas cora.

— Ah, se compensa! – Brincou Mãe Joana – Mas já estou acostumada com esse tipinho aqui. Vem até minha Casa só pra beber água, só me dá prejuízo!

— Ora, Mãe Joana… Vai me dizer que minha presença não é o bastante para você?!

A senhora inflou igual um balão:

— Claro que é, doçura. Volto já com seus pedidos!

Ele continuou levemente corado até o momento em que ela saiu, deixando-nos as sós de novo. Por algum motivo, senti-me obrigado a fazê-lo se sentir confortável de novo, mesmo não entendendo bem por quê. Talvez fosse simplesmente pelo fato de ele ter sido extremamente amigável, extremamente gentil, extremamente atencioso comigo até então.

Talvez… até demais?

— Então, você joga muito futebol, esportista?

Douglas sorri:

— Não… A Mãe Joana exagera. É que às vezes eu venho aqui com meus amigos depois de algumas partidas para comer uns lanches. As empadas dela são ótimas. Acho que tem uma foto nossa na parede.

Olho indiscretamente. Mais ao alto da parede, no centro, vejo uma fotografia de um grupo de seis rapazes, todos da idade de Douglas, com ele bem no centro:

— Ah, sim. Consigo ver. Está…

Bonito.

Eu me paro antes da palavra escapulir.

— Está legal. – Falo, simplesmente.

— E quanto a você? Nada muito, esportista?

— Eu não nado. Eu só… fico na água.

Novamente, não quis revelar o real motivo de eu ir para a água. Apenas dou de ombros:

— Acho relaxante.

Douglas me escutava com a face repousada sobre a mão direita.

— Entendo. Talvez eu experimente também.

Agora, foi minha vez de corar. Sem mais nada a acrescentar, fiquei naquele silêncio desconfortável, encarando minhas próprias mãos sobre a mesa enquanto sentia o olhar dele sobre mim. Por sorte, Mãe Joana veio com nossos pedidos: meu bolo e café, e a água com gelo de Douglas.

— Bon appétit! – Falou Mãe Joana, deixando-nos logo a sós novamente.

Começo a me servir do bolo e me delicio pelo chocolate cremoso – e quente! – que escorria pela massa. Douglas apenas fica a beber a sua água e, intrigado, pergunto:

— É alguma dieta?

— Não. Não exatamente. Eu só tento não cair em vícios. Meu corpo não precisa de mais nada além de água fresca, então para quê vou infectá-lo com tóxicos? Açúcar, cafeína, álcool… Ou eu os controlo, ou eles me controlam, e não gosto que nada me controle.

Abaixo a face e, diante disso, ele acrescenta:

— Sei que é estranho…

— Não! De jeito nenhum. Eu entendo bem.

E como entendia.

Era exatamente devido a isso que não podia continuar me afogando no azul dos olhos dele. Era exatamente devido a isso que precisava voltar para casa, escrever meus diários e continuar com minha vida normal, como se essa tarde jamais tivesse acontecido.

— No entanto… – Ele recomeça – Acho que um vício de vez em quando não seria de todo mal. Posso?

Com as sobrancelhas erguidas, empurro o prato com a fatia do bolo e o vejo dar uma garfada. Ele até fecha os olhos para comer, saboreando aquele momento sem pressa nenhuma de ele acabar.

De repente, aquele bolo me pareceu ainda mais gostoso.

— Nossa! Cara… Acabei de me lembrar porque não como mais essas coisas. Um pedaço, e já não quero mais parar.

Sorrio.

— Talvez não tenha que parar.

Ele, então, me encara, agora sério.

— Talvez não. – Respondeu ele, agora bebendo a sua água.

Depois do bolo, continuamos a conversar, mesmo sem comida nenhuma na mesa. Falamos sobre várias coisas, sobre tudo que dois jovens do colegial poderiam conversar. Estávamos, os dois, no último ano do ensino médio, decidindo quais rumos tomar em nossas vidas – ele queria estudar Engenharia e eu, História; gostávamos de rock e música clássica – ele mais de rock  e eu, mais de música clássica; líamos regularmente – ele, aventuras épicas, eu, biografias – e tínhamos uma queda por cachorros grandes – ele tinha uma Golden Retriever e eu, um Husky Siberiano de olhos tão azuis quanto os dele.

Conversamos sobre tantas coisas bobas, inúteis e insignificantes, que mal acreditei que a noite já havia caído e três horas haviam se passado. Fiquei em estado de total choque, não por estar atrasado, mas por nunca ter tido o tempo – “O Tempo” – passar assim por mim sem eu ao menos perceber. Eu geralmente sinto todas as horas, todos os minutos, todos os segundos. Consigo dizer o horário exato de cabeça. No entanto, três horas, cento e oitenta minutos, dez mil e oitocentos segundos inteiros se passaram e eu nem me dei conta.

— O que foi?!

—…Nada, só preciso ir pra casa.

— É, eu acho que preciso voltar, também. Você mora aqui perto?

— Não, pego o ônibus.

— Eu volto a pé pra casa. Eu espero com você no ponto.

Assim, caminhamos juntos pela cidade já de noite até o ponto, que estava vazio, e ficamos esperando em silêncio. Eu estava anormalmente aflito, como se antecipasse algo, ou como se sentisse que Douglas esperava algo de mim. Ele, no entanto, estava reservado, de braços cruzados enquanto esperávamos de pé em frente aquela avenida movimentada.

— Aí vem o ônibus. – Falo, e Douglas começa a cantar uma canção dos Beatles, mas de um jeito… diferente.

— Here comes the bus, du du du du, here comes the bus, and I say…

Rio.

— A canção não é assim! – Brinco, e ele volta a sorrir, e imediatamente volta a ficar sério:

— Escuta, posso pegar seu telefone?

O ônibus já estava quase parando no ponto.

Meu coração parou por dois segundos enquanto encarava seu sorriso e seus olhos ansiosos, azuis, caídos como os do Bobão, meu Husky.

Pensei no copo de água com gelo que ele havia pedido na Casa da Mãe Joana, sobre o que ele havia falado sobre vícios, sobre como não gostava de ser controlado.

Naquele momento, me senti exatamente assim: eu saborearia o bolo de chocolate ou me satisfaria apenas com água com gelo?

— Tudo bem.

Bom, talvez, um vício de vez em quando não fosse de todo mal.

Retiro da minha carteira uma caneta e um pedaço de papel, anoto meu número e lhe entrego. Ele apenas sorri, mete o papel imediatamente no bolso e me estende a mão:

— Foi legal. A gente se fala.

E apertamos as mãos como dois colegas, dois amigos. Também como dois amigos, nos despedimos, subo no ônibus e vou embora, vendo-o partir e seguir seu caminho de volta.

Água com Gelo (Parte 1)

Água

 You hold your every breath, but life is for the living, in the water…[1]

 28 de fevereiro, 16h45min

Minha canção favorita sempre ressurge em mim quando estou aqui, envolvido por água.

Água, água fria, água calma, água silenciosa.

Não é o oceano, mas já está bom o suficiente. A piscina do clube raramente recebe visitas numa quinta-feira à tarde, fato do qual tiro vantagem. Não tem a mesma graça quando estou cercado de estranhos que só vem aqui se refrescar, pois não é para isso que venho até a água.

Eu venho aqui para esquecer.

Talvez “esquecer” não seja a palavra certa. Eu nunca me esqueço. Nunca consigo fugir do passado, nunca consigo calar as vozes dos outros. O esquecimento é apenas uma ilusão, uma vaga promessa de paz que eu sei que nunca virá, mas que nunca deixo de perseguir, assim como todos perseguem pela felicidade.

Só me esqueço, ou melhor, só deixo de lembrar, quando estou imerso no silêncio da água. Fico ali por horas, apenas contemplando o próprio silêncio, a minha própria existência, e só assim consigo paz.

Pois a paz nada mais é que o esquecimento. Se a saudade é viver no passado e a ansiedade é viver no futuro, a paz é viver no presente. Sem passado, sem futuro, apenas o agora, apenas este momento.

Consigo ficar muito tempo boiando sem ao menos me mexer, quase como se estivesse num sono profundo, à deriva naquela água mansa. Chego o mais próximo do nada absoluto ali do que em qualquer outro lugar, qualquer outro momento, e a escuridão é tudo que vejo quando fecho os olhos.

Não surgem as pessoas, não surgem as paisagens, as vozes e os sentimentos.

Não surge o rosto dela.

Só vem o silêncio.

— Cuidado!

Tão sutil quanto o salto de uma orca em alto mar, desperto do meu transe para sentir um objeto intruso me atingindo bem na face. Meu nariz arde, afundo e sinto a água, até então tão doce, violentamente me penetrando pelas narinas e boca.

Sinto então uma mão masculina me puxando para cima pela cintura, e ressurjo na superfície tossindo a água para fora da minha garganta e lutando para conseguir respirar de novo.

— Foi mal, cara… Mal mesmo.

— Tá… tudo…

Não consigo terminar, rompendo novamente outra tosse.

— Não vou precisar fazer respiração boca a boca em você, vou?!

Não sei se era uma piada ou uma genuína preocupação da parte dele, mas aquilo me fez rir. A risada, ironicamente ou não, me ajudou a limpar a garganta de vez, e consigo novamente respirar fundo.

— Acho que vou ficar bem. – Digo, ainda sem olhar para a face do meu agressor.

— Que bom!

Presumi que ele simplesmente se daria por satisfeito e iria embora, agora que averiguou que eu estava bem e recuperou a bola de futebol que ele havia chutado em mim. No entanto, quando virei o rosto para a sua direção, ele ainda estava ali, encarando-me com certa preocupação em seu olhar.

A primeira coisa que noto em sua aparência são seus olhos. Tinham uma cor muito característica: eram de um azul muito vivo, azul como o céu, azul como o oceano no qual queria tanto me perder. Fico quase novamente em certo transe quando ele enfim sorri e abre novamente a boca:

— Quer jogar comigo?

Travo imediatamente.

— Jogar?!

— É, gênio. Bola. Futebol. Soccer.

— Se for jogar essa bola fora por ter quase quebrado meu nariz, eu topo.

Eu geralmente não sou sarcástico assim com repletos estranhos, mas a dor havia me dado certo incentivo para ser ríspido.

Ele, no entanto, caiu em risos.

— Engraçadinho. Vamos, eu me sinto mal. Quero me redimir.

— Redima-se com um café e um bolo de chocolate. Estou faminto. – Falo.

Não fui sério, claro. Sabia que ele só daria um meio sorriso e nossos caminhos se partiriam ali, mas já seria o bastante para eu me divertir às suas custas.

— Tudo bem. Conheço uma lanchonete legal aqui perto. – Respondeu ele, no entanto.

Agora foi a minha vez de rir.

— Tá falando sério?!

— Claro! Um lanche não é nada. Vamos.

Fiquei repentinamente inseguro de ir, por algum motivo. Ele tinha um sorriso acolhedor, amigável, mas algo dentro de mim urgia para dar meia-volta e ir embora.

No entanto, a água da piscina já estava fria, a tarde já morria, e eu não queria voltar para casa ainda.

— Tudo bem, então. – Disse, sorrindo.

— Qual seu nome? – Perguntou ele, também sorrindo.

— Kaito… Mas meus amigos me chamam de Kai. E o seu?

— Douglas. É um prazer.

Senti um frio na barriga, um calafrio ao mesmo tempo gostoso e incomodo como aquele que se sente no momento em que você finalmente salta do trampolim e cai em alta velocidade. No entanto, não sabia por que me sentia assim. Tudo que sabia é que minha canção continuava viva e alta no fundo da minha mente:

You hold your every breath,

But life is for the living,

In the water…

You feel that you should run,

But where are you to hide,

In the water…?

Against the tide we struggle,

With the skin we’re in, the skin we’re in,

Against the tide we struggle,

To keep our heads above the deep,

Our hearts above the lie…[2]

[1] Você prende a respiração, mas a vida é para os vivos, na água (In the Water – Anadel)

[2] Você prende a respiração/Mas a vida é para os vivos/Na água…/Você sente que deveria correr/Mas onde esconder/Na água…?/Contra a maré, lutamos/Com a pele em que estamos, a pele em que estamos/Contra a maré, lutamos/Para manter nossas cabeças acima da profundeza/Nossos corações acima da mentira (In the Water – Anadel)

Do autor:

Começo meu novo livro agradecendo à banda Anadel por ter me autorizado a usar suas letras maravilhosas na minha história. A todos os interessados, recomendo muito a dar uma olhada no trabalho espetacular desse singelo grupo californiano nesse link.

A letra usada nessa introdução da história é de uma das minhas canções favoritas, In the Water.

Deixa Viver

Deixa Viver – por Igor S. Freitas

Maria era uma moça humilde que vivia num barraco numa das maiores favelas do Rio de Janeiro. Teve que lutar para conseguir terminar o Ensino Médio, tendo sempre que ajudar a mãe na lojinha perto de casa e cuidar dos outros três irmãos mais novos, e agora está toda feliz, contente porque conseguiu arranjar um emprego mais decente como caixa numa farmácia chiquérrima em Copacabana. Era jeitosinha, falaram, e tinha uma voz bonita. Com um pouco de prática, daria uma ótima atendente.

Estava já de pé às cinco da manhã para se preparar para o novo emprego. Maquiagem feita, comeu um pão com manteiga e mortadela com um café forte e sem leite e foi para o quarto ajeitar o coque do cabelo, amarrando o lacinho da empresa.

Tão focada estava em dar o nó no laço que nem reparou a figura enorme que a esperava ali. Foi pelo próprio reflexo do espelho que se deu conta de que não estava sozinha: um homem alto, branco, louro, vestido todo em roupas claras estava ali com ela, parado e ereto feito um poste, as mãos juntas na frente do corpo e um sorriso estranho na cara.

— Ai, meu Deus do céu! Moço, não me assalta, por favor! Eu não tenho dinheiro, tu pode ver!

— Calma, calma… – Pediu o homem – Maria, eu sou um anjo. O anjo Gabriel. Eu vim lhe dar ótimas notícias.

— Anjo…? Como assim anjo, moço? Isso aí é uma gíria que eu não conheço? De onde que tu é, hein? Ai, moço, não me mata não, por favor…!

— Calma, Maria. – Insistiu o homem – Eu sou um anjo enviado por Deus. Vim aqui lhe dar notícias.

— Deus?

— Isso.

— Deus Deus? Deus, o Todo-Poderoso Deus?

—Exatamente.  – Afirmou, sempre com meiguice na voz.

— Ih… Não tô gostando dessa história. – Resmungou a menina, pensando, obviamente, de se tratar de um louco – Olha aqui, meu senhor: eu não tenho nada pra dar pra ti. Dá uma olhada! A gente não tem onde cair duro.

— Eu sou mesmo um anjo, Maria. Vim aqui lhe dizer que você foi escolhida por Deus.

Maria olhou para aquele homem com cara de quem não sabe se grita ou se foge. Sabia que se tentasse correr, aquele homenzarrão provavelmente a alcançaria facilmente, e sua mãe e seus irmãos também de nada ajudariam naquela situação. Optou por ficar parada e quieta, tentando não contrariar o maluco.

— Então… seu anjo, que notícia é esse que Deus quer me dar?

— É uma notícia maravilhosa! Maria, Deus escolheu você para gerar seu filho.

Maria piscou três vezes.

— Como é que é?!

— Você gerará o filho de Deus! É a maior benção que uma mulher pode querer!

Maria engoliu a seco.

— Olha, seu anjo, não me leve a mal, mas… Eu sou virgem ainda, sabe? Eu não…

— Justamente! Você ainda é pura, por isso ele lhe escolheu.

— É, pura, eu não sei, né, seu anjo. Já aprontei uma coisinha aqui, outra ali, porque ninguém é de ferro.

— Deus sabe de tudo, Maria. Ele ainda quer você.

A moça estava começando a ficar apreensiva.

— Mas… me diz, pra quê?! Não tô entendendo, seu anjo.

Maria pensou que, se mantivesse a conversa por mais tempo, teria chance de alguma coisa acontecer e tirá-la daquela situação. Ficava a todo tempo de olho na maçaneta da porta, lentamente deslizando em direção a ela ou pronta para fazer algum barulho. De qualquer forma, sabia que sua mãe de pouca ajuda seria – mas que, talvez, pudesse intimidar o homem e fazê-lo querer partir.

— Ele se tornará um grande homem, Maria! Fará grandes coisas, muitos irão escutá-lo! – Prometeu ele.

— Mas, sabe o que que é? Eu sou muito nova, seu anjo. Acabei de sair da escola, vou começar um novo emprego agora. Eu mal tenho como ajudar minha mãe e meus irmãos. Fica meio complicado ter um filho agora, tu não acha?

— Estarás sempre nas mãos de Deus.

— Não… não sei, não. Não dá. Eu não quero, seu anjo, tu me desculpa.

— Maria…

— Se eu engravidar, eu tiro.

— Tira?!

— Tiro.

— Maria, não pode.

— Tu não pode me obrigar, seu anjo.

— Se tirar, Maria, irás arder no último círculo do inferno!

A última afirmação do homem foi categórica, tenebrosa, absoluta. Seus olhos, antes afáveis, estreitaram-se como duas fendas, e sua voz produziu um tom inumano, distorcido, como se tivesse sido filtrada pelos canais abertos de televisão de má qualidade.

Maria ficou quieta, sem saber mais o que dizer. Havia apenas mais uma pergunta que queria fazer, mas temia em fazê-la.

Com a voz trêmula, perguntou:

— E… como que vai acontecer isso?

— Já aconteceu, Maria. Em breve, terás o filho de Deus.

A moça imediatamente jogou as mãos na barriga, a face tombando para checar, temerosa em ver ali um barrigão de nove meses. Quando sentiu o abdome reto, levantou novamente o rosto e, para sua surpresa – e um pouco de alívio – o homem havia desaparecido.

Ainda trêmula, correu para o banheiro para lavar o rosto e tentar se recompor para que pudesse ainda ir para o trabalho. Nem podia sonhar em faltar seu primeiro dia – nem ao menos chegar atrasada. Podendo só tomar um gole d’água, correu para a rua para pegar o metrô.

Seu primeiro dia na farmácia foi assombrado pela lembrança do homem em sua casa. É claro que se tratava apenas de um louco – mesmo sendo tão surreal a maneira como ele havia desaparecido. De qualquer forma, não conseguia deixar de pensar na sua promessa de que geraria o filho de Deus.

Durante todo o expediente, seus olhos pendiam na seção de higiene feminina. Resistia a tentação, dizia para si mesma para deixar de ser estúpida e focar no trabalho, mas a curiosidade – e o medo – era maior. Assim que acabou seu turno, deixou dinheiro no balcão para um pequeno item.

Não teve coragem de falar com sua mão sobre o ocorrido. Não havia sinal de arrombo em sua casa, ninguém parecia ter ouvido sua conversa, e o homem não havia deixado nenhum sinal de sua visita. Talvez, tivesse imaginado tudo aquilo. Talvez, ela era a louca.

Por mais que aquilo pudesse ser provável, a consciência dessa possibilidade não fora o bastante para acalmar seu espírito. Tudo o que precisava fazer era usar o teste de gravidez que havia trazido da farmácia, esperar alguns segundos e teria sua resposta.

Nervosa, leu as instruções do rótulo e seguiu em frente com o teste. O tempo parecia correr mais devagar naquela ansiedade – ela, o tempo todo, olhando-se no espelho, ora debochando de si, ora respirando fundo como se estivesse prestes a ter um infarto. Enfim, o relógio deu a hora, e ela olhou o exame.

Estava grávida. O impossível havia acontecido, e estava grávida.

Havia lido uma vez que testes de gravidez eram, por vezes, falhos e, já pronta para isso, trouxe outros. Repetiu os exames agora com uma pressa maníaca, precisando, de qualquer forma, provar que estava oca por dentro, da mesma maneira que um inocente procura uma evidência que irá livrá-lo da forca.

Dois, três, quatro exames depois, veio a confirmação fatal: estava realmente, indubitavelmente, grávida. Não era possível que todos aqueles testes estavam falhos.

Sentiu o chão sumir, as paredes a cercarem, o teto desabar sobre sua cabeça. Não sabia como falar nada disso para sua mãe; não sabia nem ao menos o que fazer no dia seguinte.

Tentou ignorar o problema o máximo que podia. Precisava, de fato, focar no trabalho, causar uma boa impressão nos primeiros dias, ou tudo iria por água abaixo. Foi assim seguindo, dia após dia na farmácia, tentando sempre ignorar a seção de higiene feminina.

Então, os enjoos começaram. Precisou correr duas vezes para o banheiro durante o expediente – uma vez na frente de um cliente – e outras vezes em casa pela manhã, assim que sua mãe passava o café.

Começaram a fazer perguntas. Sua mãe chamou o Zé, seu namorado, e o colocou contra a parede. Ele, evidentemente, não gostou nada daquilo, pois nunca tinham transado antes. Veio lhe tirar satisfação, chamou-a de puta e foi embora. No trabalho, também foi questionada sobre a suposta gravidez e foi demitida por “má conduta” no emprego.

O tempo todo pensava na possibilidade de um aborto estrangeiro. Passava noites a fio acordada, revirando-se na cama, suando frio, imaginando uma maneira de se livrar daquele problema. No final, nem era o medo de morrer numa operação clandestina que a impedia, mas a promessa que aquele maldito anjo lhe fez de passar a eternidade no inferno se assim fizesse.

Acabou decidindo relatar o que aconteceu para a mãe. Chorou igual uma criança – longe dos irmãos – e falou sobre o homem que se dizia anjo, tudo o que ele lhe disse e sobre como assim, de uma hora para a outra, estava grávida.

Sua mãe, evidentemente, não acreditou em sua história (“Onde já se viu isso, menina?”). Acusou-a de ter pulado a cerca, traindo o Zé com um dos meninos do morro. Falou que era bem-feito, e que era responsabilidade dela cuidar da criança agora. Quando a história do anjo não colou, tentou mudar, dizendo, agora, que havia sido violentada. Certamente isso geraria mais simpatia, pensou ela.

Pois, a reação geral foi a mesma. Era culpa dela por ter se exposto. Era culpa dela por usar roupas curtas. Era roupa dela por provocar demais.

Maria se viu vencida. Desempregada, já cuidando dos irmãos o dia inteiro – levando na escola, buscando da escola, cozinhando, passando, tudo enquanto escutava sua mãe reclamar da falta de dinheiro – via sua barriga ir crescendo gradualmente.

Sentia como uma bomba, e que iria explodir a qualquer momento. Pensava na criança que estava crescendo ali e não conseguia amá-la. Todo o amor que uma mãe reservaria para um filho estava ofuscado pelo medo e repulsa da origem daquele bebê. Ao pensar nele, só pensava no anjo, naquela visita rápida, perturbante, confusa, e a promessa da condenação eterna caso não parisse aquele menino.

Enfim, conseguiu outro emprego. Não era num estabelecimento tão prestigiado – um armazém – mas ajudava nas costas. Tinha, no entanto, que levar o irmão menor, o que não agradava muito a patroa, mas era tudo o que podia fazer.

Chegou um momento, finalmente, em que não conseguia mais. Não dava conta do emprego, do irmão, da barriga. Pediu misericórdia à mãe para que pudesse descansar, mas se ela não trabalhasse, quem iria? Sobrou para os três irmãozinhos, que começaram a vender doce nas linhas de ônibus.

No dia 25 de dezembro, enfim, precisou ir para o hospital. Foi um caos. Estavam ela e sua mãe ansiosas esperando o irmão menor voltar da venda. As horas passavam e ele não voltava. Enfim, não puderam mais esperar e foram todos para o atendimento de emergência.

Mesmo já em trabalho de parto, ficou horas na fila de espera. Era uma contração a cada cinco minutos, um processo o qual Maria não podia descrever menos como tortura. Quando foi enfim atendida, olharam para a cor de sua pele e a trataram como um animal que precisava ser remediado da raiva, colocando-a numa maca sem nenhuma delicadeza, misericórdia, empatia. Mais trinta minutos de dor excruciante depois, nasceu o menino Jesus.

Deu uma boa olhada no bebê e tentou sentir amor por ele, mas tudo o que pensava era no irmão desaparecido, no emprego perdido, no abandono do Zé. Aquele bebê só havia lhe trazido problemas, e não entendia o porquê de ao menos tê-lo, para início de conversa.

Pobre criança, pensou ela, também não tinha culpa de nada. Talvez houvesse mesmo um propósito para sua vinda, e esta era sua esperança.

Quando chegou em casa no dia seguinte, deparou com o carro de polícia. Seu irmão fora achado morto. Havia sido espancado na rua; “Provavelmente latrocínio”, falou um dos policiais. Maria, no entanto, sabia que seu irmão não tinha dinheiro nem para sequer ser roubado, e a falta de preocupação no rosto dos policias já dizia tudo o que precisava saber.

Tiveram que arcar com o enterro, e os outros irmãos foram proibidos de continuar a vender doce. Com a morte do caçula, xodó de sua mãe, a coitada caiu em depressão, não sendo capaz nem de se levantar da cama de manhã.

Diante seu desespero, uma vizinha aceitou ajudar a cuidar da criança enquanto trabalhava. Os outros irmãos já viviam por conta própria, sem mãe ou irmã para ajudar. Iam para a escola e voltavam para a casa sem supervisão. Com o passar dos meses, a tristeza se tornou em rebeldia, a rebeldia se tornou em raiva e a raiva se tornou em destruição. Coisas começaram a faltar em casa, e Maria suspeitou que estavam se envolvendo com drogas.

Essa era a nova vida de Maria. Jesus cresceu e logo seguiu o caminho dos tios, tendo que sobreviver nas ruas, mendigando um pouco de troco para comprar um pouco de droga. A mãe, já sem forças, nem chorava mais. Havia há muito tempo aceitado sua condição. Por vezes só se lembrava do anjo que veio lhe visitar com a notícia de que ela geraria o filho de Deus:

— Mas, seu anjo, por favor, eu não posso ter um filho!

— Deixa viver, Maria! Deixa viver.

Olhava, agora, para os céus, e clamava:

— E agora, seu anjo? Eu deixei viver! E agora?

No entanto, era só o silêncio.

Deixa sofrer.

Homo-Sexualidade

Homo-Sexualidade – por Igor S. Freitas, ilustração por Nayara Gonçalvesinstagram @nayaragon_arts

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Chego da escola cansado. Tiro meus sapatos e me jogo na cama, coloco uma música para tocar e me perco com meus fones de ouvido. Meus pais me chamam para jantar no andar de baixo, mas não dou atenção. Tudo o que quero é ficar mais um tempo ali comigo mesmo, escutando minha música e me esquecer do mundo por cinco minutos.

A única pessoa no mundo inteiro capaz de me fazer me levantar me liga no celular.

Sorrio ao ver seu nome e atendo imediatamente. Com meu rock suave tocando ainda no ouvido esquerdo, falo “oi”:

— Já está com saudade?! Acabamos de nos ver!

— Sim, mas, você sabe… Não podemos fazer nada além de dar um simples “oi”, um abraço rápido…

Eu suspiro do meu lado da linha.

— Eu sei… Eu sei. Eu não sei mais o que fazer.

— Amor… Eu preciso contar.

Desligo a música.

— O quê?!

— Não aguento mais esconder isso…

— Amor… Pensa direito…

— Eu já pensei.

— E quanto a mim?! E quanto a nós?!

— O que muda?!

— Eu não sei se estou pronto para ser exposto agora.

—…

— Amor… Eu também estou cansado, mas você não conhece meus pais.

— Você acha que é fácil para mim?! Sabe quantas vezes já escutei comentários do tipo “Quando você vai arranjar uma namorada?”, “A filha da fulana está solteira, você deveria chama-la pra sair”? Estão começando a suspeitar. Não consigo mais fingir um sorriso no rosto toda vez que perguntam.

Jogo minhas mãos à cabeça.

— Tudo bem, se é o que quer fazer.

— Estou com medo.

— Vai dar tudo certo.

— É… Vai sim. Eu te amo.

Sorrio.

— Também te amo.

E encerro a ligação.

Devo ter ficado pelo menos meia-hora só olhando o teto, vendo as lâminas do ventilador girando lentamente, acompanhando a ponta de uma em específico fazer sempre o mesmo círculo, no mesmo ritmo, sempre no mesmo padrão. Era hipnotizante, ao mesmo tempo que agonizante, e era exatamente como estava a minha vida.

Desço as escadas e percebo que meus pais já haviam comido e provavelmente estão descansando no quarto. Tenho a refeição mais lenta e introspectiva de toda minha vida, contemplando cada passo a se tomar, cada provável reação em cadeia das minhas próximas atitudes.

Depois de comer, fico dando voltas pela casa, as horas se passando enquanto eu reunia uma coragem que eu nem tinha certeza se tinha. Olhava-me no espelho e, novamente, vinham aquelas velhas perguntas: “Será que não existe nada mesmo de errado comigo?”, “Posso ser feliz assim?”, “Terei uma vida normal?”. Por mais que já tivesse certeza de quem eu era por quase um ano, ainda era algo que me assustava, incomodava, me pegava desprevenido.

Meu pai desce as escadarias e me flagra naquele estado de total introspecção, o que era incomum para mim. Venho o notando me olhar diferente pelos últimos meses, pois claramente percebe que há algo diferente acontecendo em minha vida. Algo grande o bastante para transformar aquele rapaz energético e extrovertido naquele poeta de chuveiro, aquele constante pensador que nunca mais arranjava tempo para sorrir.

— Você perdeu outro jantar em família. – Fala ele, juntando-se a mim à mesa.

Suspiro.

— Eu sei.

— Quer contar ao seu pai o que está acontecendo contigo ultimamente? Mal te reconhecemos.

Minha garganta trava. Seguro minhas mãos juntas com os dedos rígidos, meus olhos tentando encontrar coragem para encarar os do meu pai, mas ainda temerosos, senão envergonhados.

Mas do quê tinha vergonha? Por estar apaixonado? Por querer o bem de uma pessoa? Por estar feliz de uma maneira que nunca estive antes?

— Pai, eu não sei como… Eu amo vocês, mas tenho medo de que vão me olhar diferente quando souberem.

— Quando soubermos do quê? Filho, nada que pode contar vai mudar o que sentimos por você. Nós te amamos, incondicionalmente, e vamos continuar te amando, seja o que for.

Sinto meus olhos se inundando de lágrimas.

— E-eu…

Minha boca treme, está prestes a escapar meu precioso segredo, mas sou interrompido por uma batida na porta da frente.

Imediatamente, ponho-me de pé para ir checar, já certo de quem se tratava.

— Amor?! O que aconteceu?!

— Me expulsaram! Me expulsaram de casa!

Seus olhos estavam vermelhos, encharcados, e soluçava compulsivamente.

Meu pai estava logo atrás de mim, mas não pude evitar aquele abraço, aquela demonstração clara de afeto.

— Filho, quem é?!

E ele vinha para checar. Ambos nossos olhos estavam molhados, e viro para ele, de cabeça erguida. Era a hora da verdade:

— Pai, esta é minha namorada. Eu sou hétero.

Os olhos do meu pai se arregalavam de leve, indo de mim até ela.

— O que está acontecendo?! Quem bateu na porta a essa hora?

Meu outro pai desce também pela escadaria e vê a cena. Não precisou de dez segundos para entender o que estava acontecendo; talvez fosse o olhar que meu pai lhe deu, talvez fosse minha garota em prantos debaixo de meu braço. O que quer que fosse, tudo que fizeram foi convidá-la a entrar, oferecer a ela um copo d’água com sal e a chance para se recompor.

Meus pais ficaram nos encarando do outro lado da mesa, eu ao lado dela, segurando sua mão. Ela enfim nos contou como suas mães haviam recebido a notícia com muita decepção, dizendo o quanto aquilo era imoral, corrupto, pervertido. De repente, a garota – aquela linda garota – que elas criaram desde bebê, tornou-se na visão delas algo digno de ser jogado rua fora como lixo.

E tudo por quê? Qual crime era aquele que estávamos cometendo? O que havíamos feito para merecer tanto ódio? Que pecado era aquele que nos fazia tão bem, ao menos até o momento em que decidem que devemos ser punidos por ele?

Vendo-a ali chorar em meus braços e os olhares de dúvida, mas principalmente preocupados e protetores de meus pais, tive plena certeza de que não estávamos cometendo pecado nenhum. O maior pecado era o que haviam feito com                 a minha garota; maior pecado era o que faziam com pessoas como nós em todo o mundo.

No entanto, eu a havia lhe feito uma promessa: ficaria tudo bem, e iria garantir que ela ficasse bem. Apertei-a para mais próximo de mim, encarando meus pais, dizendo-lhes com os olhos que era isso o que eu queria, era para isso que eu lutaria por toda a minha vida.

Pelo direito de ser livre.

— Vai ficar tudo bem, amor.

— Eu sei, eu sei. – Falou ela.

Estátuas

Estátuas – por Igor S. Freitas

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A primeira coisa que faço todas as manhãs é ir direto à cozinha beber o café quente que minha irmã passa antes de ir trabalhar, e ler o bilhetinho de “Estude bastante!” que ela me deixa fixado na geladeira. Desde que nossos pais morreram, ela, mesmo tendo só vinte anos, trabalha duro para que eu possa terminar meus estudos básicos. Com sua faculdade, seu trabalho, e minha escola, quase não temos tempo de nos ver, então aquelas pequenas trocas de palavra são sempre bem-vindas.

Ainda bem cedo, tenho que ir pegar o ônibus. A viagem é longa, mas confortável – vou sempre sentado, quentinho, embrulhado em meu suéter, e fico observando a cidade passando naqueles dias chuvosos que sempre aconteciam nos últimos dias de Novembro.

Da janela, vejo tudo: os prédios, as casas, lojas, carros, e, principalmente, as pessoas. A cidade grande atraía todo tipo de gente, e era sempre interessante ficar notando os pequenos traços de personalidade que alguns conseguiam demonstrar por baixo de seus uniformes de cidadãos. Às vezes, era um penteado diferente, uma cor de cabelo inusitada, um brinco chamativo, uma tatuagem; de qualquer forma, ainda eram todas pessoas, todas indo às pressas cuidar de seus afazeres.

Noto, então, algo curioso: uma moça estava parada. Não estava parada de maneira casual, checando seu relógio ou esperando o sinal ficar verde para atravessar. Não, ela estava parada, fixa, congelada como estátua, imóvel enquanto estava para dar um passo a frente, tornando-se um tipo de fotografia viva.

Achei aquilo muito curioso. Talvez fosse uma artista de rua, apesar de suas roupas e localização não condizerem com um espetáculo que você vê por aí nas praças ou sinaleiros. Fui acompanhando a moça ir desaparecendo à medida que o ônibus seguia em frente, e confirmo que ela permaneceu estática enquanto sumia do meu campo de vista.

Intrigado com aquilo, vou notando as outras pessoas: de fato, entre o alvoroço de gente que ia andando de um lado para o outro, podia-se notar alguns indivíduos igualmente estáticos, parados como se tivessem sido paralisados repentinamente enquanto cuidavam de seus afazeres. Eram figuras singulares numa multidão, e só um observador como eu podia nota-los.

Vou pensando naquilo durante o resto do dia. A vida na escola era rotineira, mas cansativa, e tudo o que eu consigo pensar era sobre o que estava acontecendo. Será que ninguém mais notava aquele estranho fenômeno? Será que era eu quem estava vendo coisas?

Na minha turma, todos estavam normais. As garotas iam fofocando sobre garotos, os garotos se exibiam para as garotas, os professores pediam silêncio. Tudo normal.

No entanto, no intervalo, deixo de conversar com meus amigos para observar o restante dos alunos. De fato, noto um ou outro que estavam distantes, quietos, parados. Noto uma menina em particular: bonita, mas tímida, com o rosto baixo, os cabelos escorridos e as sobrancelhas caídas. Chego bem perto dela para testar suas reações, e não consigo nenhuma. O sinal do intervalo toca, todos marcham de volta às suas salas, mas continuo ali parado diante dela, tentando tirar dela alguma resposta.

Não havia nada. Nem ao menos com um toque, com uma pergunta, consigo fazê-la sequer levantar o rosto.

Sinto meu corpo estremecer. As pedagogas gritam para que todos os alunos voltassem para suas salas, e decido deixar que elas cuidassem da menina paralisada. Volto para minha sala olhando para trás, e percebo que ninguém mais a notava. Ela ficou ali, sozinha, invisível, paralisada, sabe-se lá até quando.

Meu estômago começou a embrulhar, e dei graças a Deus que a aula tenha acabado. Volto para casa de ônibus e, novamente, percebo as estátuas pela cidade. Chego em casa e observo a foto de minha irmã na geladeira, sentindo, repentinamente, enorme saudade.

Decido preparar o café da tarde para recebê-la. Aquele era o único horário do dia em que podíamos nos ver, no vago intervalo dela de seu trabalho para sua faculdade, quando ela voltava para casa para tomar banho, trocar de roupa e, às vezes, terminar um trabalho às pressas. De manhã, ela preparava o café para mim. À tarde, eu retribuía o favor.

A água quente já escorre pelo filtro de papel, inundando o ambiente naquele aroma gostoso, quando o telefone toca. Corro para atender pensando ser ela, mas sou recebido por uma voz masculina desconhecida, pesada, de um policial que perguntava sobre mim e minha irmã:

— Sim, sou irmão dela. O que aconteceu?!

— Filho, eu sinto muito, mas sua irmã sofreu um acidente de carro. Ela faleceu. Eu sinto muitíssimo.

Nem deixo a ligação terminar e meu telefone cai no chão.

Pego a garrafa de café e me sirvo de uma xícara quente. Vou até a geladeira e, com a xícara a caminho da boca, observo a foto de minha irmã, e paro.

Paraliso.

Congelo.

Fico imóvel, imóvel como estátua.