Deixa Viver

Deixa Viver – por Igor S. Freitas

Maria era uma moça humilde que vivia num barraco numa das maiores favelas do Rio de Janeiro. Teve que lutar para conseguir terminar o Ensino Médio, tendo sempre que ajudar a mãe na lojinha perto de casa e cuidar dos outros três irmãos mais novos, e agora está toda feliz, contente porque conseguiu arranjar um emprego mais decente como caixa numa farmácia chiquérrima em Copacabana. Era jeitosinha, falaram, e tinha uma voz bonita. Com um pouco de prática, daria uma ótima atendente.

Estava já de pé às cinco da manhã para se preparar para o novo emprego. Maquiagem feita, comeu um pão com manteiga e mortadela com um café forte e sem leite e foi para o quarto ajeitar o coque do cabelo, amarrando o lacinho da empresa.

Tão focada estava em dar o nó no laço que nem reparou a figura enorme que a esperava ali. Foi pelo próprio reflexo do espelho que se deu conta de que não estava sozinha: um homem alto, branco, louro, vestido todo em roupas claras estava ali com ela, parado e ereto feito um poste, as mãos juntas na frente do corpo e um sorriso estranho na cara.

— Ai, meu Deus do céu! Moço, não me assalta, por favor! Eu não tenho dinheiro, tu pode ver!

— Calma, calma… – Pediu o homem – Maria, eu sou um anjo. O anjo Gabriel. Eu vim lhe dar ótimas notícias.

— Anjo…? Como assim anjo, moço? Isso aí é uma gíria que eu não conheço? De onde que tu é, hein? Ai, moço, não me mata não, por favor…!

— Calma, Maria. – Insistiu o homem – Eu sou um anjo enviado por Deus. Vim aqui lhe dar notícias.

— Deus?

— Isso.

— Deus Deus? Deus, o Todo-Poderoso Deus?

—Exatamente.  – Afirmou, sempre com meiguice na voz.

— Ih… Não tô gostando dessa história. – Resmungou a menina, pensando, obviamente, de se tratar de um louco – Olha aqui, meu senhor: eu não tenho nada pra dar pra ti. Dá uma olhada! A gente não tem onde cair duro.

— Eu sou mesmo um anjo, Maria. Vim aqui lhe dizer que você foi escolhida por Deus.

Maria olhou para aquele homem com cara de quem não sabe se grita ou se foge. Sabia que se tentasse correr, aquele homenzarrão provavelmente a alcançaria facilmente, e sua mãe e seus irmãos também de nada ajudariam naquela situação. Optou por ficar parada e quieta, tentando não contrariar o maluco.

— Então… seu anjo, que notícia é esse que Deus quer me dar?

— É uma notícia maravilhosa! Maria, Deus escolheu você para gerar seu filho.

Maria piscou três vezes.

— Como é que é?!

— Você gerará o filho de Deus! É a maior benção que uma mulher pode querer!

Maria engoliu a seco.

— Olha, seu anjo, não me leve a mal, mas… Eu sou virgem ainda, sabe? Eu não…

— Justamente! Você ainda é pura, por isso ele lhe escolheu.

— É, pura, eu não sei, né, seu anjo. Já aprontei uma coisinha aqui, outra ali, porque ninguém é de ferro.

— Deus sabe de tudo, Maria. Ele ainda quer você.

A moça estava começando a ficar apreensiva.

— Mas… me diz, pra quê?! Não tô entendendo, seu anjo.

Maria pensou que, se mantivesse a conversa por mais tempo, teria chance de alguma coisa acontecer e tirá-la daquela situação. Ficava a todo tempo de olho na maçaneta da porta, lentamente deslizando em direção a ela ou pronta para fazer algum barulho. De qualquer forma, sabia que sua mãe de pouca ajuda seria – mas que, talvez, pudesse intimidar o homem e fazê-lo querer partir.

— Ele se tornará um grande homem, Maria! Fará grandes coisas, muitos irão escutá-lo! – Prometeu ele.

— Mas, sabe o que que é? Eu sou muito nova, seu anjo. Acabei de sair da escola, vou começar um novo emprego agora. Eu mal tenho como ajudar minha mãe e meus irmãos. Fica meio complicado ter um filho agora, tu não acha?

— Estarás sempre nas mãos de Deus.

— Não… não sei, não. Não dá. Eu não quero, seu anjo, tu me desculpa.

— Maria…

— Se eu engravidar, eu tiro.

— Tira?!

— Tiro.

— Maria, não pode.

— Tu não pode me obrigar, seu anjo.

— Se tirar, Maria, irás arder no último círculo do inferno!

A última afirmação do homem foi categórica, tenebrosa, absoluta. Seus olhos, antes afáveis, estreitaram-se como duas fendas, e sua voz produziu um tom inumano, distorcido, como se tivesse sido filtrada pelos canais abertos de televisão de má qualidade.

Maria ficou quieta, sem saber mais o que dizer. Havia apenas mais uma pergunta que queria fazer, mas temia em fazê-la.

Com a voz trêmula, perguntou:

— E… como que vai acontecer isso?

— Já aconteceu, Maria. Em breve, terás o filho de Deus.

A moça imediatamente jogou as mãos na barriga, a face tombando para checar, temerosa em ver ali um barrigão de nove meses. Quando sentiu o abdome reto, levantou novamente o rosto e, para sua surpresa – e um pouco de alívio – o homem havia desaparecido.

Ainda trêmula, correu para o banheiro para lavar o rosto e tentar se recompor para que pudesse ainda ir para o trabalho. Nem podia sonhar em faltar seu primeiro dia – nem ao menos chegar atrasada. Podendo só tomar um gole d’água, correu para a rua para pegar o metrô.

Seu primeiro dia na farmácia foi assombrado pela lembrança do homem em sua casa. É claro que se tratava apenas de um louco – mesmo sendo tão surreal a maneira como ele havia desaparecido. De qualquer forma, não conseguia deixar de pensar na sua promessa de que geraria o filho de Deus.

Durante todo o expediente, seus olhos pendiam na seção de higiene feminina. Resistia a tentação, dizia para si mesma para deixar de ser estúpida e focar no trabalho, mas a curiosidade – e o medo – era maior. Assim que acabou seu turno, deixou dinheiro no balcão para um pequeno item.

Não teve coragem de falar com sua mão sobre o ocorrido. Não havia sinal de arrombo em sua casa, ninguém parecia ter ouvido sua conversa, e o homem não havia deixado nenhum sinal de sua visita. Talvez, tivesse imaginado tudo aquilo. Talvez, ela era a louca.

Por mais que aquilo pudesse ser provável, a consciência dessa possibilidade não fora o bastante para acalmar seu espírito. Tudo o que precisava fazer era usar o teste de gravidez que havia trazido da farmácia, esperar alguns segundos e teria sua resposta.

Nervosa, leu as instruções do rótulo e seguiu em frente com o teste. O tempo parecia correr mais devagar naquela ansiedade – ela, o tempo todo, olhando-se no espelho, ora debochando de si, ora respirando fundo como se estivesse prestes a ter um infarto. Enfim, o relógio deu a hora, e ela olhou o exame.

Estava grávida. O impossível havia acontecido, e estava grávida.

Havia lido uma vez que testes de gravidez eram, por vezes, falhos e, já pronta para isso, trouxe outros. Repetiu os exames agora com uma pressa maníaca, precisando, de qualquer forma, provar que estava oca por dentro, da mesma maneira que um inocente procura uma evidência que irá livrá-lo da forca.

Dois, três, quatro exames depois, veio a confirmação fatal: estava realmente, indubitavelmente, grávida. Não era possível que todos aqueles testes estavam falhos.

Sentiu o chão sumir, as paredes a cercarem, o teto desabar sobre sua cabeça. Não sabia como falar nada disso para sua mãe; não sabia nem ao menos o que fazer no dia seguinte.

Tentou ignorar o problema o máximo que podia. Precisava, de fato, focar no trabalho, causar uma boa impressão nos primeiros dias, ou tudo iria por água abaixo. Foi assim seguindo, dia após dia na farmácia, tentando sempre ignorar a seção de higiene feminina.

Então, os enjoos começaram. Precisou correr duas vezes para o banheiro durante o expediente – uma vez na frente de um cliente – e outras vezes em casa pela manhã, assim que sua mãe passava o café.

Começaram a fazer perguntas. Sua mãe chamou o Zé, seu namorado, e o colocou contra a parede. Ele, evidentemente, não gostou nada daquilo, pois nunca tinham transado antes. Veio lhe tirar satisfação, chamou-a de puta e foi embora. No trabalho, também foi questionada sobre a suposta gravidez e foi demitida por “má conduta” no emprego.

O tempo todo pensava na possibilidade de um aborto estrangeiro. Passava noites a fio acordada, revirando-se na cama, suando frio, imaginando uma maneira de se livrar daquele problema. No final, nem era o medo de morrer numa operação clandestina que a impedia, mas a promessa que aquele maldito anjo lhe fez de passar a eternidade no inferno se assim fizesse.

Acabou decidindo relatar o que aconteceu para a mãe. Chorou igual uma criança – longe dos irmãos – e falou sobre o homem que se dizia anjo, tudo o que ele lhe disse e sobre como assim, de uma hora para a outra, estava grávida.

Sua mãe, evidentemente, não acreditou em sua história (“Onde já se viu isso, menina?”). Acusou-a de ter pulado a cerca, traindo o Zé com um dos meninos do morro. Falou que era bem-feito, e que era responsabilidade dela cuidar da criança agora. Quando a história do anjo não colou, tentou mudar, dizendo, agora, que havia sido violentada. Certamente isso geraria mais simpatia, pensou ela.

Pois, a reação geral foi a mesma. Era culpa dela por ter se exposto. Era culpa dela por usar roupas curtas. Era roupa dela por provocar demais.

Maria se viu vencida. Desempregada, já cuidando dos irmãos o dia inteiro – levando na escola, buscando da escola, cozinhando, passando, tudo enquanto escutava sua mãe reclamar da falta de dinheiro – via sua barriga ir crescendo gradualmente.

Sentia como uma bomba, e que iria explodir a qualquer momento. Pensava na criança que estava crescendo ali e não conseguia amá-la. Todo o amor que uma mãe reservaria para um filho estava ofuscado pelo medo e repulsa da origem daquele bebê. Ao pensar nele, só pensava no anjo, naquela visita rápida, perturbante, confusa, e a promessa da condenação eterna caso não parisse aquele menino.

Enfim, conseguiu outro emprego. Não era num estabelecimento tão prestigiado – um armazém – mas ajudava nas costas. Tinha, no entanto, que levar o irmão menor, o que não agradava muito a patroa, mas era tudo o que podia fazer.

Chegou um momento, finalmente, em que não conseguia mais. Não dava conta do emprego, do irmão, da barriga. Pediu misericórdia à mãe para que pudesse descansar, mas se ela não trabalhasse, quem iria? Sobrou para os três irmãozinhos, que começaram a vender doce nas linhas de ônibus.

No dia 25 de dezembro, enfim, precisou ir para o hospital. Foi um caos. Estavam ela e sua mãe ansiosas esperando o irmão menor voltar da venda. As horas passavam e ele não voltava. Enfim, não puderam mais esperar e foram todos para o atendimento de emergência.

Mesmo já em trabalho de parto, ficou horas na fila de espera. Era uma contração a cada cinco minutos, um processo o qual Maria não podia descrever menos como tortura. Quando foi enfim atendida, olharam para a cor de sua pele e a trataram como um animal que precisava ser remediado da raiva, colocando-a numa maca sem nenhuma delicadeza, misericórdia, empatia. Mais trinta minutos de dor excruciante depois, nasceu o menino Jesus.

Deu uma boa olhada no bebê e tentou sentir amor por ele, mas tudo o que pensava era no irmão desaparecido, no emprego perdido, no abandono do Zé. Aquele bebê só havia lhe trazido problemas, e não entendia o porquê de ao menos tê-lo, para início de conversa.

Pobre criança, pensou ela, também não tinha culpa de nada. Talvez houvesse mesmo um propósito para sua vinda, e esta era sua esperança.

Quando chegou em casa no dia seguinte, deparou com o carro de polícia. Seu irmão fora achado morto. Havia sido espancado na rua; “Provavelmente latrocínio”, falou um dos policiais. Maria, no entanto, sabia que seu irmão não tinha dinheiro nem para sequer ser roubado, e a falta de preocupação no rosto dos policias já dizia tudo o que precisava saber.

Tiveram que arcar com o enterro, e os outros irmãos foram proibidos de continuar a vender doce. Com a morte do caçula, xodó de sua mãe, a coitada caiu em depressão, não sendo capaz nem de se levantar da cama de manhã.

Diante seu desespero, uma vizinha aceitou ajudar a cuidar da criança enquanto trabalhava. Os outros irmãos já viviam por conta própria, sem mãe ou irmã para ajudar. Iam para a escola e voltavam para a casa sem supervisão. Com o passar dos meses, a tristeza se tornou em rebeldia, a rebeldia se tornou em raiva e a raiva se tornou em destruição. Coisas começaram a faltar em casa, e Maria suspeitou que estavam se envolvendo com drogas.

Essa era a nova vida de Maria. Jesus cresceu e logo seguiu o caminho dos tios, tendo que sobreviver nas ruas, mendigando um pouco de troco para comprar um pouco de droga. A mãe, já sem forças, nem chorava mais. Havia há muito tempo aceitado sua condição. Por vezes só se lembrava do anjo que veio lhe visitar com a notícia de que ela geraria o filho de Deus:

— Mas, seu anjo, por favor, eu não posso ter um filho!

— Deixa viver, Maria! Deixa viver.

Olhava, agora, para os céus, e clamava:

— E agora, seu anjo? Eu deixei viver! E agora?

No entanto, era só o silêncio.

Deixa sofrer.

Homo-Sexualidade

Homo-Sexualidade – por Igor S. Freitas, ilustração por Nayara Gonçalvesinstagram @nayaragon_arts

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Chego da escola cansado. Tiro meus sapatos e me jogo na cama, coloco uma música para tocar e me perco com meus fones de ouvido. Meus pais me chamam para jantar no andar de baixo, mas não dou atenção. Tudo o que quero é ficar mais um tempo ali comigo mesmo, escutando minha música e me esquecer do mundo por cinco minutos.

A única pessoa no mundo inteiro capaz de me fazer me levantar me liga no celular.

Sorrio ao ver seu nome e atendo imediatamente. Com meu rock suave tocando ainda no ouvido esquerdo, falo “oi”:

— Já está com saudade?! Acabamos de nos ver!

— Sim, mas, você sabe… Não podemos fazer nada além de dar um simples “oi”, um abraço rápido…

Eu suspiro do meu lado da linha.

— Eu sei… Eu sei. Eu não sei mais o que fazer.

— Amor… Eu preciso contar.

Desligo a música.

— O quê?!

— Não aguento mais esconder isso…

— Amor… Pensa direito…

— Eu já pensei.

— E quanto a mim?! E quanto a nós?!

— O que muda?!

— Eu não sei se estou pronto para ser exposto agora.

—…

— Amor… Eu também estou cansado, mas você não conhece meus pais.

— Você acha que é fácil para mim?! Sabe quantas vezes já escutei comentários do tipo “Quando você vai arranjar uma namorada?”, “A filha da fulana está solteira, você deveria chama-la pra sair”? Estão começando a suspeitar. Não consigo mais fingir um sorriso no rosto toda vez que perguntam.

Jogo minhas mãos à cabeça.

— Tudo bem, se é o que quer fazer.

— Estou com medo.

— Vai dar tudo certo.

— É… Vai sim. Eu te amo.

Sorrio.

— Também te amo.

E encerro a ligação.

Devo ter ficado pelo menos meia-hora só olhando o teto, vendo as lâminas do ventilador girando lentamente, acompanhando a ponta de uma em específico fazer sempre o mesmo círculo, no mesmo ritmo, sempre no mesmo padrão. Era hipnotizante, ao mesmo tempo que agonizante, e era exatamente como estava a minha vida.

Desço as escadas e percebo que meus pais já haviam comido e provavelmente estão descansando no quarto. Tenho a refeição mais lenta e introspectiva de toda minha vida, contemplando cada passo a se tomar, cada provável reação em cadeia das minhas próximas atitudes.

Depois de comer, fico dando voltas pela casa, as horas se passando enquanto eu reunia uma coragem que eu nem tinha certeza se tinha. Olhava-me no espelho e, novamente, vinham aquelas velhas perguntas: “Será que não existe nada mesmo de errado comigo?”, “Posso ser feliz assim?”, “Terei uma vida normal?”. Por mais que já tivesse certeza de quem eu era por quase um ano, ainda era algo que me assustava, incomodava, me pegava desprevenido.

Meu pai desce as escadarias e me flagra naquele estado de total introspecção, o que era incomum para mim. Venho o notando me olhar diferente pelos últimos meses, pois claramente percebe que há algo diferente acontecendo em minha vida. Algo grande o bastante para transformar aquele rapaz energético e extrovertido naquele poeta de chuveiro, aquele constante pensador que nunca mais arranjava tempo para sorrir.

— Você perdeu outro jantar em família. – Fala ele, juntando-se a mim à mesa.

Suspiro.

— Eu sei.

— Quer contar ao seu pai o que está acontecendo contigo ultimamente? Mal te reconhecemos.

Minha garganta trava. Seguro minhas mãos juntas com os dedos rígidos, meus olhos tentando encontrar coragem para encarar os do meu pai, mas ainda temerosos, senão envergonhados.

Mas do quê tinha vergonha? Por estar apaixonado? Por querer o bem de uma pessoa? Por estar feliz de uma maneira que nunca estive antes?

— Pai, eu não sei como… Eu amo vocês, mas tenho medo de que vão me olhar diferente quando souberem.

— Quando soubermos do quê? Filho, nada que pode contar vai mudar o que sentimos por você. Nós te amamos, incondicionalmente, e vamos continuar te amando, seja o que for.

Sinto meus olhos se inundando de lágrimas.

— E-eu…

Minha boca treme, está prestes a escapar meu precioso segredo, mas sou interrompido por uma batida na porta da frente.

Imediatamente, ponho-me de pé para ir checar, já certo de quem se tratava.

— Amor?! O que aconteceu?!

— Me expulsaram! Me expulsaram de casa!

Seus olhos estavam vermelhos, encharcados, e soluçava compulsivamente.

Meu pai estava logo atrás de mim, mas não pude evitar aquele abraço, aquela demonstração clara de afeto.

— Filho, quem é?!

E ele vinha para checar. Ambos nossos olhos estavam molhados, e viro para ele, de cabeça erguida. Era a hora da verdade:

— Pai, esta é minha namorada. Eu sou hétero.

Os olhos do meu pai se arregalavam de leve, indo de mim até ela.

— O que está acontecendo?! Quem bateu na porta a essa hora?

Meu outro pai desce também pela escadaria e vê a cena. Não precisou de dez segundos para entender o que estava acontecendo; talvez fosse o olhar que meu pai lhe deu, talvez fosse minha garota em prantos debaixo de meu braço. O que quer que fosse, tudo que fizeram foi convidá-la a entrar, oferecer a ela um copo d’água com sal e a chance para se recompor.

Meus pais ficaram nos encarando do outro lado da mesa, eu ao lado dela, segurando sua mão. Ela enfim nos contou como suas mães haviam recebido a notícia com muita decepção, dizendo o quanto aquilo era imoral, corrupto, pervertido. De repente, a garota – aquela linda garota – que elas criaram desde bebê, tornou-se na visão delas algo digno de ser jogado rua fora como lixo.

E tudo por quê? Qual crime era aquele que estávamos cometendo? O que havíamos feito para merecer tanto ódio? Que pecado era aquele que nos fazia tão bem, ao menos até o momento em que decidem que devemos ser punidos por ele?

Vendo-a ali chorar em meus braços e os olhares de dúvida, mas principalmente preocupados e protetores de meus pais, tive plena certeza de que não estávamos cometendo pecado nenhum. O maior pecado era o que haviam feito com                 a minha garota; maior pecado era o que faziam com pessoas como nós em todo o mundo.

No entanto, eu a havia lhe feito uma promessa: ficaria tudo bem, e iria garantir que ela ficasse bem. Apertei-a para mais próximo de mim, encarando meus pais, dizendo-lhes com os olhos que era isso o que eu queria, era para isso que eu lutaria por toda a minha vida.

Pelo direito de ser livre.

— Vai ficar tudo bem, amor.

— Eu sei, eu sei. – Falou ela.

Estátuas

Estátuas – por Igor S. Freitas

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A primeira coisa que faço todas as manhãs é ir direto à cozinha beber o café quente que minha irmã passa antes de ir trabalhar, e ler o bilhetinho de “Estude bastante!” que ela me deixa fixado na geladeira. Desde que nossos pais morreram, ela, mesmo tendo só vinte anos, trabalha duro para que eu possa terminar meus estudos básicos. Com sua faculdade, seu trabalho, e minha escola, quase não temos tempo de nos ver, então aquelas pequenas trocas de palavra são sempre bem-vindas.

Ainda bem cedo, tenho que ir pegar o ônibus. A viagem é longa, mas confortável – vou sempre sentado, quentinho, embrulhado em meu suéter, e fico observando a cidade passando naqueles dias chuvosos que sempre aconteciam nos últimos dias de Novembro.

Da janela, vejo tudo: os prédios, as casas, lojas, carros, e, principalmente, as pessoas. A cidade grande atraía todo tipo de gente, e era sempre interessante ficar notando os pequenos traços de personalidade que alguns conseguiam demonstrar por baixo de seus uniformes de cidadãos. Às vezes, era um penteado diferente, uma cor de cabelo inusitada, um brinco chamativo, uma tatuagem; de qualquer forma, ainda eram todas pessoas, todas indo às pressas cuidar de seus afazeres.

Noto, então, algo curioso: uma moça estava parada. Não estava parada de maneira casual, checando seu relógio ou esperando o sinal ficar verde para atravessar. Não, ela estava parada, fixa, congelada como estátua, imóvel enquanto estava para dar um passo a frente, tornando-se um tipo de fotografia viva.

Achei aquilo muito curioso. Talvez fosse uma artista de rua, apesar de suas roupas e localização não condizerem com um espetáculo que você vê por aí nas praças ou sinaleiros. Fui acompanhando a moça ir desaparecendo à medida que o ônibus seguia em frente, e confirmo que ela permaneceu estática enquanto sumia do meu campo de vista.

Intrigado com aquilo, vou notando as outras pessoas: de fato, entre o alvoroço de gente que ia andando de um lado para o outro, podia-se notar alguns indivíduos igualmente estáticos, parados como se tivessem sido paralisados repentinamente enquanto cuidavam de seus afazeres. Eram figuras singulares numa multidão, e só um observador como eu podia nota-los.

Vou pensando naquilo durante o resto do dia. A vida na escola era rotineira, mas cansativa, e tudo o que eu consigo pensar era sobre o que estava acontecendo. Será que ninguém mais notava aquele estranho fenômeno? Será que era eu quem estava vendo coisas?

Na minha turma, todos estavam normais. As garotas iam fofocando sobre garotos, os garotos se exibiam para as garotas, os professores pediam silêncio. Tudo normal.

No entanto, no intervalo, deixo de conversar com meus amigos para observar o restante dos alunos. De fato, noto um ou outro que estavam distantes, quietos, parados. Noto uma menina em particular: bonita, mas tímida, com o rosto baixo, os cabelos escorridos e as sobrancelhas caídas. Chego bem perto dela para testar suas reações, e não consigo nenhuma. O sinal do intervalo toca, todos marcham de volta às suas salas, mas continuo ali parado diante dela, tentando tirar dela alguma resposta.

Não havia nada. Nem ao menos com um toque, com uma pergunta, consigo fazê-la sequer levantar o rosto.

Sinto meu corpo estremecer. As pedagogas gritam para que todos os alunos voltassem para suas salas, e decido deixar que elas cuidassem da menina paralisada. Volto para minha sala olhando para trás, e percebo que ninguém mais a notava. Ela ficou ali, sozinha, invisível, paralisada, sabe-se lá até quando.

Meu estômago começou a embrulhar, e dei graças a Deus que a aula tenha acabado. Volto para casa de ônibus e, novamente, percebo as estátuas pela cidade. Chego em casa e observo a foto de minha irmã na geladeira, sentindo, repentinamente, enorme saudade.

Decido preparar o café da tarde para recebê-la. Aquele era o único horário do dia em que podíamos nos ver, no vago intervalo dela de seu trabalho para sua faculdade, quando ela voltava para casa para tomar banho, trocar de roupa e, às vezes, terminar um trabalho às pressas. De manhã, ela preparava o café para mim. À tarde, eu retribuía o favor.

A água quente já escorre pelo filtro de papel, inundando o ambiente naquele aroma gostoso, quando o telefone toca. Corro para atender pensando ser ela, mas sou recebido por uma voz masculina desconhecida, pesada, de um policial que perguntava sobre mim e minha irmã:

— Sim, sou irmão dela. O que aconteceu?!

— Filho, eu sinto muito, mas sua irmã sofreu um acidente de carro. Ela faleceu. Eu sinto muitíssimo.

Nem deixo a ligação terminar e meu telefone cai no chão.

Pego a garrafa de café e me sirvo de uma xícara quente. Vou até a geladeira e, com a xícara a caminho da boca, observo a foto de minha irmã, e paro.

Paraliso.

Congelo.

Fico imóvel, imóvel como estátua.

 

Espetáculo

Espetáculo – por Igor S. Freitas, ilustração por Nayara Gonçalvesinstagram @nayaragon_arts

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Respiro profundamente enquanto contemplo a foto de uma menina de cinco anos vestida de bailarina. Era o começo de um sonho que, depois de quinze anos, tornava-se realidade. Eu estava no topo, havia alcançado o maior papel de todos, e uma multidão me aguardava para a minha estreia. O sinal toca, anunciando o show que estava para começar.

É hora.

Sigo pelo corredor em direção às escadas do camarim até o palco. No caminho, passo por vários outros dançarinos, figurantes, técnicos e ajudantes de palco. Todos estão com as tensões à flor da pele, assim como eu, todos respirando fundo para acalmar os nervos, aquecendo o corpo e se preparando para a grande noite.

Descendo as escadarias, vejo várias pessoas me aguardando. A primeira delas, uma adolescente de maquiagem e uniforme escolar, olhou para mim com a expressão de maior deboche:

— Quem você pensa que é?! Ninguém gosta de você aqui, menina! Vai embora e pare de passar vergonha!

Ela, então, procede a gargalhar, rir com escárnio e superioridade.

Passo por ela e continuo descendo.

Logo em seguida, vejo uma moça mais velha, óculos e cabelo preso num rabo-de-cavalo.

— Senhorita, precisa pensar mais no seu futuro! Nunca conseguirá nada dançando! Sempre foi tão boa em matemática, porque não vira engenheira?

Respiro fundo e desço mais degraus. À medida que vou chegando até o palco, as faces se tornam mais familiares, mais vivas e, suas vozes, mais claras:

A próxima era minha primeira professora de dança:

— Você dança bem, querida! Mas não se engane, nunca será uma bailarina profissional.

Então, vejo minha mãe:

— Precisa prestar mais atenção na cintura! Quer ficar gorda no dia da sua estreia? Sem almoço para você hoje.

Depois, meu pai:

— Esqueça essa baboseira toda e vá arranjar um marido, menina. Quem mais vai me dar um neto?!

Meus olhos já estão lacrimejando, minhas mãos tão trêmulas que preciso segurar nos corrimões para continuar a descida. Em pouco tempo, estou no palco, a imensa cortina ainda fechada, mas a poucos minutos de abrir e começar o espetáculo.

No entanto, já estava acontecendo um grande espetáculo deste lado das cortinas. Havia várias pessoas, várias vozes entre aquelas que escutei na escadaria, ali me cercando, falando-me, observando-me, julgando-me, dirigindo-me, dizendo-me que eu não era boa o bastante.

O som ensurdecedor fazia meu peito bater com violência, meu corpo tão trêmulo que eu jamais seria capaz de me equilibrar na ponta dos meus pés.

Enfim, dentre toda a audiência que vaiava, vejo uma menina de cinco anos vestida de bailarina. Linda, pequena, com os olhos carregados de sonhos e com o sorriso enaltecido pela diversão.

Ela só queria dançar, ela só queria brincar.

Quando ela se vestia, sentia-se como a princesa mais linda do mundo.

Quando ela girava, era como se dançasse para os próprios reis e rainhas das histórias que tanto gostava de ler.

Vindo até mim, ela me diz:

— Eu quero ser uma bailarina!

E eu lhe entrego um sorriso molhado:

— Você já é!

E a abraço. No segundo que a toco, todas as outras vozes se calam, todas as faces desaparecem, e ficamos só nós duas.

Logo, ela também vai embora, e as cortinas sobem.

O espetáculo começa.

Sinal Vermelho

Sinal Vermelho – por Igor S. Freitas

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A noite acabaria igual as outras. Eu, intoxicado, voltaria sozinho para casa e cairia duro na cama sem ao menos trocar de roupa. Já estava habituado a beber sozinho, desde que meus amigos começaram a namorar, casar, ter filhos, começar a construir uma vida adulta a dois.

Era somente mais uma noite daquelas. Ligo meu carro e sigo direto para avenida, já vazia pelo horário. Duas da manhã, preciso só seguir em frente por mais cinco minutos até estar de novo na fachada do meu prédio, três lances de escada até a minha cama. São duas da manhã, uma chuva começa a cair, e não há mais uma alma viva nas ruas.

Passa um sinal, está verde.

Eu sei que acordaria com minha mãe me ligando pela manhã, preocupada comigo. Mesmo já no meu próprio apartamento, é como se ainda vivesse com ela; sua constante preocupação, sua vigília, suas regulamentações.

Passa outro sinal, ainda verde.

Depois de almoçar com ela, eu visitaria alguns amigos pela tarde, assistiria a um futebol na televisão, beberia mais algumas cervejas. Eles me perguntariam sobre a noite anterior, tentando discretamente investigar se eu conheci alguém.

Mais um sinal.

E, pela noite, eu voltaria para casa, tomaria um banho de meia hora e ficaria olhando a foto dela no meu celular, o único registro de que ela um dia fez parte de minha vida, até conseguir dormir.

Outro sinal, estava vermelho.

Fosse o álcool ou a adrenalina, minhas mãos estavam grudadas no volante, meus pés, imóveis, meus olhos, fixos apenas na avenida em minha frente.

Eu não parei.

Eu deveria ter parado.

Eu deveria ter olhado ao meu redor e visto o que estava por vir, mas já estava indo rápido demais para me fazer parar.

Quando me dou conta, já era tarde demais para fazer a curva.

Meu carro se desequilibra com a virada abrupta, e me vejo indo a noventa por hora em direção a um poste.

Grito, fecho os olhos, antecipo o fim, antecipo a dor. No entanto, ela nunca veio. Ainda estou vivo, parado, as mãos ainda no volante, olhando em volta para perceber que eu havia parado no tempo: as gotas da chuva estavam pairadas no ar, o carro, na exata posição em direção ao poste, um segundo antes da colisão.

Sinto o peito inchar, repentinamente completamente sóbrio, como se não tivesse ingerido uma só gota de cerveja essa noite. Observo a rua – ainda, por um motivo, agarrado ao volante – e percebo uma pessoa do lado de fora, bem no meio da avenida, parada e olhando para mim.

Era ela.

Era realmente ela. Olhava-me com aqueles mesmos olhos carregados de culpa, incerteza, arrependimento. Vestia-se como noiva, a noiva que um dia foi, a noiva que um dia eu tive ao meu lado.

Vidrado em seus olhos, simplesmente larguei o volante e saí do carro, andando entre a chuva congelada naquele segundo interminável e parando logo a sua frente.

Eu sabia por que ela estava ali. Eu, finalmente, teria uma resposta:

— Por quê?!

E água que não era da chuva molhou suas bochechas:

— Eu vi o sinal vermelho, mas não parei. Eu deveria ter parado. Eu deveria ter olhado ao meu redor e visto o que estava por vir, mas já estávamos indo rápido demais para nos fazer parar.

Eu baixo minha face, agora também em lágrimas:

— Quando eu me dei conta – Continuou ela – já era tarde demais para fazer a curva.

E colidimos.

Roleta Russa

Roleta Russa – por Igor S. Freitas, ilustração por Nayara Golçavesinstagram @nayaragon_arts

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Olho fixamente para seu par de olhos estreitos. Sua sobrancelha está carregada, caída, franzindo a testa e me observando carregada de dúvida.

Entre nós está apenas a mesa redonda e gelada, branca, da mesma cor da sala, e o cano preto do revolver. Somos banhados na luz incandescente e fria do ambiente que emitia uma vibração fraca, mas contínua, incessante, inconsiderada, incansável, interminável, mas, mesmo assim, tudo que posso escutar são as batidas do meu próprio coração.

Ela pega o revólver e aponta em direção de si mesma. Segura com força, confiante, e depois levanta novamente os olhos para me encarar, aguardando-me.

Minha boca treme, engulo em seco e cuspo fora a primeira pergunta:

— O que você estava fazendo na casa dele aquela noite?

Ela não reage diante a primeira pergunta. De fato, talvez até a esperasse.

— Estava precisando de um amigo. Ele era o único amigo que eu tinha no momento. Nós conversamos, bebemos, rimos… e fui embora para casa.

Dito isso, aperta o gatilho do revólver, e nenhum tiro é disparado.

Ela gira o revólver e o empurra para mim, deslizando-o pela mesa. Sinto seu toque frio e o seguro com ambas as mãos em minha própria direção, apontando-o para minha jugular, sem nunca desviar meu olhar do dela. Vejo sua boca abrir, meu coração gradualmente martelando mais forte, e escuto sua pergunta.

— Por que você nunca confiou em mim?

Eu também antecipava tal pergunta, mas não consegui manter a compostura tão brilhantemente como ela fizera. Ainda assim, era algo nem tão difícil de responder; era algo que havia permeado em nosso relacionamento do início ao fim e, mesmo ela ouvindo a verdade, era algo que ela jamais iria entender.

— Todos sempre comentavam como você poderia arranjar alguém melhor – alguém mais bonito, mais rico, mais interessante. Ninguém conhecia nossa história, mas era isso que todos sempre viam do lado de fora. Eu nunca esqueci nossa história, mas temia que você fosse esquecer.

Ela abaixa a cabeça, como se frustrada, e a arma segue sem disparar; já sei minha próxima pergunta.

— Você esqueceu nossa história? – Pergunto, ela me encara ainda frustrada. Segura novamente o revólver para a própria direção e responde, os olhos agora baixos.

— Não, é claro que não. Mas… eu quero esquecer.

Assim, ela aperta o gatilho, novamente sem tiro. A arma não estava virada para mim, mas, quando ela falou aquilo, era como se estivesse.

Eu fico progressivamente mais atormentado e ela, mais insegura. Sabia que estávamos entrando em território cada vez mais perigoso, onde nenhum de nós dois ousou ir antes, mas que precisávamos, enfim, explorar. Peguei de volta o revólver, cada vez mais pesado em minhas mãos trêmulas na medida em que aquele jogo prosseguia.

— Você me odeia? – Pergunta ela, com os olhos trêmulos.

Os meus olhos também tremem. Denunciam-me caindo, perambulando para todo ponto branco daquela sala não fosse o preto de seus olhos, mas aquele jogo já havia ido longe demais para eu desistir agora.

— Eu quero dizer que sim, mas não posso.

Aperto o gatilho, e novamente a arma não reage.

Deposito o revólver sentindo que o final era inevitável. Estava prestes a descobrir algo que não queria descobrir, e logo me vi arrependido de estar jogando aquilo. Ela pega de novo a arma, respira fundo e a aponta de novo para si mesma.

Tínhamos, ambos, os corações acelerados, como dois carros indo a cem por hora em direção de se colidirem. Não sabia como venceria o som ensurdecedor do meu peito, mas, de alguma forma, minha última pergunta ecoou, a pergunta que eu mais temia fazer:

— Você me amou de verdade? Em algum momento?

Imediatamente, vejo o revólver tremer como bambu ao vento em suas mãos. Ela abaixa a face e lágrimas escorrem finalmente de seus olhos. Vira o rosto, morde os lábios, torce o nariz, engole em seco, pigarreia, seca as lágrimas e só então volta a me encarar, olhando-me agora como um assassino olha para sua vítima indefesa.

Ela contemplava, ponderava sobre suas opções. Seria a morte pior que o dano que ela causaria em meu peito? Ela, enfim, tomou sua decisão:

— Eu quero dizer que sim, mas não posso.

E minha face também tomba, assim como tomba meu coração.

Quando ela deslizou a arma novamente para mim, já sabia que esta era a última rodada. Ela, com a voz partida, finalmente pergunta aquilo que ela, eu e todos no mundo gostariam de saber:

— Você ainda me ama?

Nossos olhos se encontram pela última vez naquele jogo maldito. No espelho de suas pupilas, estavam refletidas todas as memórias que tivemos juntos: todos os beijos, todas as trocas de carinho, todas as promessas de amor.

E era tudo mentira.

Seguro o revólver com firmeza na mão.

— Não. – Respondo.

E disparo.

 

Presente de Natal

Presente de Natal – por Igor S. Freitas

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Cai a noite tão gloriosa, e a família descansa, ansiosa. Aguarda o bom velhinho chegar, que, a todos, vinha visitar.

Piscam as luzes, brilham as árvores iluminando as ruas preguiçosas. Sopra o vento, reina o silêncio, pousam as renas estrondosas.

O saco pesado, o trenó carregado, os presentes estão para chegar! A sala é vazia, a casa é tranquila, todos estão a descansar.

Na calada da noite, todo sorrateiro, desce o velhinho em vermelho. Vê as luzes, na árvore, a piscar, e escuta a família, nos quartos, a roncar.

Pai, mãe, vó, filha e filho, todos estavam a sonhar. Esperavam quietinhos o bom velhinho que lhes viria presentear!

Debaixo da árvore, direto do trenó, deixou o primeiro presente. Fita amarela, endereçado para a avó, mas sem nenhum remetente!

Com o embrulho, só um bilhete, um lembrete em letra de mão: “Solitária, triste, ociosa idosa, ofereço um pouco de diversão!”.

O primeiro presente era entregue, assim, recheado de emoção. Em seguida, o segundo, ali no fundo, leva o nome do paizão.

Homem justo, honesto, bondoso, sério, de trabalho e tradição. Trabalhou e lutou pelo próprio mérito, agora estava sem ocupação!

“Da minha família, preciso cuidar, preciso ganhar o meu pão!”. Era o que dizia o pai, a chorar, ao ver a sua condição.

“Pois, um emprego, eu não posso dar”, disse o velhinho, “essa não é minha função”. “O que precisa, meu homem, no seu lugar, é de um pouco de motivação!”.

Então, debaixo da árvore, deixou seu presente, embrulhado com muita atenção: um pouco de fé, flexibilidade, coragem e dedicação!

Assim feito, todo satisfeito, o gorducho em vermelho, contente, está. O próximo presente, sem mais rodeio, para a mãe preciosa será.

Tão bela por fora quanto era por dentro, alegria, a mãe sempre espalhava.  O câncer, veneno, que a consumia, no entanto, pálida e fraca a deixava.

A dor era grande, o dinheiro faltava, o desespero era triste de ver. Todos na rua, todos no bairro, lágrimas, não podiam conter!

“Ó, minha querida, vejo tua fatiga, bom coração, sei que tu tens! Levanta da cama, espreguiça e canta, esperança, não podes viver sem!”.

Uma estrela esverdeada, como esmeralda, o bom velhinho ali deixou. A próxima felizarda, toda maltratada, era a jovem que até então nunca amou!

Nova e sonhadora, cheia de encantos, entregou o seu coração. Havia sorrido, mas o seu amor, sofrido, não teria continuação!

Agora, no espelho, olhava-se, odiosa, sem mesmo uma explicação. “Pois, ama-te, minha jovem, olha-te e te adora, essa é a única solução!”.

Com muito cuidado, num embrulho listrado, deixou ali a adoração. Um belo espelho, o amor verdadeiro, prometia sua superação.

Com tudo quase pronto, o velhinho, feliz, soltou uma exclamação: “Falta agora apenas o pequeno aprendiz, sempre a dar um trabalhão!”.

A criança mais nova, a única a acreditar, dormia, sonhando, em grande, ficar. “Agarra-te em tua fé, sem pestanejar, pois, logo, ela irá te faltar!”.

“Um ano, dois anos, três anos e mais, e logo não irá mais sonhar. Paciência é o que te ofereço, menino, não custa, um pouco, esperar! ”

Terminado o serviço, o velho roliço observou cheio de satisfação: “Essa família unida, amanhã, reunida, terá grande comoção!”.

Assim, foi embora, o dever já feito, partindo alto no céu. Tudo bonito, tudo perfeito, vai, feliz, o Papai Noel.

Fôlego

Fôlego  – por Igor S. Freitas

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Mais um dia de corrida. Coloco meu par de tênis sempre companheiros, mesmo velhos e rasgados nas pontas, e vou até o velho parque.

Primeiramente, o alongamento. Dobro meu corpo no meio, estico as pernas e toco a ponta dos pés, respiro fundo e deixo o ar entrar até estufar minha barriga. Meus músculos se relaxam, as juntas se folgam, e estou pronta para correr.

Os primeiros mil metros são apenas de aquecimento. Corro com um ritmo lento, mas estável, e em seis minutos já cubro o primeiro quilômetro. Não estou no meu ritmo máximo, mas já consigo deixar muitos para trás.

A partir daí, começo a acelerar. Vou ganhando velocidade aos poucos, sempre me preocupando em manter o corpo reto, o rosto erguido e a respiração equilibrada. Puxo o ar para dentro pelo o nariz e o expulso pela boca, conseguindo, assim, manter meu fôlego.

Muitos tentam me alcançar, mas sou muito rápida. Olho sempre para a pista a minha frente focada nos meus pés, na minha respiração, e mal presto atenção nos outros corredores.

Enfim, vejo o primeiro adversário à minha altura. Meu chefe vem correndo atrás de mim com toda a papelada nas mãos, os braços erguidos e gritando sobre os relatórios atrasados:

— Eu preciso disso entregue para ontem, você me entendeu?! Ontem!

Aperto o passo e continuo a correr, ignorando seus gritos.

Dois quilômetros; ainda estou inteira. Estou me aproximando ao meu ritmo de pico, e os corredores que vejo naquela pista agora só vão ficando mais velozes, mais difíceis de superar.

Na pista, surgem meus dois meninos, correndo atrás de mim enquanto choravam. Mesmo com oito e dez anos, são atentados que só eles, e preciso manter o foco para não jogar tudo a perder com os seus mimos:

— Mãe! Ele bateu em mim!

— Mentira! Bati nada!

— Bateu sim!

— Bati não! Ele que é um chorão!

— Mãe…!

Continuo firme na corrida, mesmo que suas vozes demorem a desaparecer. Mantenho o foco, seguro a dor no peito, e sigo em frente.

Três quilômetros; começo a cansar. Sinto o peito ir ardendo, minha respiração começar a me trair com inspirações mais curtas e apressadas. É difícil manter o ritmo e a respiração constantes, mas ainda consigo me manter.

Vejo, então, meu ex-marido com suas acusações constantes:

— Quando você irá admitir que me traiu?! Eu deveria estar com as crianças, não você!

Começo a contar até dez enquanto corro. Minha respiração já está ficando mais acelerada, mas também está meu ritmo.

Quatro quilômetros; minhas energias estão no fim. Percebo todos os outros corredores ganhando terreno, ficando mais e mais próximos de mim.

Eis que vejo uma multidão correndo. Centenas de pessoas sem rosto vêm a passos ligeiros, todos tão rápidos quanto eu e quase na minha cola. São mil vozes que gritam todas ao mesmo tempo, mas que são sempre os mesmos discursos:

— Por que não presta mais atenção nos filhos e não no trabalho? Desnaturada!

— Todos sabem que você traiu o marido com o seu chefe! Afinal, como subiu de cargo?

— Você deveria usar mais maquiagem! Está sempre com o aspecto cansado!

— Não vai arranjar outro homem logo? O que as pessoas vão pensar?

— Cuidado para não ficar para titia!

Eram vozes altas demais, mas percebo algo diferente: com todo aquele barulho, com toda aquela fúria que nascia dentro do meu peito, percebo que meu corpo ganha uma energia nova.

Corro mais e mais rápido. Explodo como um canhão, zunindo veloz.

Cinco quilômetros. Termino a corrida.

Sento e respiro fundo, bebo um longo gole de água, observo o céu bem no alto. Quando me ponho de pé de novo, vejo que todos os outros corredores já estavam de novo próximos.

Não tem problema.

Eu tenho fôlego.

 

 

Reflexo

Reflexo – por Igor S. Freitas, ilustração por Nayara Golçavesinstagram @nayaragon_arts

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Olhe só para ela… Tão linda! Todas as manhãs, não deixo de contemplar a beleza dos seus olhos verdes, a suavidade de seu nariz levemente arrebitado, seus lábios delicadamente desenhados, enquanto ela penteia seus cabelos louros e vivos.

Minha irmã é realmente maravilhosa.

É claro, alguns podem dizer que sou tão linda quanto ela, mas poucos reparam em mim. São sempre os olhos dela que todos notam, não os meus. Eu fico apenas nas sombras, de escanteio, tolamente tentando imitar seus gestos para que alguém me note.

Reparo sempre nas roupas que ela usa: de manhã, ela veste um jeans despojado em par com uma blusa levemente decotada, uma regata ou uma simples camiseta, ou então mete um vestido de verão, sempre bem-vindo e infalível em seu corpo esguio e encurvado. Ela sorri para mim logo antes de sair, pergunta-me se estou bonita e vai embora para o dia-a-dia sabendo que qualquer porta a sua frente será aberta com o brilho dos seus olhos.

Vejo-a novamente apenas no final do dia, ela já preparada, logo após o banho, para as diversões que a noite lhe reserva. Ela fala comigo, enquanto passa rímel nos olhos, dizendo que esta seria a noite em que ela conheceria seu príncipe encantado. Por isso, precisava estar sempre impecável. Eu já sabia que ela atraía todos os tipos de olhares, inclusive aqueles perigosos, mas nada posso lhe dizer antes que ela vire as costas e saia para as suas aventuras.

Na noite seguinte, ela ressurge, bêbada, os cabelos desarrumados e a maquiagem borrada. Volta a me encarar agora com vergonha nos olhos. Sua busca desesperada pelo amor a havia feito fazer coisas das quais agora se arrepende, mas eu nada pude fazer por ela. Tentei lhe dizer na festa, com um olhar, de que estava tomando a decisão errada, de que ela não precisava daquilo. Ela me encarou por breves segundos enquanto retocava a maquiagem, mas decidiu não seguir meu conselho.

Agora, são olhos manchados de uma máscara borrada e lágrimas escorridas que me encaram. A preciosidade de sua beleza natural e singela desaparecia dentre aquela confusão cosmética e artificial, e, novamente, eu nada podia fazer por ela.

Eu sabia que, na semana seguinte, ela faria tudo de novo. Eu tentaria impedi-la, mas continuaria impotente.

Ao menos se eu fosse ela.

Ao menos se eu tivesse o que ela tem.

Pois, mesmo sendo sua gêmea, nada posso fazer.

Pois, mesmo tendo sua aparência, sou impotente atrás do vidro.

Sete dias se passam, e ela está novamente diante de mim retocando sua maquiagem, prometendo-me que, dessa vez, as coisas seriam diferente.

Eu apenas reafirmo, incapaz de negar.

A Escalada

 Escalada – por Igor S. Freitas, ilustração por Nayara Gonçalves, instagram @nayaragon_arts

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Abro a porta de casa e não vejo ninguém. O breu familiar era convidativo, a escuridão ali presente mesmo sendo apenas o final da tarde, e me deixo cair no sofá sem ao menos me importar de tirar os sapatos.

Eu dormiria ali mesmo se não tivesse tanta coisa pra ajeitar no apartamento ainda. As roupas seguiam sujas, a louça se acumulava desesperadamente na pia e um odor inconfundível dizia que havia algo podre na geladeira.

Se não fosse minha coragem, seria minha fome que me colocaria de pé. Fui checar o que havia ali para comer – certificando-me de tapar o nariz antes de abrir a geladeira – e tiro de dentro um sanduíche não acabado do dia anterior e um resto de iogurte; seria o bastante.

Ao fechar a porta, no entanto, um bilhete miúdo fixado na porta e escrito com letra de criança me chama atenção. Pego para ler e as palavras do meu filho de dez anos me fazem lembrar de seu grande jogo de futebol que aconteceria naquele final de tarde, em menos de trinta minutos.

Bato a cabeça contra a porta, indignado, cansado, desesperado para me deitar e dormir até o dia seguinte. Ora, ele provavelmente não se importará de eu não estar lá! É apenas um jogo, ele entenderia. Ele, com toda certeza, não ficaria chateado e choraria no colo de minha ex-mulher e de seu novo padrasto, mais rico, mais alto e mais…

Termino de fechar a porta, furioso. Queria condenar aquele bilhete, a equipe de futebol, a quadra e todo o esporte junto. Com as mãos na cabeça, olho para o meio sanduíche e, depois, para a foto do meu filho logo ali ao lado de onde se encontrava o bilhete.

Em cinco minutos, já estou de novo na rua.

Por sorte, a quadra onde aconteceria o jogo não era longe. Fui seguindo andando, caminhando, observando as ruas, os carros, as pessoas. O sol ia se pondo lentamente no horizonte e, em pouco tempo, vou notando que havia algo diferente naquela cidade.

As ruas iam desaparecendo, dando lugar a um enorme campo. Havia um gramado verde que não lembro existir ali naquela parte da cidade e, quando me dou conta, também haviam desaparecido os carros, prédios e ruas. Havia apenas a quadra de futebol, as grades muito altas estendidas e centenas de pessoas caminhando em direção a elas.

Era engraçado eu não ter reparado antes, mas eu estava no meio de uma multidão que caminhava em passos iguais na mesma direção que eu. Não entendia porque um mero jogo de criança havia atraído tanta gente, mas logo me dou conta de que não se tratava mais de um jogo: não havia ninguém ali para jogar senão nós, que andávamos em direção a quadra, todos aparentemente sem entender o que estava acontecendo.

Paramos todos diante a quadra vazia, já entendendo que nenhum jogo, ou qualquer outra coisa aconteceria ali. Ficamos todos calados, intrigados, entreolhando-se, todos na mesma situação, aquela situação absurda, estranha, mas a qual éramos, por algum motivo, todos cúmplices.

Ninguém quebrou o silêncio para conversar, mas, sim, para alardear. Um grito rompeu e, muito mais rápido que eu pudesse sequer reagir, vi todos correndo como loucos em direção às grades.

Olhando para trás, assustado, vejo o motivo do pânico: o chão, que era grama e terra, estava cedendo como vidro caindo no infinito. Estávamos repentinamente em solo instável, que aos poucos se despedaçava, de dentro para fora, indo em direção às grades da quadra de futebol.

Meu coração dispara. Penso em meu filho, agora temeroso dele estar realmente ali, esperando-me para vê-lo jogar, para penas fatalmente cair para sua morte. Chamo por ele, mas não tenho resposta, sou apenas empurrado para todos os lados pelas pessoas que já subiam desesperadas as grades.

O interior da quadra estava vazio, não havia nenhuma criança ali. Havia, de fato, todo tipo de gente – brancos, negros, ricos, pobres, homens, mulheres, bonitos, feios – mas nenhuma criança e, graças a Deus, não havia meu filho.

Seguro de que ele estava bem, longe daquele absurdo, percebi que também não lhe faria nenhum bem estando morto. Precisava viver, precisava ver seu sorriso de novo, mostrar para aquele riquinho babaca que ele jamais terá meu lugar de pai.

Pensando nele, pensando no meu filho, corro para a escalada.

A maioria das pessoas subia com desespero. Havia muita gente, muita mesmo, e todas queriam um espaço naquele engradado e subir o mais alto possível. O chão já faltava, olho para trás e vejo olhos chorosos, braços que desapareciam no vácuo, vozes que se calavam no infinito.

Por sorte ou milagre, encontro um espaço só meu para subir. Agarro-me com força, prendo-me a ele e me faço escalar. Só precisava subir um pouco e ficaria bem, muito bem. Olho para o lado e me horrorizo quando vejo meus colegas de grade derrubando os outros que tentavam subir, fazendo-os cair para a eternidade daquilo que estava abaixo de nossos pés.

Quando olho para baixo, vejo os olhos molhados de uma garota, uma adolescente. Estava prestes a se soltar, seus dedos mal conseguindo se aderir aos arames, e antecipo o momento em que ela vai cair.

Num instinto, jogo meu braço em sua direção e sinto sua palma se agarrar a minha. Ela, segura de volta às grades, volta a escalar, assim como eu. Decido-me apenas em me concentrar em subir, esquecendo-me daqueles que estavam ao meu redor, daqueles que derrubavam, daqueles que se jogavam, daqueles que desistiam. Eu só queria subir por ele, pelo meu menino, para poder enfim vê-lo jogar futebol.

Fui de olhos fechados, rezando para que ninguém me puxasse e me jogasse para minha morte. Só segurava firme as grades e subia, respirava um pouco mais e continuava subindo. Enfim, fui sentindo na pele suada uma brisa fresca, um ar perfumado e revigorante, além de sons de pássaros voando alto.

Estava no topo da escalada. Ali, comigo, havia mais uma dezena de pessoas, todas olhando, agora em paz, o destino final.

Senti-me vivo pela primeira vez em anos ali. Vendo os pássaros voando, não me importava mais com a vida que me aguardava no chão. Ali, no alto, eu era maior que o mundo, e tudo ficaria bem, muito bem.