Água com Gelo (Final)

28 de junho, 11h06min

Odeio hospitais: as luzes muito brancas e claras, as caras doentes, o ar de morte… Não havia a luz do sol ali dentro, e a saúde era vendida para aqueles que podiam pagar por ela e, muitos, muitas vezes, não podiam.

Mesmo assim, estar aqui é inevitável para uns. Foi inevitável para Douglas.

Foi bastante difícil conseguir informações sobre ele quando, de repente, eu me vi removido completamente de sua vida. Jamais senti o peso da discrição do nosso relacionamento como agora, quando percebi que não tinha contato com nenhum de seus amigos, tampouco com seus pais.

Só vi sua mãe uma vez. Após aquele breve encontro no dia em que Douglas me pediu em namoro, nunca mais voltei a vê-la, e sempre senti que aquilo era proposital. Afinal de contas, sextas-feiras continuaram a ser os dias em que podíamos nos ver, salvo algumas exceções no clube durante a semana, quando nenhum de seus pais estavam em casa. Nunca tive um jantar em família com eles, uma apresentação formal e oficial, algo que me colocasse na posição de alguém que era mais que um mero conhecido.

Eu havia aceitado essa condição. Douglas havia sido bem honesto e sincero em relação às suas necessidades, e eu as respeitei. Eu não me importava, não muito, mas, agora, eu me sentia como se nunca tivesse existido em sua vida.

Mais de um mês se passou e só agora tenho meios de ir vê-lo. Se eu fosse um parceiro como haviam sido as garotas as quais ele já namorou, eu não teria tido toda essa dificuldade em saber o que estava acontecendo, entender por que ele não havia recebido alta ainda, ou ao menos ser autorizado de visitar, tendo que mentir no balcão e dizer que eu era um primo para que me deixassem entrar.

Era como se eu estivesse cometendo um crime.

Assim, sorrateiro como se fossem me flagrar no meu delito, subo pelo elevador até o segundo andar. Seu quarto era o oitavo, no final do corredor e, assim que ponho os pés fora do elevador, vejo a mãe de Douglas vindo em minha direção.

Meu coração, por algum motivo, palpita. Eu tinha duas opções ali: andar pelo corredor em direção a ela e denunciando aonde eu estava indo, ou aguardá-la no elevador, fingindo que estava de saída ou indo para outro andar.

Eu escolho a terceira opção: rapidamente faço o elevador subir outro andar antes de ela ter a chance de entrar, prevenindo nosso encontro. Não era muito lógico eu querer evita-la, afinal de contas, eu pouco sabia sobre ela. No entanto, uma voz interior, seja intuição, seja astúcia, urgiu para que eu saísse dali, então apenas volto ao segundo andar quando tenho certeza de que o caminho estava limpo.

Ao menos, agora eu tinha certeza de que não havia mais ninguém com Douglas. Meu coração batia mais velozmente à medida que me aproximava, entrando num frenesi ao mesmo tempo angustiante e delicioso. Fui privado do sabor daquele bolo de chocolate, que ficou deveras mais tentador após o acampamento, por mais de mais de um mês, e só a ideia de ouvir sua voz me enchia de empolgação. Em face de vê-lo de novo, abraça-lo de novo, beijá-lo de novo depois de tantos dias temendo por sua vida, eu já nem me preocupava tanto mais com os dias que antecederam aquela mensagem, o seu atraso e o motivo do acidente. Eu só estava contente por ele estar vivo.

E é vivo como o vejo quando entro em seu quarto, deitado e com os olhos vazios e mirados num canal bobo de televisão.

Bato na porta e ele me repara. Pelos primeiros três segundos em que nossos olhos se encontram, tenho certeza que meu coração parou de bater.

Era bizarro. Foram 43 dias, 1032 horas, 61920 minutos que fiquei sem vê-lo, Tempo esse o qual senti, o qual recordo, o qual recapitulo e reconto com perfeição, mas, ao mesmo Tempo, era como se havia sido ontem.

—…Oi. – Falo.

—…Oi. – Ele responde. Sua voz me preenchia por dentro como a água do poço na garganta de alguém que passou 43 dias sedento no deserto. Seguro as lágrimas, me contenho e ando até ele.

Seus olhos estavam fixos em mim, mas sérios. Suas feridas estavam quase completamente curadas, a mancha preta em sua pálpebra havia desaparecido e o corte na testa havia se fechado, deixando uma leve cicatriz.

Mesmo assim, eram os mesmos olhos. Era o mesmo brilho azul de um garoto bobalhão e inocente querendo descobrir a vida. Era o mesmo brilho azul do rio em que eu mergulhei fundo, completamente e irreversivelmente.

— Eu estou tão aliviado por você estar bem!

Ele me deu um sorriso diplomático.

— Obrigado! Eu lamento ter causado tanta dor de cabeça.

— Dor de cabeça?! Antes fosse!

Ele engole em seco, e é aí que começo a perceber que havia algo errado.

Era, sim, o mesmo brilho azul, mas não era o mesmo brilho de quem estava feliz em me ver.

“Kai, precisamos conversar…”

Respiro fundo.

— Douglas, eu não sei o que você tinha para me dizer naquele dia, mas eu só quero que saiba que, antes de qualquer coisa, eu estou muito feliz por você estar bem.

E, aqui, toco em sua mão.

Ele imediatamente a afasta da minha e me entrega um olhar confuso.

— O que foi?!

Algo não estava certo.

— Olha, eu sinto muito, mas… eu não sei quem você é. Eu não me lembro de nada.

Mas, nunca, jamais, em momento algum, eu esperava que estivesse tão errado.

Eu não consigo respirar – já estou me afogando.

 

 

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Água com Gelo (Parte 30)

23 de maio, 16h59min

Chego à Casa da Mãe Joana e me sento à mesma mesa de sempre. O estabelecimento estava quase vazio e ela logo me nota. De fato, até me aguardava.

Aqui havia servido como um ótimo local de encontro para Douglas e eu nos últimos meses. Como era mais frequentado nos dias de semana que nas sextas-feiras, quando as pessoas geralmente preferem lugares onde possam comprar bebida alcoólica, aquela simpática lanchonete oferecia a privacidade que um casal como nós precisava. Ficávamos tão a vontade nas nossas noites de sexta ali, com a companhia das delícias da Mãe Joana e, principalmente, um do outro, que conversávamos sobre a nossa semana sem medo nenhum de sermos descobertos, podendo até mesmo nos permitir um toque de mãos por cima da mesa uma vez ou outra.

Agora, estava ali sozinho. Mãe Joana veio me atender com seu alto astral de sempre, obviamente perguntando sobre Douglas.

17h00min.

— Ele já deve estar chegando.

— Está tudo bem, querido? Me parece meio abatido.

— Não é nada. – Respondo prontamente, pois não sabia se era uma mentira ou não.

Afinal de contas, “precisamos conversar” realmente quer dizer algo ruim?

Mas, ao mesmo tempo, quer dizer algo bom?

Quer dizer qualquer coisa?

Não havia nem uma semana e tudo parecia tão bem. Não havia nem uma semana e estávamos tendo um momento mágico no acampamento.

Mas, ora, eu já não havia concluído que O Tempo não funcionava da maneira que eu achava? Não havia concluído que uma experiência intensa era mais marcante que uma centena de experiências chulas?

Apenas cinco dias se passaram, mas muita coisa pode acontecer em cinco dias.

Ou até menos que isso.

Talvez, algo havia acontecido logo após…?!

Talvez, algo havia acontecido durante…?!

Talvez, Douglas percebeu, enfim, que eu não era o que ele queria de fato.

Ele, afinal de contas, ainda estava se descobrindo, não estava? E se eu fosse apenas um experimento que, depois de ter sido tirado a prova, se mostrou insuficiente?

Fico revisitando incansavelmente aquela noite a procura de pistas. Lembro-me de todos os detalhes, todas as carícias, todas as trocas de olhares. A hipertimésia me permitia que eu revivesse aquele momento quase que com total intensidade, pois não era apenas a memória visual que me vinha: eram também os cheiros, as sensações na minha pele, na minha boca, e, é claro, em outras partes…

— Kai? Vai querer alguma coisa enquanto Douglas não chega?

Quase pulo num susto de tão vidrado que eu estava, mas era apenas a Mãe Joana.

Respiro fundo, ainda com aquela noite em mente.

— Água, por favor. Com gelo.

 

23 de maio, 18h04min

A hora mais longa da minha vida havia passado, e ainda não havia sinal do Douglas. Eu pegava meu telefone compulsivamente, checando possíveis novas mensagens, ora e outra ligando apenas para ser recebido por uma caixa de mensagens.

Fico observando o teto, estralando meus dedos, passando o copo, já vazio, de um lado para o outro, brincando com o canudo, passeando pela lanchonete e observando as fotografias nas paredes.

Todas as pessoas nelas pareciam felizes, congregando-se em pequenas celebrações. Provavelmente, eram celebrações de coisas simples na vida: um dia de trabalho realizado, um céu ensolarado depois de um período de chuva, o salário na conta no virar do mês. Mesmo assim, estavam felizes, genuinamente felizes por estarem ali, por estarem juntas, e era por isso que Mãe Joana as exibia com tanto orgulho em sua parede. Ela, como toda boa mãe, se contentava com a alegria de sua cria, e era isso que lhe dava, também, felicidade.

Também parecia feliz, Douglas, sorridente ao lado dos amigos após uma partida de futebol em sua fotografia. Ali, ele era apenas um adolescente normal, sem nenhum drama em relação à sexualidade, à sociedade, a um relacionamento com alguém complicado como eu.

“Eu só posso te dizer a verdade, Kai: eu não sei o que eu estou fazendo! Em relação a você, a mim, a nós… É muito confuso. Ontem, eu quis ir para aquela festa apenas para tentar resgatar um pouco de quem eu costumava ser.”

Talvez, Douglas ainda gostaria de voltar a ser quem ele costumava ser. Talvez, depois de experimentar o que é realmente amar outro homem, ele tenha percebido que não valia a pena todas as dificuldades que vinham com esse amor.

Será que eu poderia culpa-lo? Afinal de contas, eu também tentei evitar esse amor.

Não fosse um sentimento tão poderoso, uma atração tão incontrolável, eu jamais teria abandonado a segurança da minha rotina, da minha água calma, e me aventurado naquele rio. Minhas águas não corriam velozes como as de Douglas, mas, talvez ele não soubesse mergulhar a fundo na profundidade delas.

Não era fácil dar aquele mergulho. Era preciso muito fôlego, muita coragem. Mergulhe fundo demais e já não conseguirá voltar para a superfície. Não era como namorar uma garota. Não era nem mesmo como namorar uma pessoa normal, alguém que não irá se recordar de todas as brigas, todas as decepções, todas as discordâncias.

Observo um casal ali, um casal como qualquer outro, sentado a duas mesas adiante, e vejo a despreocupação em seus sorrisos. Eles podiam se tocar sem medo de olhares estranhos. Eles podiam compartilhar seus momentos com familiares e amigos sem medo de serem rejeitados. Eles também podiam aproveitar apenas o presente, aquele precioso momento que era o agora, desapegados do passado e ansiosos pelo futuro – tão promissor para dois jovens bonitos e apaixonados como eles.

Douglas ainda tinha a chance de ter aquilo com outra pessoa. Eu já não tinha salvação, não conseguia esquecer, não poderia mais fingir ser aquilo que eu não era. Talvez, eu deveria mesmo ter dado meia volta naquele fim de tarde de uma quinta-feira de verão e simplesmente ter voltado para casa.  A vida de Douglas teria sido mais fácil sem mim e eu jamais saberia o gosto tão doce daquele delicioso vício, aquele suculento bolo de chocolate que saliva minha boca à menor lembrança.

Vejo o copo vazio de água e percebo que, de fato, ela não era suficiente. Não mais.

Acontece é que nem todos os bolos da Mãe Joana, agora, seriam o bastante para preencher a falta que Douglas me fazia.

 

23 de maio, 19h55min

— Kai? Está tudo bem, querido? Estou preocupada! Você está aqui esperando há várias horas!

Ergo a cabeça da mesa, posição a qual fiquei pelos últimos doze minutos, e vejo o semblante da Mãe Joana produzindo uma expressão a qual nunca vi nela antes. Ela trazia uma cestinha com empadas, mesmo eu ainda não ter pedido nada.

— Trouxe para você. Não comeu nada ainda, menino!

— Estou sem fome.

Ela, insatisfeita, se senta comigo. Estava aflita, intrigada, suas sobrancelhas abertas e incrédulas de eu não ter desistido ainda e ido para casa.

Ela não entendia. Não importava onde eu estava, aquela preocupação simplesmente viria comigo. Não era do feitio de Douglas atrasar e, já se passando quase três horas, eu já deveria ter recebido alguma mensagem.

— Eu estou com um mau pressentimento… E se algo tiver acontecido com ele?

Mãe Joana me oferece suas mãos. Eu as seguro e sinto o calor das suas palmas e os calos, sinais de uma pessoa trabalhadora e, quase sempre, humilde.

— Kai, o que tiver que ser, será. Adianta chorar o leite derramado? Não adianta.

Eu esperava que ela fosse me dizer algo confortante, clichê e inútil. No lugar, ela me joga uma dura verdade em vez de uma bela mentira.

— Eu odeio não saber o que está acontecendo..

— Só Deus pra saber o que aguarda na esquina, Kai.

Era verdade. Eu jamais esperaria algo como Douglas acontecer na minha vida. Mesmo assim, aconteceu. E o que acontece agora?

Kai, precisamos conversar…”

O que acontece agora?

Mãe Joana me sorri, pede para eu ir para casa, mas, antes, me oferece um chocolate do balcão.

Eu cedo, finalmente. Vou até com ela e paramos diante o caixa, os olhos vidrados, agora, na pequena televisão que ficava pendurada perto do teto na parede ao fundo, ligada num noticiário ao vivo.

Era um acidente de carro. Luzes vermelhas piscavam na tela e as imagens mostravam um poste derrubado, uma dezena de curiosos em volta e paramédicos tratando de uma vítima.

— Céus! Isso é aqui perto, não é? – Exclama Mãe Joana.

— É sim…

E, quando a câmera chega mais perto, minha garganta trava, meu coração para, minha boca seca.

—…e aquele é o carro do Douglas… – Falo, quase mudo. Mãe Joana joga as mãos na boca.

Então, era isso que acontecia agora?

Era isso que me aguardava, literalmente, na esquina?

— Não…

 

23 de maio, 20h01min

Sinto que vou cair para trás, mas Mãe Joana me apara na queda e me leva até uma cadeira para que eu pudesse me recompor. Tudo fica escuro, o chão começa a rodar e sinto o pouco que eu tinha de comida no estômago querer subir, mas não chego a vomitar. Mãe Joana chega logo com um copo de, justamente, água com gelo, e informa que acrescentou açúcar para me ajudar na tontura.

Foi a grandessíssima ironia daquilo que me fez vomitar.

Outros aparecem para me ajudar, mas me solto e corro rua afora.  Parto em direção ao local do acidente e só preciso fazer uma curva para enxergar as fortes luzes vermelhas piscando na noite escura. O corpo de bombeiros e uma ambulância já estavam a postos, além de uma viatura policial, e luto contra a multidão de curiosos que se aglomerava rapidamente em torno.

— Com licença! Eu preciso passar! Não, espere… Saiam do caminho, que droga!

Perco a educação em segundos e meus gritos são o bastante para que alguns cedessem o espaço, conseguindo ter visibilidade.

É aí que o vejo, seu rosto bonito, jovem, outrora tão pacífico, agora rígido, banhado em sangue, um corte bastante fundo na testa e a pálpebra do olho direito literalmente preta.

— Douglas… Não, espere!

A ambulância já o levava para dentro, mas avanço para tentar entrar nela, sendo impedido pelo guarda de plantão.

— Você conhece a vítima?

— Conheço! Se chama Douglas, e… Eu preciso ir com ele!

— É parente? Só podemos autorizar familiares.

Sou seu namorado!

“Kai, precisamos conversar…”

Ou, será que sou?

Sinto meu ar faltar. Olho em volta e sinto todos aqueles olhares curiosos de quem não fazia ideia de quem eu era, de quem Douglas era, de repente tendo um peso enorme em nossas vidas.

E me faltam forças. Minha fonte de coragem estava para sair embrulhado numa ambulância, e me faltam forças. Eu estava exausto daquilo tudo.

— Eu sou um amigo.

— Lamento, meu jovem. Poderá vê-lo no hospital em breve.

— Ele está vivo?!

— Está, sim, mas seu estado ainda é instável. Ele sofreu uma forte pancada na cabeça, o veículo teve perda total…

— Mas, como isso aconteceu?!

O homem suspira.

— Suspeitamos que ele estivesse embriagado. Ultrapassou um sinal vermelho, teve que se desviar de outro veículo e colidiu com o poste… Com certeza, não estava sóbrio.

“Eu nunca mais vou beber. Você é o único vício que eu quero manter na minha vida, se você me deixar. Você me deixa?”

— Ele não bebe!

— Encontramos uma garrafa no veículo, rapaz… Eu sinto muito, mas não há nada que possa fazer agora. Vá para casa. Precisamos contatar os familiares. Você pode providenciar o endereço dos pais?

Só não vomito novamente porque estou literalmente seco.

— Posso…

E era justamente assim, exatamente como havia acontecido naquela festa, que sigo apenas como um ninguém na vida de Douglas. Mãe Joana aparece e me faz companhia enquanto assistimos à ambulância partir com meu namorado inconsciente dentro dela e as pessoas começam, rapidamente, a perder o interesse.

— Agora é hora de ter fé, Kai.

— Eu achei que você tinha dito que não adianta chorar o leite derramado. – Falo, injustamente ríspido, mas sem cabeça para me importar.

— Exatamente! De nada adianta chorar. As coisas acontecem por um motivo, Kai! Douglas é um menino bom, ele há de sair dessa!

Já não conseguia escutar mais nada. Sem me despedir, dou meia volta e faço meu caminho para casa. Mãe Joana não me impede, não me chama, e vou esperar meu ônibus já antecipando os próximos dias longuíssimos que se seguiriam.

É apenas no ponto de ônibus, o mesmo ponto de ônibus em que Douglas pediu meu telefone, é que choro. Choro sozinho, choro em silêncio e rezo. Não rezo para Deus, mas, sim, para a maior força que nos governa, a maior força que nos condena.

Tempo… Ó, Tempo, tenha dó de mim. Tempo, tenha dó de Douglas. Dê a ele mais Tempo.

Mesmo que seja às custas do meu.

Água com Gelo (Parte 29)

23 de maio, 16h34min

Pelos últimos anos, um fim de tarde, numa sexta-feira, sozinho na piscina do clube não era nada de anormal. Era apenas rotina. Eu vinha aqui, mergulhava e boiava nas águas calmas, agora que as aulas de natação haviam acabado, e me perdia no silêncio, meus ouvidos submersos e meus olhos fixos no céu. Quando perdi minha mãe, quando minha psicóloga me sugeriu que enfrentasse novamente as águas para não temê-las, descobri que a água, que provocou meu maior trauma, que solidificou minha condição de infalível ser rememoro, era, também, meu único consolo.

Ela me consolava, mesmo agora, quando apenas meus pés estavam imersos, uma vez que a proximidade do inverno fazia os dias, mesmo ensolarados, ficarem frios demais para eu me banhar inteiramente nela.

Mas, eu não me importo de não estar nela.

Eu só me importo de Douglas não estar ali comigo.

Era inacreditável: Douglas havia mudado todas as concepções que eu tinha sobre O Tempo, sobre o passado e o futuro, sobre o amor e até mesmo sobre as minhas próprias memórias. Eu, que recapitulo tudo como faz um computador, armazenando dados e compilando informações, acumulando experiências como se fossem cartas, filmes e livros, preenchendo minha mente com mais peso, mais vivências, mais alegrias e tristezas, emoções e decepções, choros e sorrisos, cores e sons, fatos e ficções, acreditava que o acúmulo de experiências, de memórias, era o que solidificava uma relação, uma companhia, um amor.

Eu estava errado.

Em poucos meses, tive experiências que sobrepujavam as outras. As horas que passei ao lado de Douglas se prendiam em mim com mais força que todas as outras que passei sem ele. Apesar de eu me recordar de todas elas, as memórias dele estavam mais próximas da superfície de minha pele, prontas para emergir e me fazer arrepiar; estavam mais próximas do espelho dos meus olhos, prontas para vazar em lágrimas; estavam mais próximas do meu coração, prontas para fazê-lo bater mais rapidamente, mais desenfreadamente, compulsivamente, sem controle ou direção, sem começo nem fim.

Eu me senti mais vivo nas poucas horas que tive ao lado de Douglas do que em todas as horas que se passaram antes de eu conhece-lo, mesmo que estas tenham se arrastado mais. O Tempo corria velozmente, tão veloz como o rio, ao lado de Douglas e, mesmo assim, era um Tempo tão mais marcante!

E era assim, facilmente assim, loucamente assim, que a euforia de ver Douglas se transformava em pânico de não tê-lo mais ao meu lado. Era assim que dias como este que, há pouco tempo atrás eram tão rotineiros, se tornavam longos e insuportáveis. Era assim que uma simples mensagem se transformava num instrumento de angústia e ansiedade, me fazendo contemplar toda a minha longa vida até chegar naquele momento.

Eu já estava me afogando naquele rio, e nem havia me dado conta.

O que acontece daqui para frente? O que o futuro nos reserva? Pode esse amor adolescente sobreviver as diferentes estações da vida, me poupando de uma angústia muito maior que esse dia frio e solitário de outono? Posso continuar navegando por aquele rio veloz até ele desabar no oceano?

E posso sobreviver a essa queda?

Quando penso na fragilidade daquele nosso relacionamento, começo a perder a fé.

Talvez fosse por isso que, quando recebo uma nova mensagem de Douglas, já não me surpreendo muito com o que leio.

“Kai, precisamos conversar… Me encontra na Casa da Mãe Joana? Às 17h?”

“Precisamos conversar…”. Analiso aquela mensagem, aquelas duas palavras, aqueles três pontos, sentindo o presságio de algo ruim a acontecer.

“Tudo bem”, respondo.

Tiro os pés da água, já gelada demais.

Água com Gelo (Parte 28)

23 de maio, 11h50min

— Sora? O papai está? – Falo ao entrar na sala de estar.

— No quarto, Kai. – Sora responde da cozinha.

— Pode chama-lo para mim? Eu estou com uma amiga aqui.

Lily sorri e lhe acena assim que ele entra na sala e capto um olhar levemente surpreso na face de Sora.

— Beleza. – Fala ele, e sai.

— O que você planeja dizer para meu pai?

— Você verá. Qual o nome dele mesmo?

— Jorge.

Sentamo-nos no sofá, Lily ao meu lado, e ficamos os dois esperando com as pernas juntas e as mãos sobre os joelhos. Percebi que parecíamos um casal, ansiosamente esperando o momento de dar a notícia ao meu pai de que ela estava grávida, que iríamos nos casar e fugir para o Sul.

Com esse pensamento, quase pude enxergar, no lugar dela, Douglas, sentado na mesma posição que ela, esperando o momento de contar ao meu pai que estávamos namorando.

“Kai, não vou poder ir vê-lo hoje. Problemas em casa. Nos falamos mais tarde.”

Mas, aquela mensagem me trazia de volta. Era Lily quem estava ali e, por mais bonita que fosse, eu não a queria como namorada.

No entanto, mais do que nunca, eu a queria como amiga.

Havia passado todo o período da escola que sucedeu a morte da minha mãe decidido a não me aproximar de ninguém para que não tivesse a chance de sentir novamente aquela dor no peito. A saudade era insuportável, interminável, e eu estava bem sozinho.

De repente, no entanto, em poucos meses, tenho um namorado e uma amiga, e já não consigo viver sem eles.

Portanto, quando Lily se levanta para cumprimentar meu pai e dar justificativas mirabolantes do por que eu não poderia perder o passeio da escola, percebi que queria acampar com ela tanto quanto quis acampar com Douglas. Eu já não me importava mais de ela estar ali; de fato, estava feliz por ela estar.

Ela já havia aclamado para meu pai, já perplexo, que o acampamento era mandatório e avaliativo no semestre – o que era uma mentira esdrúxula, facilmente desbancada pelo próprio documento que pedia permissão aos pais para o passeio. No entanto, Lily era tão boa atriz, tão dedicada em sua mentira que era difícil não ser levado pela sua lábia e charme.

—…E-eu não sabia, o Kai nunca falou…

— Mas é verdade, seu Jorge. Kai tem um boletim infalível; quer mesmo manchá-lo com a inadimplência dessa atividade trés important?

Meu pai vira, então, para mim:

— Kai? É mesmo verdade?

Respiro fundo. Não sou bom mentiroso como Lily, mas, ao seu lado, precisava só acompanhar a sua história.

— É, sim. Vamos ter atividades… educativas, sabe?

— Totalmente.

— Muito importantes.

— Muito interessantes.

— Acho que ele entendeu, Lily.

— Oui, oui…

E meu pai estava convencido. Em dois minutos, minha autorização já estava assinada, e acampar ao lado de Douglas e Lily já era uma realidade.

Diante a empolgação que sentia ao poder me divertir junto às minhas duas pessoas favoritas, eu até, milagrosamente, me esquecia de toda a tragédia que havia se passado naquele mesmo rio.

Talvez o amor curasse a dor.

Talvez, a partir de agora, aquele rio representaria não a tristeza, mas, sim, a alegria de uma amizade forte e um amor verdadeiro.

E eu tinha Lily para agradecer a isso – e Douglas por ter me dado a coragem de enfrentar aquele medo.

— Você é inacreditável.

— Eu sei, eu sei. – Diz ela – Foi divertido.

— Obrigado, Lily.

Ela me pisca, me abraça e me beija na bochecha antes de ir.

— Estamos quites agora, d’accord?

— D’accord.

 

23 de maio, 16h34min

Pelos últimos anos, um fim de tarde, numa sexta-feira, sozinho na piscina do clube não era nada de anormal. Era apenas rotina. Eu vinha aqui, mergulhava e boiava nas águas calmas, agora que as aulas de natação haviam acabado, e me perdia no silêncio, meus ouvidos submersos e meus olhos fixos no céu. Quando perdi minha mãe, quando minha psicóloga me sugeriu que enfrentasse novamente as águas para não temê-las, descobri que a água, que provocou meu maior trauma, que solidificou minha condição de infalível ser rememoro, era, também, meu único consolo.

Ela me consolava, mesmo agora, quando apenas meus pés estavam imersos, uma vez que a proximidade do inverno fazia os dias, mesmo ensolarados, ficarem frios demais para eu me banhar inteiramente nela.

Mas, eu não me importo de não estar nela.

Eu só me importo de Douglas não estar ali comigo.

Era inacreditável: Douglas havia mudado todas as concepções que eu tinha sobre O Tempo, sobre o passado e o futuro, sobre o amor e até mesmo sobre as minhas próprias memórias. Eu, que recapitulo tudo como faz um computador, armazenando dados e compilando informações, acumulando experiências como se fossem cartas, filmes e livros, preenchendo minha mente com mais peso, mais vivências, mais alegrias e tristezas, emoções e decepções, choros e sorrisos, cores e sons, fatos e ficções, acreditava que o acúmulo de experiências, de memórias, era o que solidificava uma relação, uma companhia, um amor.

Eu estava errado.

Em poucos meses, tive experiências que sobrepujavam as outras. As horas que passei ao lado de Douglas se prendiam em mim com mais força que todas as outras que passei sem ele. Apesar de eu me recordar de todas elas, as memórias dele estavam mais próximas da superfície de minha pele, prontas para emergir e me fazer arrepiar; estavam mais próximas do espelho dos meus olhos, prontas para vazar em lágrimas; estavam mais próximas do meu coração, prontas para fazê-lo bater mais rapidamente, mais desenfreadamente, compulsivamente, sem controle ou direção, sem começo nem fim.

Eu me senti mais vivo nas poucas horas que tive ao lado de Douglas do que em todas as horas que se passaram antes de eu conhece-lo, mesmo que estas tenham se arrastado mais. O Tempo corria velozmente, tão veloz como o rio, ao lado de Douglas e, mesmo assim, era um Tempo tão mais marcante!

E era assim, facilmente assim, loucamente assim, que a euforia de ver Douglas se transformava em pânico de não tê-lo mais ao meu lado. Era assim que dias como este que, há pouco tempo atrás eram tão rotineiros, se tornavam longos e insuportáveis. Era assim que uma simples mensagem se transformava num instrumento de angústia e ansiedade, me fazendo contemplar toda a minha longa vida até chegar naquele momento.

Eu já estava me afogando naquele rio, e nem havia me dado conta.

O que acontece daqui para frente? O que o futuro nos reserva? Pode esse amor adolescente sobreviver as diferentes estações da vida, me poupando de uma angústia muito maior que esse dia frio e solitário de outono? Posso continuar navegando por aquele rio veloz até ele desabar no oceano?

E posso sobreviver a essa queda?

Quando penso na fragilidade daquele nosso relacionamento, começo a perder a fé.

Talvez fosse por isso que, quando recebo uma nova mensagem de Douglas, já não me surpreendo muito com o que leio.

“Kai, precisamos conversar… Me encontra na Casa da Mãe Joana? Às 17h?”

“Precisamos conversar…”. Analiso aquela mensagem, aquelas duas palavras, aqueles três pontos, sentindo o presságio de algo ruim a acontecer.

“Tudo bem”, respondo.

Tiro os pés da água, já gelada demais.

Água com Gelo (Parte 27)

16 de maio, 11h38min

Estava particularmente ansioso em ver Douglas: talvez fosse o seu repentino sumiço naquela semana, com apenas duas ligações de segunda para sexta, ou talvez fosse o meu novo fogo por ele, despertado naquela noite de sábado na barraca. Não sei ao certo. Só sabia que aqueles dois minutos até 11h40min pareciam não chegar cedo o bastante.

— Esperando seu amigo?

Viro-me e, nada surpreendido, vejo Lily ali com seus olhões interessados.

— Naturalmente. Sabe que sou uma criatura de hábitos.

— Eu sinto que você já é mais amigo dele do que de mim, que te conheço há vários anos. Isso está errado.

— Eu detecto ciúmes?!

— Pas de tout!

— Lily, sabe que eu não sou proficiente em francês…

— Ora, ora, então existe alguma coisa que o sabe-tudo não sabe!

— O que quer dizer com isso?!

Mas, ela só ri.

— Nada, não. Estou só te enchendo.

— Tem muitas coisas que eu não sei, Lily. Você, por exemplo: sei pouco a seu respeito.

— Sou um livro aberto, cher.

— Pode começar a falar, então.

— Bom…

Ela, sem pestanejar, começa a listar todas as coisas que ela acreditava compor o ser que ela era:

— Tenho duas irmãs mais velhas, minha cor favorita é o lilás, minha mãe é médica e meu pai, professor, adoro circos, sou faixa amarela em karatê, odeio História, mas adoro Geografia, quero estudar Psicologia, gosto de filmes de ação e terror, costumo fazer trabalho voluntário no hospital onde minha mãe trabalha, gosto de cantar…

— Tá! Eu entendi!

Eu rio, mas também falo sério. Ela simplesmente me devolve seu sorrio sempre sereno, mas seu semblante assume outras cores:

— Kai…

Mas, ela nunca chegou a dizer o que é que queria falar, pois Douglas havia chegado com o carro e ela se deu por vencida.

— Nada de importante. Bom final de semana!

E se despede, novamente, com um abraço e um beijo na bochecha.

Já entro no carro esperando um olhar de censura do meu namorado, mas Douglas estava disperso.

— Sem piadinhas desta vez? – Falo.

Ele me olha um tanto confuso.

— O quê? Do que você tá falando?

— Você sabe… Ah, esquece. Podemos ir?

Ele, no entanto, vira o rosto para evitar me encarar.

— Amor, lamento, mas não vou poder passar o final de semana com você. Eu vou sair de viagem com minha família.

Engulo em seco.

— Viagem?! Você não falou nada de viagem! Aliás, você quase não falou nada a semana inteira…

— São as provas. Final de semestre, sabe como é… Último ano do colegial, uma pressão enorme para ingressar na faculdade…

— Eu sei. Desculpe, não quero ser o tipo de namorado chato e possessivo.

É apenas aqui que ele volta a me encarar.

— Você não é… Você é ótimo.

E me beija.

— Ah, não acredito que vou passar mais uma semana sem te ver!

— Eu sei… Mas, passa rápido.

 

23 de maio, 11h20min

Não passa, não.

Mais uma aula que parecia nunca acabar. Mais uma sexta-feira na qual os minutos passam se arrastando, o ponteiro dos segundos clica dramaticamente cada vez que se move na parede me fazendo me perder, como se entrasse numa hipnose e visse coisas.

Vejo o rio, o acampamento, o sol batendo nas costas nuas de Douglas, a fogueira acesa e quente, o silêncio quebrado apenas pela correnteza das águas não muito longe de nós.

E vejo a barraca, ainda mais quente que a fogueira. Não tarda para as memórias ficarem mais fogosas, mais picantes, mais proibidas.

Por muito tempo, aquelas memórias foram apenas fabricações da minha mente, fantasias perigosas de uma mente adolescente. Não me parecia certo percorrer por aquele caminho o qual eu parecia estar fadado a seguir, pois um beijo, apenas um beijo, que parecia algo tão inocente, havia sido capaz de destruir toda a minha vida.

Mas, será mesmo que foi o beijo o culpado? Ou minha própria culpa pelo beijo?

Mesmo se eu não tivesse super-memória, não seria difícil rebuscar o sentimento de medo e vergonha que senti ao ser confrontado daquele jeito pelo rapaz o qual beijei, pela sua mãe e, depois, pela minha própria.

De onde nascia aquele medo? De onde nascia aquela frustração?

Seria mesmo justo condenar uma criança que mal possuía uma identidade apenas por descobrir um pedaço de si mesma?

Seria mesmo justo esperar dela alguma maturidade em relação a sua própria sexualidade?

Eu não entendia nada naquela época. Só entendia que meu medo, minha culpa, me fez fazer algo que não devia, me colocando em perigo e sacrificando a vida da minha própria mãe. Era por isso que o fogo daquele desejo sempre vinha junto da água daquela tragédia.

Um não caminhava sem o outro.

No entanto, a ardência do desejo, aos poucos, secou aquele poço de culpa. Finalmente, me entreguei completamente a Douglas, mergulhando a fundo em sua correnteza.

E eu queria ir mais fundo. Já havia esperado duas semanas inteiras esperando o momento de ter meu namorado novamente só para mim, e mal consigo me conter. Fui um bom menino semana passada e não fiz alardes por sua semana corrida de estudos e sua viagem repentina com os pais. Agora, não haveria mais desculpas.

Então, quando a Senhorita Daskal anuncia o fim da aula – sempre me lançando um olhar curioso para cima de mim antes de eu cruzar a porta – vou direto para o meu ponto de encontro, sem ao menos falar com Lily, ansiosamente esperando Douglas vir me buscar.

11h38min.

O inverno ficava cada vez mais próximo e o frio já começa a me incomodar. Fico vendo as folhas secas levemente esvoaçando pelas ruas que iam ficando vazias na medida em que os alunos iam embora com seus pais. A cada dia, menos pessoas se agrupavam ali para fofocar, preferindo o conforto de um local fechado e quentinho.

11h39min.

Exceto por Lily, que conversava com alguns professores a caminho da saída, provavelmente sobre o acampamento, a calçada em frente à escola já havia ficado deserta.

11h40min.

E nenhum sinal de Douglas. Imediatamente, pego meu telefone e vejo uma mensagem: “Kai, não vou poder ir vê-lo hoje. Problemas em casa. Nos falamos mais tarde”.

Fico com os olhos cerrados e um tanto incrédulos ao ler as linhas e entrelinhas daquela mensagem. Eu não sei se era a objetividade, as frases curtas ou o fato de ele ter se direcionado a mim pelo meu nome e não pela forma carinhosa que ele sempre me tratava, mas aquele texto me pareceu tão frio quanto aquele dia estava.

— Kai?

Quase caio para trás num susto, tamanha era minha concentração naquela mensagem. Lily olha para mim com ainda mais curiosidade que o de costume, mas mesclada de certa preocupação ao me ver ali parado na calçada, vidrado no meu telefone e com uma expressão dúbia no rosto.

— Aconteceu alguma coisa? É com seu amigo?

Novamente, não tive tempo para preparar uma boa mentira.

— É… ele não vem hoje.

Ao dizer daquela maneira, me pareceu muito mais claro que aquele encontro não era entre dois amigos, mas Lily não pareceu captar nada demais.

— Ah, que pena! Vocês brigaram?

— Não. Não sei por que, na verdade.

— Achei que tinha acontecido alguma coisa. Percebi que você está mais distraído que o normal nas aulas de sexta.

— Percebeu?!

— Claro! Você fica em outra dimensão, Kai.

Cada vez mais, tinha receio de ela simplesmente verbalizar a verdade, como se estivesse a par de tudo e estivesse tentando me forçar a confessar, dizendo que, sim, eu ficava distraído porque estava apaixonado por ninguém menos que o rapaz que vinha me buscar toda sexta-feira.

“Kai, não vou poder ir vê-lo hoje. Problemas em casa. Nos falamos mais tarde.”

E que não veio me buscar hoje.

Já não gostava daquela sexta-feira, mas não podia me expressar o porquê. Olhava para Lily e via sua expressão plácida de quem não exigia muito da vida para ser feliz e me sentia tentado em me abrir para ela, afinal de contas, eu estava começando a realmente a apreciar sua amizade.

— Lily…

— O quê?

E ela me vira com seus olhões e desisto logo da ideia.

—…Eu acho que meu pai não vai me autorizar a ir ao passeio.

— O quê?! Sacré bleu, que absurdo!

— Pois é.

— Isso não fica assim. Você tem que ir!

— Não tem nada que você possa fazer.

— Ah, tem sim. Pois eu vou para sua casa agora falar com ele.

— O quê?! Ficou louca?!

— Louca, por quê?! Seu pai vai me bater, por acaso?

— Não…

— Então, está decidido! Precisamos lutar por aquilo que queremos, Kai! Não pode abaixar a cabeça toda vez que lhe dizem “não”.

Lily tinha uma real determinação, me puxando para que eu a levasse até minha casa, e nunca me senti tão perplexo assim com ela antes.

— Eu só não entendo… Por que você se importa tanto?

— Como assim?

Ela me olha genuinamente confusa.

— Por que se importa tanto que eu vá? Você tem dezenas de amigos, e ninguém na turma se importa comigo.

— É isso mesmo que você acha?! Que ninguém se importa com você?

Nesse instante, vejo Hugo saindo da escola e acenando para um grupo de rapazes. Penso naquele beijo, naquela amizade perdida e, é claro, penso em Douglas.

— Bom… Quase ninguém fala comigo.

Ela, então, joga as mãos na cintura, como se perplexa, mas logo em seguida assume uma expressão mais reflexiva.

— Kai, não é que ninguém não goste de você; as pessoas se sentem intimidadas por você, só isso.

— Intimidadas?!

— Claro! Kai, você consegue dizer de cabeça tudo o que aconteceu na sua vida! Você lê um livro e consegue praticamente reescrevê-lo sem precisar de consulta! Todos nós achamos isso incrível. Acontece que também faz você parecer alguém muito superior a nós.

— Que bobagem. Eu não sou mais inteligente que ninguém. Só decoro as coisas facilmente.

— “Decoro as coisas facilmente”. Isso é um eufemismo.

Sorrio. Era verdade.

Nunca havia parado para pensar naquilo. Eu me concentrava tanto em me distanciar dos outros que jamais pensei que os outros também procuravam se distanciar de mim, ao menos não por aquele motivo. Pensava que todos simplesmente me achavam esquisito, e me dava por satisfeito por não ter que lidar com mais possíveis memórias indesejadas eternamente engessadas em minha cabeça.

Fiquei absolutamente perplexo com a ideia de que, de fato, eu era querido, e Lily seguiu em listar coisas boas sobre mim as quais ela e os outros da sala valorizavam:

— Você sempre ajuda quando é solicitado, sempre tira dúvidas que o professor não soube esclarecer, está sempre focado – exceto nas sextas-feiras – e quem te conhece de perto sabe que você pode ser bem engraçado de vez em quando.

— Eu não fazia ideia que pensavam isso de mim.

— Pensam. Ao menos, eu penso, e todo mundo gosta de mim, então se eu penso, eles também pensam, porque é assim que o colégio funciona.

Rio.

— Acho que tem razão.

— Claro que tenho.

— No entanto…

— “No entanto” o quê, mon Dieu?

— Por que você não se sente intimidada por mim, então?

Estávamos a um quarteirão de casa e, por alguma razão, Lily dá uma risada:

— O que foi?!

— Nada! Só é divertido você não saber. Você sabe tudo.

— Eu me lembro de tudo. É diferente.

— Sei…

Ela suspira.

— Ah, Kai… Na sexta-série, eu era novata na escola. Eu não era popular como sou hoje. Usava aparelhos nos dentes, era muito magra, todos me chamavam de esquisita. Foi na primeira semana de aula: eu entrei e fiquei quieta, sozinha, e você veio falar comigo. Você me ofereceu um chiclete e começamos a conversar. Foi a primeira vez em que não fiquei sozinha no recreio.

Sorrio. Eu me lembrava bem, é claro: Lily havia acabado de voltar do banheiro e percebi que seus olhos estavam avermelhados. Ela estava chorando e eu senti pena dela, pois sabia como era ruim e assustador ser novo na escola e não conhecer ninguém.

— Eu me lembro. Você não era só magra demais, mas usava marias-chiquinhas e flores de crochê no cabelo. Acho que era por isso que te chamavam de esquisita.

Lily gargalha.

— Acho que tem razão. Mas, vê? Você foi importante pra mim, Kai. Como é que você não sabia disso?!

— Eu sempre me lembro, mas nunca sei do quanto os outros se lembram. Eu achava que você nem se lembrava disso.

Chegamos à porta de casa e vejo os olhos dela se iluminarem.

— Nem todos têm super-memória, Kai, mas todos se lembram das coisas especiais. Não se esqueça disso.

Sorrio.

— Não me esquecerei.

Água com Gelo (Parte 26)

11 de maio, 01h01min

Sento em frente à fogueira com os braços sobre os joelhos. Além do barulho das chamas e da corrente do rio, não escuto nada.

Exceto meus próprios pensamentos.

“Kai, está se divertindo?”

“Muito, mãe! Eu adoro esse bosque.”

“Que bom, querido. Aqui é um ótimo lugar para conversar, não acha?”

“Conversar sobre o quê?”

“Eu queria conversar sobre você, Kai.”                           

Mas, eu não quis conversar com ela.

Eu preferi fugir.

Douglas me traz uma garrafa d’água do carro e se senta diante de mim. Ele ainda seguia sem entender, mas ainda com compaixão.

Bebo a água e fico com os olhos caídos no chão.

— Você está bem?

— Sim.

— Quer conversar?

Suspiro. Eu não podia fugir mais.

— Eu temi por muito Tempo que acontecesse o que aconteceu hoje, Douglas. Não só por medo do que poderia acontecer comigo, mas por medo do que já aconteceu; do que aconteceu no passado.

— O que aconteceu?

— Começou com aquele beijo. Hugo e eu éramos amigos, mas depois daquele beijo, paramos de nos falar. Então, numa noite, escutei uma conversa da minha mãe no telefone e ficou claro o que tinha acontecido. Ela ficou… diferente comigo. Eu sabia que ela não me julgava, que não estava com raiva; talvez estivesse preocupada? Não sei.

— E ela não te disse nada?

— Não, mas viemos fazer um passeio em família aqui…

Foi nesse mesmo lugar, nesse mesmo bosque, seis anos atrás…

 “Kai, você precisa entender que não tem nada de errado com você!”

“Não, eu não sou assim!”

“Kai, meu filho… Espere, aonde você vai?!”

Corro, corro para longe dali. Corro até onde prometi ao papai que não iria.

Vejo o rio. As águas são escuras e rápidas. Meus pés estão gelados, mergulhados.

“Kai? Onde está você, Kai?”

Vá embora. Eu não quero ver você…

 “Kai, por favor!”

Eu me viro para olhá-la. Ponho-me de pé, mas logo sinto meu corpo todo molhado. Água gelada me domina, e luto contra ela. Quando coloco a cabeça por cima da superfície, vejo o seu rosto: ela tem pavor nos olhos.

 “Kai…?! Meu Deus, Kai!”

“Mãe! Mãe!”

— Eu escorreguei e caí no rio. A correnteza me puxou para baixo e comecei a me afogar. Desacordei, mas alguém me salvou: minha mãe.

— Kai…

— Ela entrou no rio para me salvar, Douglas. Ela entrou, me tirou dele, mas não conseguiu sair.

As lágrimas já caíam; era inútil lutar contra elas. Água salgada se misturava com água doce, mas nenhuma água do mundo era capaz de saciar aquela sede que era a saudade que eu tinha dela.

— E foi minha culpa. Ela queria conversar comigo sobre o beijo, mas eu fugi. Fugi de medo, fui até onde não devia e causei tudo isso. Eu matei minha mãe, Douglas.

— Kai, não! Você não tinha culpa, você era só uma criança!

— Não interessa. Eu ainda tenho que conviver com as memórias.

— Memórias são falsas, Kai. Nossa mente as manipula. Ela nos faz acreditar em coisas que não são reais! Talvez, você nem sabia aonde estava indo! Talvez, você nem sabia que o rio era perigoso. Todos nós nos esquecemos dos detalhes.

Eu o olho fundo nos olhos.

— Não eu. Eu não me esqueço. Nunca.

— Como assim?

Suspiro.

— Eu tenho super-memória, Douglas. Eu nunca me esqueço de nada.

 

11 de maio, 01h11min

— Acordei às 06h07min, escovei os dentes, comi torradas com requeijão e café, dei comida para o Bobão, saí para a escola, a meio caminho percebi que havia deixado o livro de História em casa, voltei, vi meu pai na cozinha tomando café da manhã, ele me disse que meu cabelo estava despenteado, penteei, voltei para a escola, encontrei a Lily, ela vestia…

— Tá, eu entendi.

Havia passado os últimos sete minutos contando a Douglas os detalhes de dias aleatórios que ele nomeava para mim. Eu lhe contava, sem pestanejar, tudo o que havia me acontecido em cada um deles com mínimos detalhes. Detalhes como as roupas que vesti, o que comi em cada refeição, quais pessoas eu encontrei, o que conversei com elas, qual clima fazia em cada um desses dias e até mesmo o que passava na T.V.

Eu já estava acostumado com aquilo. Na escola, costumava achar que era um tipo de superpoder o qual eu poderia usar para impressionar os colegas e fazer amigos. Então, cometi o erro de me expor, e não consegui nada além de impressionar alguns curiosos por alguns dias e depois ser esquecido de uma forma bastante irônica.

Eu nunca me esquecia. Desde o momento da morte de minha mãe, todos os dias da minha vida ficaram guardados na minha mente como se gravados em pedra. Nunca iam embora, nunca me davam sossego. Cada evento mundano e cada evento traumático estavam alojados na minha mente de forma igual. Cada olhar torto, cada piada, cada rispidez… Cada tragédia. Estavam todos ali, prontos para emergir na superfície e me atormentar.

Era por isso que as memórias dela me perseguiam todos os dias.

Era por isso que eu a via em toda parte.

Era por isso que eu escrevia para ela todas as noites.

Ela existia em meus diários, em todos os dias que eu privei que ela vivesse.

Através deles, ela existia fora de mim.

— Entende agora porque eu tive tanto medo de me aproximar de você? De deixar acontecer o que aconteceu hoje?

— Kai… Eu não sei o que dizer.

— Você não entende. Eu sei. Ninguém entende.

— Não!… Quero dizer, sim… Não. Não entendo.

Abaixo a cabeça, jogo as mãos em meus olhos e tento secar minhas lágrimas, mas sinto Douglas me envolvendo num abraço.

— Mas, eu quero entender.

Eu me deixo ser envolvido. Mesmo que ele jamais pudesse entender, eu sei que ele quer ao menos tentar. Eu sei que ele tem compaixão e, por isso, quando nos separamos, posso confessar os meus maiores temores, mostrar o meu lado mais quebrado, mostrar a bagunça que eu era por dentro em contraposição à harmonia que eu mostrava ser do lado de fora.

— Douglas, eu revivo aquele afogamento todos os dias da minha vida. Dizem que o Tempo cura as feridas, mas, para mim, elas nunca cicatrizarão. Ainda estão frescas, frescas como se fosse ontem.

— Ah, Kai… Por que não me disse antes?! Por que aceitou vir para cá?!

— Porque não interessa onde estejamos! Não faz diferença, para mim, se estamos em casa, no clube ou aqui. Não faz diferença se estou na terra ou na água: eu sempre me lembro. Eu passei muito tempo tentando fugir daquilo que sempre está lá. Não adianta. Fiz anos de terapia, apenas para chegar à conclusão de que não há escapatória.

Douglas me escutava em silêncio enquanto eu jogava meus braços para os lados em frustração e, ao mesmo tempo, aceitação.

— Foi então que eu decidi simplesmente enfrenta-las. Encontrei no silêncio da água a minha paz. É um tipo de… meditação.

— É por isso que você me disse que o nosso beijo era um vício que você tentava evitar? Por causa das suas memórias?

— Não só o beijo, mas qualquer pessoa. É muito difícil lidar com traumas e, por isso, sempre afastei as pessoas de mim. Não precisava de mais saudades para afogar meu coração.

Ele, então, abaixa a cabeça e também começa a olhar os próprios pés.

— Mas, então, eu conheci você…

E seus olhos subiram de novo, seus lindos e puros olhos azuis, reflexo de sua alma nobre, bela, jovem e boa, meus próprios olhos não conseguiam mais esconder minha própria essência.

Eu já chorava de novo, e não sabia se era por tristeza ou por felicidade. Qualquer coisa que provoca essa mistura absurda de sentimentos, com toda certeza, era algo que me marcaria par sempre.

—…e me viciei em você, Douglas. Eu me viciei em você porque, com você, eu esqueço. Com você, O Tempo passa e eu nem percebo. Com você, eu penso só em você e em mais nada. Com você, eu tenho paz.

Douglas me marcaria para sempre.

Ele também não sabia se sorria ou se chorava.

Apenas voltou a me abraçar.

— Eu também me viciei em você.

E eu respiro fundo como se finalmente conseguisse emergir a cabeça acima da superfície, puxando o ar como faz um afogado. Era como se eu tivesse passado toda a vida sedento e, finalmente, conseguia um copo d’água. Era como se toda a mágoa que manchava meu coração fosse lavada, limpa, purificada.

Era como se eu respirasse debaixo d’água.

Nós nos olhamos, nos beijamos e nos queimamos naquele vício.

Estávamos viciados um no outro, mas isso significava que aquilo duraria para sempre?

O que viria depois?

O passado já nem era tão assustador quanto essa pergunta.

Água com Gelo (Parte 25)

10 de maio, 21h11min

Fico deitado na grama olhando para as estrelas. Elas brilhavam com tanta intensidade que sentia que quase poderia alcança-las se esticasse o braço e pulasse alto o bastante.

A fogueira queimava perto de mim e, no silêncio da mata, apenas com o som do rio, eu me sinto desconectado de tudo.

— Kai?

— O quê?

— Você não falou quase nada desde hoje à tarde.

— Eu não quero falar nada.

— Eu sei o que vai te animar.

Viro o rosto para encará-lo. Douglas tinha uma expressão de “eureca” na face: estava para aprontar alguma coisa.

Para minha total surpresa, ele trouxe, do carro, um violão. Eu nem sabia que aquilo estava ali no porta-malas, mas lá estava ele, o mesmo violão que ficava discretamente colocado no canto do seu quarto como se fizesse parte da mobília.

— Tenho uma surpresa para você. Já que Anadel é sua banda favorita, decidi aprender uma de suas canções.

— Você está brincando! Eu nem sabia que você tocava mesmo isso aí, pensei que tinha falado que tocava só pra me impressionar.

— Engraçadinho. Eu só não toco, como canto também.

Como se eu já não tivesse motivos o suficiente para ser apaixonado nele.

— E o que vai cantar?

— Apenas escute. Dedico cada palavra a você.

E, simplesmente assim, ele produz música:

Take my hand

And we’ll walk through this life together

Take my hand

And I’ll do my best to lead you

And darling, there will be days

When I fall down

And darling, there will be nights

When we feel all alone

 

But it will take more than

The wind and the waves

To break us

When the storms come

We’ll hold to the corner of the sea

This road is long and mountains to climb will be many

Well I’m just so glad that I get to face them with you

 

Segurando lágrimas, movo-me para mais perto dele:

Take my heart

‘Cause all of my love I give to you

Take my life

‘Cause all that I am is yours

And darling, I wish I could promise

That it will be perfect

But darling, through it all

I will be by your side[1]

 

Douglas termina a música e me olha como um garoto que acaba de fazer um truque olha para a mãe, esperando sua aprovação, seu encanto, seu sorriso. Eu o olho como nunca o olhei antes, como nunca olhei qualquer outra pessoa:

— Eu amo você.

E vejo seus olhos se arregalarem, o azul refletindo o vermelho do fogo, da paixão, do amor.

— Eu também amo você.

E já não tinha mais medo de saltar fundo naquele rio, mergulhar completamente nele e me deixar ser levado pela sua correnteza.

— Eu quero você. Quero tudo que é você. Não tenho mais medo.

— Tem certeza?

E me aproximo e o beijo.

— Tenho.

E ele sorri.

A fogueira queimava com intensidade atrás de nós, as estrelas brilhavam como se aplaudissem aquele momento, a lua escondia sua face para nos dar privacidade e o rio corria longe, longe do perigo.

Eu estava seguro.

 

?? de maio, ??h??min

Tenho os olhos muito abertos enquanto o suor escorria pelo meu corpo despido e minha respiração acelerada lentamente voltava ao normal. Minha cabeça descansava sobre o braço dele enquanto eu – e ele – me dava conta do que tínhamos acabado de fazer.

Por muito Tempo, pensei que jamais teria essa experiência. No entanto, agora estava aqui, nu de corpo e alma, expondo todas as partes mais íntimas de mim, tanto dentro quanto fora. Era algo que exigia completa submissão e confiança ao outro. Estava completamente vulnerável, despido de minhas roupas e meus muros que crio em torno de mim para me proteger.

Ele acariciava meus cabelos e fico apenas escutando seu coração bater aceleradamente com meu ouvido sobre seu peito. Era uma sensação maravilhosa saber que eu era razão por fazer aquele sangue correr mais rápido. Era uma experiência única, e eu me sentia conectado a ele de uma maneira que meras palavras não podiam explicar. Portanto, quando ele me pergunta sobre como eu estava, consigo apenas sorrir, rir, beijar sua pele e dizer alguma coisa, qualquer coisa, que me vinha na mente naquele momento:

— É como se pudesse respirar debaixo d’água.

Ele ri.

— Sério?! Como assim?

— Eu não sei.

E me aperta um pouco mais, como se fosse para me fazer chegar ainda mais perto, se é que isso era possível.

— E você? Como se sente?

Seu peito se estufa, sugando quase todo o ar que ainda sobrava naquela barraca.

— Sortudo. Sortudo de ter alguém como você ao meu lado.

Sorrio.

— Não é incrível como de todos os segundos, todos os minutos e horas, nós dois estávamos no momento exato d’O Tempo para que nos conhecêssemos? Naquele exato segundo, eu estava no exato lugar no espaço ficando na trajetória da sua bola, levando a uma sequência de eventos que nos levou até esse momento aqui. Parece que algo maior que nós, seja Deus, seja o Universo, ordenou todas as peças em seus lugares para que esse momento acontecesse. Talvez, as coisas aconteçam por um motivo. – Falo, mas ele não demonstra reação – Douglas?

Ele, então, vira o rosto para me encarar:

— Eu tenho que te contar uma coisa.

A seriedade em seu olhar me fez ficar subitamente preocupado. O que poderia ter acontecido naquele intervalo de Tempo para mudar completamente seu humor?

— Você está me assustando.

Ele tenta rir, mas não consegue:

— É só que… não foi completa sorte. Eu estava no clube naquele dia, naquela hora, porque queria conhecer você.

— O quê?!

Eu o encaro por bons cinco segundos para averiguar que, de fato, ele não estava brincando ou fazendo alguma piada desnecessária.

— Como assim?!

Douglas joga a mão no cabelo e fica olhando para o teto da barraca, vendo as estrelas através da rede de mosquitos.

— Já fazia um tempo em que percebia que sentia atração por garotos. Eu costumava namorar uma garota, mas sempre pensava em outros rapazes. Eu não entendia porque me sentia assim. Eu também não tinha ninguém com quem conversar. Tentei falar com alguns amigos a respeito, mas nenhum deles se importava com isso. Por que se importariam? Estavam satisfeitos com garotas. Até que um deles, Hugo, comentou que, quando ele era criança, um rapaz o beijou. Esse rapaz era você.

Meus olhos se arregalam.

— O quê?!

— Ele disse que vocês tinham apenas onze anos e que estudavam na mesma sala. Vocês estavam jogando videogame na casa dele e, em algum momento, você o beijou. Você se lembra disso?

É claro que eu me lembrava.

Eu me lembro de tudo.

Sim, estudávamos na mesma sala.

Ainda estudamos.

Eu gostava dele, ele era meu amigo. Eu era apenas uma criança que queria demonstrar aquele afeto. Eu quis beijá-lo, e beijei.

Mas, ele não gostou.

Ele contou para a mãe dele.

E a mãe dele…

— Douglas…

— Quando ele me falou isso, fingi não dar importância, mas procurei saber mais a seu respeito. Então, eu o vi naquele dia no clube, e… fiz as coisas acontecerem. Kai, eu sinto muito, mas… eu chutei a bola em você de propósito.

— Douglas!

— Eu precisava de alguma desculpa! Precisava me tornar seu amigo, queria ter alguém para conversar… Eu só não esperava que fosse gostar tanto de você tão rápido. Depois daquele encontro na Mãe Joana, eu não conseguia parar de pensar em você. Eu tentei deixar as coisas agirem naturalmente, mas você logo me chamou para ir ao clube e, quando me dei conta, já estávamos nos beijando…

Eu fico o encarando com uma mistura absurda de emoções, mas ainda rendido pelo brilho de seus olhos azuis.

— Mas, você tem razão: as coisas acontecem por um motivo. Parece que algo maior nos permitiu que isso acontecesse. Por isso, eu me sinto tão sortudo. Sortudo por ter me tornado amigo do rapaz o qual você beijou, sortudo por poder ter tido a chance de te encontrar naquele clube, vê-lo nadando naquela piscina e tomado a coragem de falar com você.

Sinto meu coração despencar. Eu havia me despido completamente, em corpo e alma, mas havia ainda algo, uma grande parte de mim, da qual ele ainda não sabia.

— Kai, o que foi?! Que cara é essa?

Algo que, por muito Tempo, eu temi muito que ele soubesse.

— Douglas… Aquele beijo destruiu minha vida.

— O quê?! Por quê?

— Porque minha mãe está morta por causa dele.

[1] Pegue minha mão/E andaremos por essa vida juntos/Pegue minha mão/E farei o melhor para guiá-lo/E querido, haverá dias/Que eu cairei/E querido, haverá noites/Que nos sentiremos tão sozinhos/Mas, precisará mais que/O vento e as ondas/Para nos quebrar/Quando a tempestade chegar/Nós nos seguraremos no canto do mar/Essa estrada é longa e as montanhas a se escalar serão muitas/Bem, eu só estou feliz de poder enfrenta-las com você/Pegue meu coração/Porque todo meu amor, eu dou para você/Pegue minha vida/Porque tudo que eu sou, é seu/E querido, eu queria poder prometer/Que será tudo perfeito/Mas querido, durante tudo/Eu estarei ao seu lado (August – Anadel)

 

Água com Gelo (Parte 24)

10 de maio, ??h??min

“Mãe! Mãe, socorro!”

“Kai…? Meu Deus, Kai!”

Água, água por toda parte, água gelada, água forte demais.

Tento me manter acima da superfície, mas a água é muito poderosa.

Só consigo ver o rosto de minha mãe cada vez mais próximo.

“Mãe…”

E tudo fica escuro.

 

10 de maio, ??h??min

Acordo novamente num susto. Olho em volta da barraca com olhos desesperados, o peito estufado e sentindo tremenda falta de ar. O relógio marcava 15h23min, o sol brilhava forte do lado de fora, e Douglas não estava ali.

— Douglas? Douglas! Cadê você?!

Olho por toda parte, mas nenhum sinal dele. Meu coração ainda bate forte, minhas mãos voltam a tremer e fico parado em frente à barraca esperando que Douglas voltasse.

 

10 de maio, 15h24min

 “Kai? Onde está você, Kai?”

 

10 de maio, 15h25min

“Kai, por favor!”

 

10 de maio, 15h26min

“Kai…?! Meu Deus, Kai!”

 

10 de maio, 15h27min

Não consigo mais esperar.

Meu coração está acelerado demais. O Tempo passava ainda mais devagar, como se quanto mais rápido meu sangue corresse nas veias, mais demorados eram os segundos. Cada minuto que fico ali parado, uma memória me vem e me rouba a paz, me rouba o Tempo, e me obriga a dar um passo a frente. É como se O Tempo me afogasse, e eu, submerso nele, consigo prender minha respiração apenas por três minutos até não conseguir mais.

Escuto o barulho das águas do rio e sigo adiante.

 “Sora, Kai, não entrem na água, tudo bem?”

“Fiquem onde podemos vê-los, queridos!”

“Kai? Onde está você, Kai?”

— Douglas? Onde está você, Douglas?

Vou descendo pelo bosque e um lençol azul escuro se estende a minha frente, a água correndo e se quebrando em rochedos ao longo daquela rua molhada. O sol brilhava naquele tapete fazendo as ondas piscarem como diamantes e vejo Douglas sem camiseta e calças sentado à beira dos rochedos.

— Douglas!

— Oi, Kai! O que foi?

— Douglas, saia daí!

—…Por quê?!

— Só saia! Por favor!

Ele me olha com uma expressão confusa, mas se levanta para vir até mim.

“Kai…? Meu Deus, Kai!”

Por favor, não caia.

Douglas me olha da mesma maneira que olhei para minha mãe aquele dia.

Mas, ele não caiu.

— Kai, o que foi? – Pergunta ele, assim que me alcança, sã e salvo.

— Esse rio é perigoso!

— A correnteza está fraca!

— Douglas, por favor, vamos sair daqui! Por favor.

Ele tinha uma expressão semelhante a que ele usou no momento em que lhe disse sobre meu problema com atrasos: ele não entendia, mas tinha compaixão.

— Tudo bem, se é o que quer.

Então, eu o abraço e o aperto forte.

— Obrigado.

Pedro Decide Morrer

Pedro decide morrer – Igor Freitas

Parei em frente à barreira do viaduto, baixa e bamba, e contemplei o cenário daquela madrugada comum. Debrucei-me sobre as plaquetas de concreto frio e fiquei a olhar fixamente para o horizonte logo a minha frente. Havia tantas nuvens no céu, tantos carros passando logo debaixo de meus pés, tantos fantasmas dentro do meu coração… Um passo e todos iriam embora, embora como as nuvens, livre como os pássaros. Tinha a mão firme, segurava com força já me preparando para me levantar e me equilibrar do outro lado, onde não havia mais barreiras. Meus pés estariam livres para seguir em frente e cair. Não, não cair, voar!

Estou prestes a levantar a perna quando escuto um homem vir caminhando até mim, vindo da direita. Estranho. Era tarde e poucos passavam ali a pé. Seria um bandido? Ótimo, serei assaltado; mas, ora essa, e daí se eu for? Não tenho mais nada pelo o que viver, afinal de contas. Que me roube logo meus pertences; que me esfaqueie – bom que não terei meu próprio sangue nas mãos. Deus sabe o quanto eu desejei que meu sangue escorresse por mãos alheias. Assim, ao menos eu teria a ilusão de que não causei a minha própria morte. Seria um infortunado, uma vida perdida, não uma vida jogada fora. Já pensei em várias maneiras de como morrer sem parecer que essa havia sido minha escolha. Ninguém precisava saber de minha fraqueza. Ninguém precisava se lembrar de mim pelos estragos causados por eventos os quais eu não tinha controle. Queria morrer como uma vítima, não como um fracassado.

Mudei de ideia ao perceber que estava sendo um covarde. Mesmo na morte, não tinha coragem de assumir meus atos. Sim, eu quero morrer. Sim, essa é minha escolha. Não fingirei um acidente, não colocarei o peso da minha vida perdida nas costas de um inocente. Assumirei meu erro, e quando encontrarem minha carta, ficará bem claro que a única pessoa responsável por isso sou eu próprio.

Talvez fosse por isso o meu desconforto com a presença do homem que vinha até mim. Eu já havia me decidido que era assim que queria partir – era minha escolha, droga! Deixem saber que morri por causa disso. Deixem saber de todas as tragédias que enfim me ruíram. Não queria ser meramente reduzido a um latrocínio, a um psicopata barato ou alguém ainda mais esquecido por Deus do que eu.

Estava decidido a enfrentar o homem caso fosse necessário. Com ele mais próximo e com mais inspeção, percebo que se trata de alguém velho, mais velho que eu ao menos: quarenta, talvez cinquenta anos. Vestia roupas sem cor, largas e velhas, e sua face era carregada, olhos pesados circulados por olheiras, um rosto envelhecido de alguém que talvez já tivera alguma beleza.

Não fiquei a encará-lo. Tratei logo de voltar a face para o horizonte como se fosse um mero bêbado contemplando a paisagem numa madrugada de quarta-feira. Presumi que ou ele me assaltaria ou seguiria em frente, preocupado com seus próprios problemas. Em vez disso, o bendito parou, assumindo uma posição semelhante à minha, a uns três metros de distância.

Fiquei incomodado com sua presença. O homem, ao contrário, parecia tranquilo: tirou um cigarro do bolso e acendeu, tragou e observou. Só fez observar, e logo já não podia mais ignorar sua presença ali.

Não pude pedir a ele que fosse embora, no entanto: ele se pronunciou.

— Quer um trago?

— Não, obrigado. Parei tem dois meses.

Ele riu.

— Parou nada. Você traga um toda noite antes de dormir.

Franzi com sua asserção correta, mas logo presumi que ele simplesmente conseguiu farejar o fedor de fumaça do cigarro que havia tragado horas atrás; horas antes de eu decidir morrer.

Quis manda-lo ir se foder, mas parei. Era engraçado, todas as minhas reações normais em situações sociais já não pareciam fazer sentido agora que eu havia, bem, decidido morrer.

— Tá certo.

Ele se aproximou, entregou-me o cigarro, acendi, inalei com vontade e exalei. Vendo-o mais de perto, sinto algo intrigante sobre sua aparência, apesar de não entender exatamente o que era.

— Está aqui pelo motivo que acho que está? – Pergunto, pertinente. Novamente, era algo que eu jamais faria se eu não tivesse decidido morrer; eu simplesmente teria ignorado esse doido, seguido com a minha própria vida e o deixado com seus próprios pensamentos.

— Me matar? Ah, não. É um péssimo lugar para morrer, não acha?

— Como assim? Estarei morto mesmo. Tanto faz.

— É mesmo? Então não liga para o que acontecer quando partir a cabeça no para-brisa de um carro qualquer, possivelmente matando alguém?

— Vou esperar os carros pararem de passar.

— E se um passar por cima de seu corpo e bater? Já pensou o problema que isso vai causar para as pessoas que estavam no veículo?

Fiquei em silêncio. É claro que havia pensado em tais possibilidades, mas não conseguia conceber outra forma de morrer. Não queria sangrar até desfalecer no meu apartamento com cortes nos pulsos – muito lento e doloroso. Não tinha uma arma para algo fácil e prático, muito menos uma corda forte o bastante para aguentar meu peso. Melhor mesmo cair.

— Eu não quero trazer problemas para ninguém. Só não consigo mais lidar com os meus.

— Então você vai simplesmente passar a dor adiante? E sua família? Amigos?

Suspiro.

— Olha, quem é você? Desculpe, mas eu não tô a fim de ser julgado por um repleto estranho.

— Eu te conheço melhor do que você pensa, Pedro.

Agora, fiquei surpreso. Tudo bem ele adivinhar o cigarro, mas meu nome era um tanto demais.

— Eu não te conheço. Por favor, me deixe em paz.

— Tudo bem, se é o que você quer! Vá em frente. Se mate!

E ficou lá parado, olhando. Quis simplesmente pular a grade e saltar, mas o olhar daquele homem me incomodava profundamente.

— E quanto a você? – Estressei – Que faz aqui, afinal de contas? Veio por acaso me impedir de me matar?

— Sim.

Paro, confuso.

— Como é?

— Sim, eu vim aqui impedi-lo de se matar.

— Eu nem sei quem é você!

— Porra, Pedro, olha de perto! Não me reconhece?!

Enfim, aproximei-me mais do homem. Parei a meio metro dele e observo seu semblante. Logo, num enorme espanto, fui reparando cada traço dele: seu nariz levemente torto, seus olhos grandes, meio redondos, as sobrancelhas abertas.

— Meu Deus! Você é…

— Você. Eu sou você, Pedro, daqui a vinte anos.

Era uma piada. Uma piada muito bem elaborada, sim, mas uma grandessíssima piada.

Não sei por que, mas comecei a rir. Como que se reage ao conhecer você mesmo do futuro? Não faço ideia, então só rio.

— Viu? Sabia que faria isso. Você gargalha quando não sabe o que fazer. Achei que suas convenções sociais não faziam mais sentido agora que havia decidido morrer…

Droga, ele até parecia saber de meus pensamentos. Ele era mesmo eu. Eu era mesmo ele. Meu Deus.

— Tudo bem, então. Você está aqui para me dizer que a vida vale a pena, que as coisas melhoram, que vai dar tudo certo no final, não é? Certo, pode começar. Estou curioso.

Ele – ou eu, sei lá – simplesmente tragou de novo e deu de ombros.

— Minha vida tá uma droga. Tive altos, tive baixos. Depois, mais baixos. Já faz cinco anos que as coisas não melhoram. Agora, estou desempregado, endividado até o pescoço, solteiro e vivendo de favores. Não é exatamente uma boa vida.

Sinto o peito doer. Droga! Que piada divina mais cruel era essa?! Admito que por tolos dois segundos comecei a ter esperança de novo. Seria como aqueles contos-de-fadas, nos quais um anjo caiu do céu e o herói é assegurado de que tudo daria certo: ele era o escolhido, o protegido, o especial. Por dois tolos segundos, pensei que eu era especial; quantas pessoas recebem a visita de si mesmas do futuro?

Volto a pensar que era tudo uma piada, uma encenação. Alguém estava tirando uma comigo, como se eu já não tivesse mais motivos para querer morrer. Mas, porra, ele era tão real! No começo, demorei a perceber, mas agora não conseguia deixar de me ver ali envelhecido logo diante de mim. Era algo que não podia mais conceber, então ficou só a tristeza. Minha vida realmente estava fadada à desgraça, e eu mesmo estava ali de prova.

— Então, é isso? Você é o que eu devo esperar para o meu futuro?

— Sim. E não. Eu sou o que você provavelmente vai ser. O futuro é algo incerto: não está gravado em pedra, como muitos acreditam. Esqueça as cartomantes! Quem sabe o que acontecerá amanhã? Tudo depende de suas atitudes.

— Não tô entendendo. Eu estou vendo você aqui. O que aconteceu com você?

— Eu sou você, Pedro: a pessoa que havia decidido morrer, mas que nunca morreu. Todos os dias da minha vida são dias assim, dias como hoje. Dias em que eu não tô nem aí pra convenções sociais, para o que os outros pensam, para mim mesmo. Só sigo nesse viaduto, olhando para sempre esse horizonte, esses carros passando e as nuvens no céu. Tudo assim, sem mudar nada. Sabe por quê? Porque eu não mudei. Nós não mudamos.

Fico mudo diante o que ele havia me falado. Escoro a face sobre a barreira enquanto digiro sua afirmação. Parte de mim queria soca-lo, mesmo eu não entendendo bem por quê. Talvez fosse por ele estar me dizendo uma verdade, e eu não queria ouvir verdades. Queria ouvir belas mentiras, promessas de um futuro feliz, uma esposa linda, uma criança no colo, todos sorrindo diante uma casinha amarela com jardim, cerca branca e um cachorro no quintal. Por dois tolos segundos, eu havia acreditado que aquele homem me mostraria isso, mas não era verdade. Minha vida não mudaria porque eu não mudaria. Eu continuaria o mesmo, para sempre me destruindo nos meus próprios maus hábitos os quais eu estou cansado de saber que me ferem, mas que, por Deus, por um motivo eu não consigo muda-los.

— O que eu posso fazer?! Eu não sei! Eu já tentei mudar, mas não consigo.

— “Não consigo”. Adoramos falar isso, não é mesmo?

— Porque é verdade.

— É engraçado, mas antes de você decidir morrer, você também não conseguia falar com um repleto estranho, mas cá estamos.

— É diferente.

— Diferente por quê? Porque você não tem mais nada a perder? Acontece, Pedro, que tem sim, e eu sou a prova. Temos tanto a perder que adiamos nossa morte por vinte anos. Estou aqui, vinte anos esperando um milagre acontecer, igual naqueles contos-de-fadas no qual um anjo apareceria para me salvar e blá-blá.

Aqui, ele respira fundo e dá uma nova tragada antes de completar:

— Baboseira.

Fico calado, esperando-o falar mais. No entanto, ele nada falou, só continuou a tragar.

— Eu não entendo. Você quer então que eu me mate? Você está claramente miserável.

O Pedro de quarenta e cinco anos levanta a cabeça e respira fundo.

— Eu fico pensando em todos os anos que se passaram desde que estive aqui, nesse mesmo viaduto, contemplando essa mesma escolha, e me pergunto se teria sido melhor. A dor com certeza teria acabado. Eu não teria tido tantas novas decepções e dificuldades que pareciam cada vez maiores. Quando eu penso em tudo isso, tudo em mim urge a implorar para você que morra, que acabe com todo o sofrimento que te espera.

Meus lábios tremiam, meus olhos estavam fixos em mim mesmo. Aquele homem indubitavelmente era eu.

Ele – eu – então, começou a chorar. Lágrimas silenciosas escorriam de suas bochechas magras e secas, seus olhos fundos sob olheiras estavam agora vermelhos, fracos, indefesos como os de uma criança, e me imploravam:

— Mesmo com tudo isso, Pedro, quando eu olho para você, agora, eu não consigo pedir para que morra. Eu não consigo. Eu queria muito, mas não consigo! Como posso? Olhe só para você! Como posso simplesmente lhe apontar uma arma e puxar o gatilho?

Ele chorava, e só então reparei o revólver em sua cinta. Fiquei trêmulo, paralisado diante aquela cena surreal.

— Eu menti. Não vim para impedi-lo. Pelo contrário, eu vim me certificar que iria realmente me salvar de vinte anos muito sofridos… Mas, bastou um só olhar para você para eu desistir da ideia toda. Eu sinto muito, Pedro. Eu sinto muito, muito mesmo.

Meu coração batia forte. Eu não sabia como reagir diante aquela cena. Eu não entendia mais o que ele – eu – queria de verdade, mas vê-lo assim de tal maneira só me mostrava que aquela vida não compensava.

— Pedro… – Chamei, sentindo o peso de meu próprio nome na língua – Eu não consigo mais! Se for isso que me aguarda, então… Então eu preciso fazer isso.

Ele – eu – cessou o choro e respirou fundo. Tragou mais uma vez e fez como se nada tivesse acontecido, pois eu bem sabia que ele – eu – não gostava de chorar na frente dos outros.

— Tudo bem. Vá em frente.

Fiquei mudo novamente, agora repentinamente trêmulo diante o abismo à minha frente. Aquela conversa havia me abalado, e duvidava que conseguiria sequer passar minhas duas pernas por cima da barreira.

— Pode me dar a arma?

Ele – eu – olhou para mim, seus olhos ainda vermelhos.

— Posso. – E me a entregou.

Peguei o objeto sentindo seu metal frio. Notei seu peso: parecia pesar uma tonelada em minhas mãos trêmulas e magras, o cano da arma chicoteando para todos os lados na medida em que tentava levar seu peso absurdo em direção à minha testa, pressionar o indicador contra o gatilho e finalizar minha vida.

Fiquei com os olhos cerrados e a garganta seca antecipando o som da explosão de pólvora logo acima de minha orelha. Será que sentiria alguma dor no breve momento entre o pressionar do gatilho e o fim de minha consciência? Teria tempo para contemplar minha decisão ou mesmo para me arrepender? Ou será que iria direto para o nada, com o fim eterno de minha existência?

— E-eu não consigo… Não consigo. Atire em mim!

— Pedro…

— Por favor! Atire em mim! Eu não posso me tornar como você! Eu não posso…

Ele – eu – tinha a expressão mais triste que já vi em minha própria face. Suspirou longamente deixando logo escapar uma tosse seca antes de admitir que também não conseguia.

— Eu lhe disse: estou há vinte anos neste viaduto. Eu não consigo. Eu vim aqui hoje justamente para atirar em você, certificar-me que esse sofrimento iria acabar, mas… não consigo.

— Meu Deus…! – Falo, quase com um grito.

— Mas, se quer tanto a morte, basta apontar naquela direção e atirar naquele que vem lá.

— O quê?!

Não entendi o que ele – eu – quis dizer com aquilo. Foi então que me virei e vi um menino andando em minha direção, vindo da esquerda. Um garoto pequeno, miúdo, de talvez uns cinco anos. Era bonito, não pelos seus traços ordinários, mas por ele ser meramente uma criança comum e feliz.

Meu coração parou por dois segundos, meu corpo todo sentindo somente a sensação gélida do revólver em minha mão.

— Atire nele, Pedro. – Falou Pedro.

— O quê?!

O menino olhou para mim e, vendo a arma em minha mão, começou a chorar:

— Não me mata, por favor!

E eu chorei também.

Desabei em lágrimas. Por mais alto que o menino chorasse, mais alto eu chorava junto. O dele era um choro genuíno de criança, um choro que partia o coração de um ditador, e eu estava ali, apontando uma arma para ele, pronto para lhe dar um tiro.

— Atire, Pedro. Vamos lá. É isso que você queria que eu fizesse, não é? É isso que você quer fazer consigo mesmo. – Falou Pedro.

Olhei para Pedro, seus pequeninos olhos, seu cabelinho preto escorrido, seu joelho ralado do futebol, e finalmente entendi o que Pedro quis dizer.

Como um ser humano poderia atirar naquela criança? Que tipo de monstro faria isso?! Olhe só para ele, tão lindo, tão perfeito, tão cheio de vida e com um futuro pleno pela frente!

Gritei. Atirei a arma pelo viaduto e me caí de joelhos. Pedia perdão ao menino e o abracei, segurei-o forte e lhe prometi que nunca, nunca, nunca o machucaria.

Por vinte e cinco anos, pensei que não me amava.  No entanto, ao ver aquele menino, percebi, finalmente, que meu amor próprio sempre existiu. Ele só estava enterrado pela dor. Estava cavado fundo dentro do meu peito, mas mesmo assim sobreviveu depois de quarenta e cinco anos. Por quarenta e cinco anos ele estava lá, e era por isso que Pedro não poderia simplesmente atirar em mim. Era por isso que eu não poderia simplesmente atirar em Pedro.

O sol despontou naquele momento iluminando as faces de nós três – a minha face. Pedro e Pedro sorriam, e eu sorria também. Vi cada um partindo, cada um pelo seu lado, deixando-me ali no meio daquele viaduto, observando o horizonte.

Vivo.

Água com Gelo (Parte 23)

10 de maio, ??h??min

As águas são escuras e rápidas. Meus pés estão gelados, mergulhados.

“Kai? Onde está você, Kai?”

Vá embora. Eu não quero ver você…

 “Kai, por favor!”

Eu me viro para olhá-la. Ponho-me de pé, mas logo sinto meu corpo todo molhado. Água gelada me domina, e luto contra ela. Quando coloco a cabeça por cima da superfície, vejo o seu rosto: ela tem pavor nos olhos.

 “Kai…?! Meu Deus, Kai!”

“Mãe! Mãe!”

Mãe…

 

10 de maio, ??h??min

— Mãe!

Acordo com meu próprio grito. Olho o relógio: 06h05min. Douglas passaria aqui em vinte e cinco minutos.

Fico sentado na cama por uns bons dois minutos contemplando tudo ao meu redor, esfregando meus olhos e respirando fundo. Minhas mãos tremiam levemente, mas já estava acostumado com aquilo. Vou ao banheiro para escovar os dentes e tomar banho e, quando me encaro no espelho, digo para mim mesmo que tudo daria certo.

Preparo minhas coisas e, antes de sair, bato na porta de Sora para avisar que já estava saindo. Ele apenas me pede para ter cuidado e para que ligasse assim que chegasse, e saio.

06h30min, Douglas chega.

— Bom dia! Como está?

Nervoso.

— Bem.

— Ótimo. Vai ser bem divertido!

“Vai ser bem divertido, galerinha.”

“Pai? Pode parar o carro? Preciso fazer xixi…”

“Mas, acabamos de sair, Sora!”

“Não faça o menino segurar, Jorge! E você, Kai? Está tudo bem?”

Está tudo bem?

Eu não sei, mãe.

 

10 de maio, 11h11min

As árvores começam a se estender mais ao alto e o ar tem um aspecto mais puro. Sinto a brisa contra meu rosto, o cheiro característico de mata, e já sei que havíamos chegado.

Douglas, novamente, estava em paz. Era o mesmo rapaz tranquilo que havia conquistado meu coração boiando nas águas da piscina. Vê-lo assim, tão sereno, apenas feliz por me ter ao seu lado me dava toda a coragem necessária para sair do carro e abrir os braços para aquela natureza maravilhosa.

“Kai? Onde está você, Kai?”

Vá embora, mãe…

Vá embora.

— Tudo bem, meu bem?

Quase pulo de susto. Douglas me olha com um sorriso:

— Eu tô ótimo.

Ele então me beija na bochecha.

— Vamos para mais perto do bosque, perto do riacho.

“Perto do riacho?!”

— Perto do riacho?!

— Sim, qual o problema?

Eu travo.

— Ah… Prefiro ficar um pouco mais longe. Vai ficar muito frio à noite lá.

Eu o vejo franzir as sobrancelhas, intrigado, mas dá de ombros.

— Tudo bem.

Avançamos um pouco mais. Não podia ver o rio, mas podia escutar suas águas correndo. Douglas vai assoviando enquanto puxa sua barraca – que era grande o bastante para, talvez, quatro pessoas – e eu o ajudo a montá-la. Depois, juntamos lenha para preparar uma fogueira e começamos a improvisar um almoço.

Era a primeira vez que cozinhávamos juntos. Vez ou outra, Douglas fazia uma exceção de sua dieta sem carnes, então preparamos peixes e batatas.

— Cuidado com espinhos, meu bem.

Cuidado com espinhos, meu bem.”

Paro de comer e olho para ele.

— O que foi?!

—…Nada.

— Você está diferente.

—…Eu só estou preocupado com o pessoal lá de casa. Já deveria ter ligado para Sora. Acho que vou ligar.

Douglas se dá por satisfeito e saio para fazer minha ligação. Aviso a Sora de que estou bem e que ligaria no dia seguinte. Ele novamente me avisa do rio.

— Não vou chegar perto. – Prometo

Douglas grita:

— Meu bem, vou comer suas batatas se você não se apressar!

Olho para fora e vejo meu namorado. Do rio Douglas, eu já estava perto demais.