Pedro Decide Morrer

Pedro decide morrer – Igor Freitas

Parei em frente à barreira do viaduto, baixa e bamba, e contemplei o cenário daquela madrugada comum. Debrucei-me sobre as plaquetas de concreto frio e fiquei a olhar fixamente para o horizonte logo a minha frente. Havia tantas nuvens no céu, tantos carros passando logo debaixo de meus pés, tantos fantasmas dentro do meu coração… Um passo e todos iriam embora, embora como as nuvens, livre como os pássaros. Tinha a mão firme, segurava com força já me preparando para me levantar e me equilibrar do outro lado, onde não havia mais barreiras. Meus pés estariam livres para seguir em frente e cair. Não, não cair, voar!

Estou prestes a levantar a perna quando escuto um homem vir caminhando até mim, vindo da direita. Estranho. Era tarde e poucos passavam ali a pé. Seria um bandido? Ótimo, serei assaltado; mas, ora essa, e daí se eu for? Não tenho mais nada pelo o que viver, afinal de contas. Que me roube logo meus pertences; que me esfaqueie – bom que não terei meu próprio sangue nas mãos. Deus sabe o quanto eu desejei que meu sangue escorresse por mãos alheias. Assim, ao menos eu teria a ilusão de que não causei a minha própria morte. Seria um infortunado, uma vida perdida, não uma vida jogada fora. Já pensei em várias maneiras de como morrer sem parecer que essa havia sido minha escolha. Ninguém precisava saber de minha fraqueza. Ninguém precisava se lembrar de mim pelos estragos causados por eventos os quais eu não tinha controle. Queria morrer como uma vítima, não como um fracassado.

Mudei de ideia ao perceber que estava sendo um covarde. Mesmo na morte, não tinha coragem de assumir meus atos. Sim, eu quero morrer. Sim, essa é minha escolha. Não fingirei um acidente, não colocarei o peso da minha vida perdida nas costas de um inocente. Assumirei meu erro, e quando encontrarem minha carta, ficará bem claro que a única pessoa responsável por isso sou eu próprio.

Talvez fosse por isso o meu desconforto com a presença do homem que vinha até mim. Eu já havia me decidido que era assim que queria partir – era minha escolha, droga! Deixem saber que morri por causa disso. Deixem saber de todas as tragédias que enfim me ruíram. Não queria ser meramente reduzido a um latrocínio, a um psicopata barato ou alguém ainda mais esquecido por Deus do que eu.

Estava decidido a enfrentar o homem caso fosse necessário. Com ele mais próximo e com mais inspeção, percebo que se trata de alguém velho, mais velho que eu ao menos: quarenta, talvez cinquenta anos. Vestia roupas sem cor, largas e velhas, e sua face era carregada, olhos pesados circulados por olheiras, um rosto envelhecido de alguém que talvez já tivera alguma beleza.

Não fiquei a encará-lo. Tratei logo de voltar a face para o horizonte como se fosse um mero bêbado contemplando a paisagem numa madrugada de quarta-feira. Presumi que ou ele me assaltaria ou seguiria em frente, preocupado com seus próprios problemas. Em vez disso, o bendito parou, assumindo uma posição semelhante à minha, a uns três metros de distância.

Fiquei incomodado com sua presença. O homem, ao contrário, parecia tranquilo: tirou um cigarro do bolso e acendeu, tragou e observou. Só fez observar, e logo já não podia mais ignorar sua presença ali.

Não pude pedir a ele que fosse embora, no entanto: ele se pronunciou.

— Quer um trago?

— Não, obrigado. Parei tem dois meses.

Ele riu.

— Parou nada. Você traga um toda noite antes de dormir.

Franzi com sua asserção correta, mas logo presumi que ele simplesmente conseguiu farejar o fedor de fumaça do cigarro que havia tragado horas atrás; horas antes de eu decidir morrer.

Quis manda-lo ir se foder, mas parei. Era engraçado, todas as minhas reações normais em situações sociais já não pareciam fazer sentido agora que eu havia, bem, decidido morrer.

— Tá certo.

Ele se aproximou, entregou-me o cigarro, acendi, inalei com vontade e exalei. Vendo-o mais de perto, sinto algo intrigante sobre sua aparência, apesar de não entender exatamente o que era.

— Está aqui pelo motivo que acho que está? – Pergunto, pertinente. Novamente, era algo que eu jamais faria se eu não tivesse decidido morrer; eu simplesmente teria ignorado esse doido, seguido com a minha própria vida e o deixado com seus próprios pensamentos.

— Me matar? Ah, não. É um péssimo lugar para morrer, não acha?

— Como assim? Estarei morto mesmo. Tanto faz.

— É mesmo? Então não liga para o que acontecer quando partir a cabeça no para-brisa de um carro qualquer, possivelmente matando alguém?

— Vou esperar os carros pararem de passar.

— E se um passar por cima de seu corpo e bater? Já pensou o problema que isso vai causar para as pessoas que estavam no veículo?

Fiquei em silêncio. É claro que havia pensado em tais possibilidades, mas não conseguia conceber outra forma de morrer. Não queria sangrar até desfalecer no meu apartamento com cortes nos pulsos – muito lento e doloroso. Não tinha uma arma para algo fácil e prático, muito menos uma corda forte o bastante para aguentar meu peso. Melhor mesmo cair.

— Eu não quero trazer problemas para ninguém. Só não consigo mais lidar com os meus.

— Então você vai simplesmente passar a dor adiante? E sua família? Amigos?

Suspiro.

— Olha, quem é você? Desculpe, mas eu não tô a fim de ser julgado por um repleto estranho.

— Eu te conheço melhor do que você pensa, Pedro.

Agora, fiquei surpreso. Tudo bem ele adivinhar o cigarro, mas meu nome era um tanto demais.

— Eu não te conheço. Por favor, me deixe em paz.

— Tudo bem, se é o que você quer! Vá em frente. Se mate!

E ficou lá parado, olhando. Quis simplesmente pular a grade e saltar, mas o olhar daquele homem me incomodava profundamente.

— E quanto a você? – Estressei – Que faz aqui, afinal de contas? Veio por acaso me impedir de me matar?

— Sim.

Paro, confuso.

— Como é?

— Sim, eu vim aqui impedi-lo de se matar.

— Eu nem sei quem é você!

— Porra, Pedro, olha de perto! Não me reconhece?!

Enfim, aproximei-me mais do homem. Parei a meio metro dele e observo seu semblante. Logo, num enorme espanto, fui reparando cada traço dele: seu nariz levemente torto, seus olhos grandes, meio redondos, as sobrancelhas abertas.

— Meu Deus! Você é…

— Você. Eu sou você, Pedro, daqui a vinte anos.

Era uma piada. Uma piada muito bem elaborada, sim, mas uma grandessíssima piada.

Não sei por que, mas comecei a rir. Como que se reage ao conhecer você mesmo do futuro? Não faço ideia, então só rio.

— Viu? Sabia que faria isso. Você gargalha quando não sabe o que fazer. Achei que suas convenções sociais não faziam mais sentido agora que havia decidido morrer…

Droga, ele até parecia saber de meus pensamentos. Ele era mesmo eu. Eu era mesmo ele. Meu Deus.

— Tudo bem, então. Você está aqui para me dizer que a vida vale a pena, que as coisas melhoram, que vai dar tudo certo no final, não é? Certo, pode começar. Estou curioso.

Ele – ou eu, sei lá – simplesmente tragou de novo e deu de ombros.

— Minha vida tá uma droga. Tive altos, tive baixos. Depois, mais baixos. Já faz cinco anos que as coisas não melhoram. Agora, estou desempregado, endividado até o pescoço, solteiro e vivendo de favores. Não é exatamente uma boa vida.

Sinto o peito doer. Droga! Que piada divina mais cruel era essa?! Admito que por tolos dois segundos comecei a ter esperança de novo. Seria como aqueles contos-de-fadas, nos quais um anjo caiu do céu e o herói é assegurado de que tudo daria certo: ele era o escolhido, o protegido, o especial. Por dois tolos segundos, pensei que eu era especial; quantas pessoas recebem a visita de si mesmas do futuro?

Volto a pensar que era tudo uma piada, uma encenação. Alguém estava tirando uma comigo, como se eu já não tivesse mais motivos para querer morrer. Mas, porra, ele era tão real! No começo, demorei a perceber, mas agora não conseguia deixar de me ver ali envelhecido logo diante de mim. Era algo que não podia mais conceber, então ficou só a tristeza. Minha vida realmente estava fadada à desgraça, e eu mesmo estava ali de prova.

— Então, é isso? Você é o que eu devo esperar para o meu futuro?

— Sim. E não. Eu sou o que você provavelmente vai ser. O futuro é algo incerto: não está gravado em pedra, como muitos acreditam. Esqueça as cartomantes! Quem sabe o que acontecerá amanhã? Tudo depende de suas atitudes.

— Não tô entendendo. Eu estou vendo você aqui. O que aconteceu com você?

— Eu sou você, Pedro: a pessoa que havia decidido morrer, mas que nunca morreu. Todos os dias da minha vida são dias assim, dias como hoje. Dias em que eu não tô nem aí pra convenções sociais, para o que os outros pensam, para mim mesmo. Só sigo nesse viaduto, olhando para sempre esse horizonte, esses carros passando e as nuvens no céu. Tudo assim, sem mudar nada. Sabe por quê? Porque eu não mudei. Nós não mudamos.

Fico mudo diante o que ele havia me falado. Escoro a face sobre a barreira enquanto digiro sua afirmação. Parte de mim queria soca-lo, mesmo eu não entendendo bem por quê. Talvez fosse por ele estar me dizendo uma verdade, e eu não queria ouvir verdades. Queria ouvir belas mentiras, promessas de um futuro feliz, uma esposa linda, uma criança no colo, todos sorrindo diante uma casinha amarela com jardim, cerca branca e um cachorro no quintal. Por dois tolos segundos, eu havia acreditado que aquele homem me mostraria isso, mas não era verdade. Minha vida não mudaria porque eu não mudaria. Eu continuaria o mesmo, para sempre me destruindo nos meus próprios maus hábitos os quais eu estou cansado de saber que me ferem, mas que, por Deus, por um motivo eu não consigo muda-los.

— O que eu posso fazer?! Eu não sei! Eu já tentei mudar, mas não consigo.

— “Não consigo”. Adoramos falar isso, não é mesmo?

— Porque é verdade.

— É engraçado, mas antes de você decidir morrer, você também não conseguia falar com um repleto estranho, mas cá estamos.

— É diferente.

— Diferente por quê? Porque você não tem mais nada a perder? Acontece, Pedro, que tem sim, e eu sou a prova. Temos tanto a perder que adiamos nossa morte por vinte anos. Estou aqui, vinte anos esperando um milagre acontecer, igual naqueles contos-de-fadas no qual um anjo apareceria para me salvar e blá-blá.

Aqui, ele respira fundo e dá uma nova tragada antes de completar:

— Baboseira.

Fico calado, esperando-o falar mais. No entanto, ele nada falou, só continuou a tragar.

— Eu não entendo. Você quer então que eu me mate? Você está claramente miserável.

O Pedro de quarenta e cinco anos levanta a cabeça e respira fundo.

— Eu fico pensando em todos os anos que se passaram desde que estive aqui, nesse mesmo viaduto, contemplando essa mesma escolha, e me pergunto se teria sido melhor. A dor com certeza teria acabado. Eu não teria tido tantas novas decepções e dificuldades que pareciam cada vez maiores. Quando eu penso em tudo isso, tudo em mim urge a implorar para você que morra, que acabe com todo o sofrimento que te espera.

Meus lábios tremiam, meus olhos estavam fixos em mim mesmo. Aquele homem indubitavelmente era eu.

Ele – eu – então, começou a chorar. Lágrimas silenciosas escorriam de suas bochechas magras e secas, seus olhos fundos sob olheiras estavam agora vermelhos, fracos, indefesos como os de uma criança, e me imploravam:

— Mesmo com tudo isso, Pedro, quando eu olho para você, agora, eu não consigo pedir para que morra. Eu não consigo. Eu queria muito, mas não consigo! Como posso? Olhe só para você! Como posso simplesmente lhe apontar uma arma e puxar o gatilho?

Ele chorava, e só então reparei o revólver em sua cinta. Fiquei trêmulo, paralisado diante aquela cena surreal.

— Eu menti. Não vim para impedi-lo. Pelo contrário, eu vim me certificar que iria realmente me salvar de vinte anos muito sofridos… Mas, bastou um só olhar para você para eu desistir da ideia toda. Eu sinto muito, Pedro. Eu sinto muito, muito mesmo.

Meu coração batia forte. Eu não sabia como reagir diante aquela cena. Eu não entendia mais o que ele – eu – queria de verdade, mas vê-lo assim de tal maneira só me mostrava que aquela vida não compensava.

— Pedro… – Chamei, sentindo o peso de meu próprio nome na língua – Eu não consigo mais! Se for isso que me aguarda, então… Então eu preciso fazer isso.

Ele – eu – cessou o choro e respirou fundo. Tragou mais uma vez e fez como se nada tivesse acontecido, pois eu bem sabia que ele – eu – não gostava de chorar na frente dos outros.

— Tudo bem. Vá em frente.

Fiquei mudo novamente, agora repentinamente trêmulo diante o abismo à minha frente. Aquela conversa havia me abalado, e duvidava que conseguiria sequer passar minhas duas pernas por cima da barreira.

— Pode me dar a arma?

Ele – eu – olhou para mim, seus olhos ainda vermelhos.

— Posso. – E me a entregou.

Peguei o objeto sentindo seu metal frio. Notei seu peso: parecia pesar uma tonelada em minhas mãos trêmulas e magras, o cano da arma chicoteando para todos os lados na medida em que tentava levar seu peso absurdo em direção à minha testa, pressionar o indicador contra o gatilho e finalizar minha vida.

Fiquei com os olhos cerrados e a garganta seca antecipando o som da explosão de pólvora logo acima de minha orelha. Será que sentiria alguma dor no breve momento entre o pressionar do gatilho e o fim de minha consciência? Teria tempo para contemplar minha decisão ou mesmo para me arrepender? Ou será que iria direto para o nada, com o fim eterno de minha existência?

— E-eu não consigo… Não consigo. Atire em mim!

— Pedro…

— Por favor! Atire em mim! Eu não posso me tornar como você! Eu não posso…

Ele – eu – tinha a expressão mais triste que já vi em minha própria face. Suspirou longamente deixando logo escapar uma tosse seca antes de admitir que também não conseguia.

— Eu lhe disse: estou há vinte anos neste viaduto. Eu não consigo. Eu vim aqui hoje justamente para atirar em você, certificar-me que esse sofrimento iria acabar, mas… não consigo.

— Meu Deus…! – Falo, quase com um grito.

— Mas, se quer tanto a morte, basta apontar naquela direção e atirar naquele que vem lá.

— O quê?!

Não entendi o que ele – eu – quis dizer com aquilo. Foi então que me virei e vi um menino andando em minha direção, vindo da esquerda. Um garoto pequeno, miúdo, de talvez uns cinco anos. Era bonito, não pelos seus traços ordinários, mas por ele ser meramente uma criança comum e feliz.

Meu coração parou por dois segundos, meu corpo todo sentindo somente a sensação gélida do revólver em minha mão.

— Atire nele, Pedro. – Falou Pedro.

— O quê?!

O menino olhou para mim e, vendo a arma em minha mão, começou a chorar:

— Não me mata, por favor!

E eu chorei também.

Desabei em lágrimas. Por mais alto que o menino chorasse, mais alto eu chorava junto. O dele era um choro genuíno de criança, um choro que partia o coração de um ditador, e eu estava ali, apontando uma arma para ele, pronto para lhe dar um tiro.

— Atire, Pedro. Vamos lá. É isso que você queria que eu fizesse, não é? É isso que você quer fazer consigo mesmo. – Falou Pedro.

Olhei para Pedro, seus pequeninos olhos, seu cabelinho preto escorrido, seu joelho ralado do futebol, e finalmente entendi o que Pedro quis dizer.

Como um ser humano poderia atirar naquela criança? Que tipo de monstro faria isso?! Olhe só para ele, tão lindo, tão perfeito, tão cheio de vida e com um futuro pleno pela frente!

Gritei. Atirei a arma pelo viaduto e me caí de joelhos. Pedia perdão ao menino e o abracei, segurei-o forte e lhe prometi que nunca, nunca, nunca o machucaria.

Por vinte e cinco anos, pensei que não me amava.  No entanto, ao ver aquele menino, percebi, finalmente, que meu amor próprio sempre existiu. Ele só estava enterrado pela dor. Estava cavado fundo dentro do meu peito, mas mesmo assim sobreviveu depois de quarenta e cinco anos. Por quarenta e cinco anos ele estava lá, e era por isso que Pedro não poderia simplesmente atirar em mim. Era por isso que eu não poderia simplesmente atirar em Pedro.

O sol despontou naquele momento iluminando as faces de nós três – a minha face. Pedro e Pedro sorriam, e eu sorria também. Vi cada um partindo, cada um pelo seu lado, deixando-me ali no meio daquele viaduto, observando o horizonte.

Vivo.

Água com Gelo (Parte 23)

10 de maio, ??h??min

As águas são escuras e rápidas. Meus pés estão gelados, mergulhados.

“Kai? Onde está você, Kai?”

Vá embora. Eu não quero ver você…

 “Kai, por favor!”

Eu me viro para olhá-la. Ponho-me de pé, mas logo sinto meu corpo todo molhado. Água gelada me domina, e luto contra ela. Quando coloco a cabeça por cima da superfície, vejo o seu rosto: ela tem pavor nos olhos.

 “Kai…?! Meu Deus, Kai!”

“Mãe! Mãe!”

Mãe…

 

10 de maio, ??h??min

— Mãe!

Acordo com meu próprio grito. Olho o relógio: 06h05min. Douglas passaria aqui em vinte e cinco minutos.

Fico sentado na cama por uns bons dois minutos contemplando tudo ao meu redor, esfregando meus olhos e respirando fundo. Minhas mãos tremiam levemente, mas já estava acostumado com aquilo. Vou ao banheiro para escovar os dentes e tomar banho e, quando me encaro no espelho, digo para mim mesmo que tudo daria certo.

Preparo minhas coisas e, antes de sair, bato na porta de Sora para avisar que já estava saindo. Ele apenas me pede para ter cuidado e para que ligasse assim que chegasse, e saio.

06h30min, Douglas chega.

— Bom dia! Como está?

Nervoso.

— Bem.

— Ótimo. Vai ser bem divertido!

“Vai ser bem divertido, galerinha.”

“Pai? Pode parar o carro? Preciso fazer xixi…”

“Mas, acabamos de sair, Sora!”

“Não faça o menino segurar, Jorge! E você, Kai? Está tudo bem?”

Está tudo bem?

Eu não sei, mãe.

 

10 de maio, 11h11min

As árvores começam a se estender mais ao alto e o ar tem um aspecto mais puro. Sinto a brisa contra meu rosto, o cheiro característico de mata, e já sei que havíamos chegado.

Douglas, novamente, estava em paz. Era o mesmo rapaz tranquilo que havia conquistado meu coração boiando nas águas da piscina. Vê-lo assim, tão sereno, apenas feliz por me ter ao seu lado me dava toda a coragem necessária para sair do carro e abrir os braços para aquela natureza maravilhosa.

“Kai? Onde está você, Kai?”

Vá embora, mãe…

Vá embora.

— Tudo bem, meu bem?

Quase pulo de susto. Douglas me olha com um sorriso:

— Eu tô ótimo.

Ele então me beija na bochecha.

— Vamos para mais perto do bosque, perto do riacho.

“Perto do riacho?!”

— Perto do riacho?!

— Sim, qual o problema?

Eu travo.

— Ah… Prefiro ficar um pouco mais longe. Vai ficar muito frio à noite lá.

Eu o vejo franzir as sobrancelhas, intrigado, mas dá de ombros.

— Tudo bem.

Avançamos um pouco mais. Não podia ver o rio, mas podia escutar suas águas correndo. Douglas vai assoviando enquanto puxa sua barraca – que era grande o bastante para, talvez, quatro pessoas – e eu o ajudo a montá-la. Depois, juntamos lenha para preparar uma fogueira e começamos a improvisar um almoço.

Era a primeira vez que cozinhávamos juntos. Vez ou outra, Douglas fazia uma exceção de sua dieta sem carnes, então preparamos peixes e batatas.

— Cuidado com espinhos, meu bem.

Cuidado com espinhos, meu bem.”

Paro de comer e olho para ele.

— O que foi?!

—…Nada.

— Você está diferente.

—…Eu só estou preocupado com o pessoal lá de casa. Já deveria ter ligado para Sora. Acho que vou ligar.

Douglas se dá por satisfeito e saio para fazer minha ligação. Aviso a Sora de que estou bem e que ligaria no dia seguinte. Ele novamente me avisa do rio.

— Não vou chegar perto. – Prometo

Douglas grita:

— Meu bem, vou comer suas batatas se você não se apressar!

Olho para fora e vejo meu namorado. Do rio Douglas, eu já estava perto demais.

Água com Gelo (Parte 22)

9 de maio, 18h30min

— Pai? Posso entrar?

— Oi, filho. Pode sim.

O quarto do meu pai se assemelhava à sala de alguma forma: aqui, também se encontrava uma poltrona, mas esta era virada para a cama. Meu pai passava muito tempo sozinho ali, lendo um jornal, um livro, ou assistindo à T.V. Gostava de ter seu espaço, o que acho que é algo que herdei dele. Agora, ele estava com uma revista nas mãos, lendo-a por trás de seus óculos retangulares.

— O pessoal da escola está organizando um acampamento e preciso da sua autorização para ir.

Jamais pensei que viria lhe pedir isso, mas com a promessa de Douglas em ir, estava, surpreendentemente, empolgado com o passeio. Entrego o termo para meu pai ler e fico estralando os dedos de ansiedade enquanto ele o lê:

Depois de terminar, seus olhos se encontram com os meus por cima das lentes retangulares de seus óculos:

— Perto do riacho?!

—…Sim.

— Kai, perdeu o juízo?

— Pai, é perto do riacho, não “no” riacho. Eu não preciso nem chegar perto.

— Mesmo assim. Seus amigos, com certeza, vão.

— Claro que não! Vai estar frio, todo mundo vai ficar perto da fogueira.

— Bebendo, fumando… A gente faz todo tipo de coisa quando fica influenciado por drogas. Eu também já fui jovem, Kai. É muito perigoso.

— Ninguém vai beber.

— Pode garantir que não?

“Eu não sei o que estou fazendo, Kai, por favor… Eu estou bêbado…”

Começo a me frustrar novamente. Como é que eu sempre fico assim quando converso com ele? Já estava começando a desenvolver um trauma em ter qualquer conversa com meu pai.

— Pai, é o último ano de colegial! Será o nosso último passeio em turma!

Ele me olha com apreensão.

— Eu não gosto disso, mas vou pensar.

Já era bom o bastante.

— Obrigado.

— Mais alguma coisa?

— Na verdade, sim. Minha professora, a Senhorita Daskal, quer conversar com você pessoalmente.

— Por quê?

Dou de ombros.

— Descubra.

 

9 de maio, 18h40min

— Falou com seu pai?

— Falei. Acho que ele não vai deixar.

— Por quê?

— Ele acha que é perigoso.

— Nada a ver. É tranquilo. Já acampei naquela região antes.

— Quer convencê-lo?

Douglas ri.

— Ah, claro. Imagine a conversa: “Oi, sogro, aqui é o seu genro que você não sabe que existe. Tudo bem?”.

Também rio, mas logo fico chateado.

— Bobo. É uma pena, eu até estava gostando da ideia.

—…Por que não vamos então? Só nós dois? Podemos ir amanhã e voltamos já no domingo.

Meu coração começa a acelerar com a ideia de fazer alguma coisa errada como aquela.

— E o que eu digo para o meu pai?

— Invente qualquer história… Diga que vai dormir na casa de um amigo.

Fiquei uma semana de castigo apenas por matar aula, então se passasse o fim de semana acampando sem o conhecimento do meu pai, eu seria enjaulado ou algo do tipo.

“Eu não gosto disso…”

— Tudo bem.

Douglas parece muito feliz, mas sinto o peito pesar com aquela ideia proibida. Combinamos os detalhes e, assim que encerramos a ligação, vou direto ao quarto de Sora. Se eu fosse adiante com aquilo, precisava deixar pelo menos alguém daqui de casa a par de onde eu estaria.

Bato na porta de Sora e ele demora a atender. Assim que vejo seu rosto aparecer, percebo nele olhos cansados, caídos, desanimados:

— O que foi?

— Eu precisava conversar com você sobre algo… Você tá bem?

Ele cruza os braços.

— Não é nada… Só ando com um pouco de saudades da minha ex.

— Sora, foi você que decidiu terminar.

Ele joga os braços para os lados.

— E daí? Ainda tenho coração, Kai. Nunca é fácil terminar com alguém, sempre ficamos com a dúvida se estamos fazendo a coisa certa.

Eu não entendia bem aquele conceito. Por que pessoas que gostam de estar juntas decidem se afastar? Quando penso em Douglas, sei que quero passar meu Tempo com ele. Era simples assim, claro como água

“…isso já foi por água abaixo quando comecei a namorar você, não é mesmo?!”

Mas, será que Douglas pensava o mesmo?

— E como ela lidou com o término?

— Muito bem. Disse que já esperava, mas eu sei que ela também está mal.

— Por que não vai atrás dela, então?

Sora apenas balançou a cabeça.

— É complicado, Kai. Um dia, você vai entender.

— Espero que não.

Ele deu um sorriso um tanto condescendente, daqueles que julgam sua inocência, mas misturado de genuína preocupação.

— Tomara, Kai. Mas, o que você queria?

Eu pauso por um tempo.

— Eu quero fazer algo sem que o papai saiba.

Eu explico tudo para ele – referenciando Douglas como “amigo”, como já estava acostumado a fazer – e espero sua reação. Ao contrário do que antecipava, ele me pareceu bastante compreensivo com a ideia.

— Estou surpreso, mas… um tanto satisfeito.

— Sério?

— Sim. Acho que significa que você está progredindo.

Ou que eu tenho um motivo para ser alguém melhor.

— É… Acho que tem razão. Então, você me ajuda? Vai manter segredo?

— Sim, mas esteja em casa no domingo antes do anoitecer ou falo tudo pro papai. Não chegue perto do rio, em momento algum. E não se esqueça de ligar.

Concordo. Agradeço a Sora e deixo seu quarto com meus sentimentos divididos: ele estava me ajudando a passar tempo com meu namorado enquanto ele próprio se sentia sozinho. Um lado meu queria até desistir da ideia e passar tempo com meu irmão, mas a ideia de acampar com Douglas era irresistível demais.

— Douglas? Combinei com Sora.

— Ótimo! Será divertido, você verá.

— Sim…

Será ótimo.

Água com Gelo (Parte 21)

9 de maio, 11h25min

Chega aquele momento da aula de sexta-feira em que fico contando os minutos até que ela acabe. A Senhorita Daskal trabalhava com um poema e, mesmo sendo um assunto interessante, fico escrevendo o nome de Douglas no canto do caderno igual um adolescente apaixonado – o que era exatamente o que eu era.

Senhorita Daskal me olhava com ares de dúvida aqui e ali, incerta sobre a minha participação, se a minha clara mudança de postura, participação e produção era algo positivo ou não. De fato, estou menos entusiasmado para escrever na aula. Até a minha escrita diária em casa no final do dia, às vezes, fica defasada.

— Kai? Um minutinho?

— Pois não, Professora?

Senhorita Daskal abre seu grande sorriso.

— Lembra-se daquela nossa conversa mês passado? – Antes que eu pudesse responder, ela volta atrás – Ah, claro que lembra.

Eu dou de ombros.

— O que é que tem?

— Quero conversar com seu pai sobre seu andamento na escola.

Já faço uma cara de descontentamento:

— Professora, é mesmo necessário?

— Sinto que sim, Kai. Você anda… mudado.

Penso em Douglas.

— Talvez isso seja uma coisa boa.

— Claro, claro! Não estou aqui para julgá-lo, Kai, mas gostaria de saber um pouco mais sobre como está sua vida.

Olho para o lado e vejo os outros alunos já indo embora.

— Por que eu?

— Já lhe disse: você é diferente.

— E se eu não quiser ser diferente?! E se eu quiser ser apenas… um adolescente comum?

— Kai – Ela começa, agora em outro tom – Não podemos desprezar quem nós somos de verdade! Temos que abraçar nossas diferenças, são elas que nos fazem especiais.

Bufo, sem paciência.

— Eu gostaria de nunca ter contado para vocês. Já não bastam as piadinhas que tive que aturar!

— Kai, na adolescência, todos nós procuramos nossa tribo, um grupo a se pertencer. É uma fase complicada, com muitas mudanças, sentimentos à flor da pele, decisões importantes a se tomar que irão mudar sua vida para sempre! Agora, ser apenas mais um adolescente comum e que se mistura facilmente pode ser tudo o que você gostaria de ser, mas, eu garanto: um dia, o que você mais gostaria de mudar em você se tornará sua maior qualidade. Será o que te fará especial. O mundo lá fora está cheio de pessoas comuns! Ninguém se lembrará deles, Kai, mas podem se lembrar de você.

Eu sorrio com aquela ironia.

— Talvez, eu queira só esquecer.

Viro-me e sigo meu caminho.

— Kai? Vai falar com seu pai?

— Vou. – Prometo.

 

9 de maio, 11h38min

Assim que ponho os pés para fora da escola, vejo Lily me olhando como se estivesse a minha espera:

— O que a Professora queria com você?

Não havia preparado uma mentira.

— Anda preocupada comigo. Diz que estou meio diferente nas aulas.

— E está mesmo.

— Eu tô ótimo.

Lily sorri.

— Se você está tão rebelde assim, monsieur, que tal considerar o passeio para o acampamento?

Todos queriam um pedaço de mim hoje.

— Eu preciso mesmo dar uma resposta agora?

— Não, mas precisa levar este termo de autorização para seus pais assinarem. Você não tem 18 anos ainda, tem?

Faço que não com a cabeça.

— Está tudo explicado aqui como será o evento. Por favor, pense com carinho, Kai! Eu ficaria muito feliz em ter você lá. Prometa que vai pensar, oui?

— Oui, oui!

Lily dá um pulinho de alegria, me abraça e me beija na bochecha.

— Oi, Kai!

Arregalo em olhos em surpresa de ver Douglas vindo em minha direção com um sorriso plácido na face e mãos no bolso. Achei aquilo estranho: ele sempre me espera dentro do carro.

—…Douglas! Ah, essa aqui é a Lily. Lily, esse é meu amigo Douglas.

— Enchantée!

— Oi. Kai, vamos?

— Sim, vamos. Lily, eu vou indo. Prometo pensar direitinho.

— Pensar no quê? – Indaga Douglas, mas antes que eu possa responder, Lily me atropela:

— Toooodos na turma vão participar do acampamento de inverno, só o bobão aqui não quer ir.

— Ah, é. Ele me falou disso. Deveria ir, Kai.

— Eu já falei que vou pensar.

— E se eu também fosse? – Aqui, ele se vira para Lily – Posso ir também?

— Claro!

Com meu “amigo” Douglas e minha amiga Lily me pressionando um de cada lado, fica difícil dizer “não”.

— Tá bom! Eu vou. Mas, preciso ver com meu pai antes.

— Isso! – Grita Lily – J’adore! Douglas, você já é minha segunda pessoa favorita.

— Que bom! Vai ser divertido.

Eu fiquei completamente dividido. Douglas estava atípico aquela manhã: vindo me encontrar na porta da escola, apresentando-se para Lily, propondo participar de uma atividade em grupo comigo e meus colegas de sala…

Com isso na cabeça, confronto-o assim que entramos no carro e damos partida:

— O que foi aquilo?!

— Aquilo o quê?

— Você sabe. Você sempre me esperou aqui no carro.

— Bom, aquela moçoila estava te agarrando de novo, então…

Eu rio:

— Não acredito que está mesmo com ciúmes da Lily!

— Ela é bonita, ué!

— É, mas é uma garota.

No momento que falo a palavra “garota”, me ocorre algo que nunca havia me ocorrido antes: só porque Douglas gostava de garotos, não queria dizer que ele não poderia gostar de garotas também. Ele já namorou garotas, afinal de contas, e acabou beijando uma naquela fatídica festa, mesmo que bêbado.

Fico o observando em silêncio por um tempo enquanto a memória da festa em que fomos juntos piscava na minha cabeça.

Eu o havia perdoado. Eu havia acreditado em seu amor por mim.

Mesmo assim, mesmo acreditando em sua palavra, o passado não simplesmente deixava de existir.

Especialmente, não para mim.

— Douglas… – Começo, mas me interrompo antes de fazer qualquer pergunta desnecessária que só faria nos machucar. Ele estava comigo agora, não importava – ou não deveria importar – o que aconteceu antes. Tocar naquela ferida seria torturar meu namorado por uma coisa que eu mesmo havia o desculpado.

Não era justo.

— Oi?

— Ah… Você falou sério sobre o acampamento?

Ele toma seu tempo para responder.

— Falei. Por que não? Poderíamos passar mais tempo juntos.

“Gente, gente! O Kai tá só brincando. Não é mesmo, Kai?!”

— E não se preocupa com o que vão pensar?

Douglas suspira.

— Eu ando pensando… em contar para os meus pais.

— Sério?!

Paramos no sinal vermelho. Douglas solta as mãos do volante e ficamos vendo as pessoas atravessarem de uma calçada para a outra.

— Sim. Eu não gosto de esconder coisas deles. Eu já tive namoradas antes, gostava de poder leva-las para casa e apresenta-las para eles, jantar em família, essas coisas. Eu quero poder fazer isso com você, também.

Eu sorrio.

— Seria ótimo.

Ele suspira novamente – é claro, ainda estava dividido.

— Mas, meu bem, não faça nada a não ser que esteja cem por cento seguro em fazer.

Ele se vira para me encarar e sorri.

— Vai dar tudo certo. – Ele promete.

O sinal se abre, e seguimos.

Água com Gelo (Parte 20)

12 de abril, ??h??min

“Kai? Onde está você, Kai?”

“Kai, por favor!”

 “Kai…?! Meu Deus, Kai!”

Mãe?

Mãe… Me perdoe, mãe… me perdoe, me perdoe…

 

12 de abril, 17h02min

“Me perdoe, me perdoe, me perdoe…”

Aquelas palavras deslizam pela minha mente assim como as pequenas ondas que se formavam na piscina. Para cima e para baixo, é só azul. No entanto, com o fim da tarde chegando, o azul do céu ia aos poucos ganhando uma cor alaranjada, e fico vendo as cores, aos poucos, se escurecendo lentamente até sumirem, puxando a noite e as estrelas junto com elas.

É no crepúsculo, nos últimos momentos do dia, é que o vejo se aproximando, sentando-se à beira da piscina e molhando seus pés, olhando para mim com tristeza e culpa nos olhos.

— Eu sabia que estaria aqui.

— Não é difícil de adivinhar.

— Não, mas eu sabia que estaria aqui neste horário. Você gosta das cores do céu no crepúsculo. Também foi neste horário que nos conhecemos.

Paro de boiar e me ponho de pé na água.

— Errado. Azul e verde são minhas cores favoritas. E nós nos conhecemos às 16h46min. Agora são 17h04min.

Ele me olha um tanto perplexo.

— Como… você sabe disso?

Encaro-o fundo nos olhos.

— Há muitas coisas sobre mim que você não sabe.

— E eu quero saber. Quero conhecer todas as partes de você.

Suspiro.

— Sabe por que ainda não fizemos sexo? Não é porque eu tenho medo de perder a virgindade, mas porque, no fundo, eu tinha medo de que, em algum momento, você iria me machucar, e eu ficaria sozinho com minhas memórias. Ontem, você me machucou. Como posso seguir adiante com isso?

Ele abaixa a cabeça.

— Eu posso pedir mil desculpas, mas sei que isso não significa nada. Você sabe que eu estou arrependido. Você e eu sabemos que eu errei. Eu só posso te dizer a verdade, Kai: eu não sei o que eu estou fazendo! Em relação a você, a mim, a nós… É muito confuso! Ontem, eu quis ir para aquela festa apenas para tentar resgatar um pouco de quem eu costumava ser.

— Então, agir como um babaca é quem você costumava ser?!

— Não! Quer dizer… não sei. Você me faz pensar de forma diferente. Antes de conhecer você, eu provavelmente acharia tudo aquilo completamente normal. É assim como as coisas são, é assim como todos se comportam: bebemos, transamos, usamos drogas, sem nunca pensar em como estamos afetando os outros. Eu parei com vícios porque queria me sentir diferente, diferente daquela pessoa que você viu ontem. Ontem, eu apenas quis me sentir normal, porque entrei em pânico pensando que todos descobririam sobre nós dois. Só que, agora, eu sei que eu não quero ser normal. Eu quero ser melhor. Você é o meu motivo para ser alguém melhor, Kai. Você é inteligente, engraçado e tem um bom coração. Você poderia simplesmente ter me deixado sozinho, mas me levou pra casa e cuidou de mim, mesmo depois do que eu fiz! Eu não merecia aquilo… Você não merecia aquilo.

Eu o escuto o olhando nos olhos, não diretamente, mas pelo seu reflexo na água.

— Kai, eu não beijei aquela garota porque eu queria sexo, porque eu não estou com você por sexo. Eu estou com você porque eu estou apaixonado por você.

Alguma pessoa normal, provavelmente, sorriria ao escutar aquelas palavras. Eu franzo a testa, cerro os olhos e deixo uma lágrima escapar.

— Não me diga isso só porque acha que é o que eu quero ouvir!

— Não é.

Ele, então, ainda de roupa, entra na piscina, anda até mim e, mesmo nós estando sob a luz do sol, mesmo que em seus últimos raios, ele me beija.

— Eu nunca mais vou beber. Você é o único vício que eu quero manter na minha vida, se você me deixar. Você me deixa? – Fala ele, assim que me solta.

Dou uma respiração profunda antes de mergulhar novamente naquele rio.

— Sim.

Água com Gelo (Parte 19)

12 de abril, 00h11min

— Se não quiser falar, tudo bem, mas saiba que pode conversar comigo sobre qualquer coisa. Sabe disso, não sabe?

Viro-me para encará-lo e apenas faço que sim com a face.

Para ser bem sincero, eu nem saberia por onde começar.

— Está com fome? – Pergunta ele.

Engraçado, eu não estava até o momento em que ele mencionou comida.

— Faminto.

— Imaginei. Podemos parar para comer um sanduíche. Eu pago.

Eu queria ter mais energia para agradecê-lo, mas não tenho. Apenas suspiro e balanço a cabeça.

Paramos em um quiosque na avenida e Sora pede dois sanduíches com tudo que tínhamos direito: carne, queijo, ketchup e maionese, acompanhados de refrigerante. Olho para aquelas delícias viciantes e não consigo não pensar em Douglas.

“Meu corpo não precisa de mais nada além de água fresca, então para quê vou infectá-lo com tóxicos? Açúcar, cafeína, álcool… Ou eu os controlo, ou eles me controlam, e não gosto que nada me controle.”

Sora me vê olhar para meu sanduíche enquanto come e deposita o seu, como se fosse um tipo de ofensa comer sozinho:

— Olhe, eu não sei o que aconteceu, mas ficar de barriga vazia não ajuda em nada.

— Comer também não.

— Mas, comer é necessário.

Era verdade. Pego o sanduíche e começo a comer, e percebo que, de fato, a comida ajudava.

Sinto-me grato pelo meu irmão por me proporcionar aquele pequeno momento de conforto. Penso em como me senti sozinho parado naquele cruzamento vazio – como me senti sozinho durante toda a festa – e me sinto verdadeiramente grato por ter, ainda, alguém a quem ligar.

— Como vão as coisas com sua namorada? – Pergunto. Queria demonstrar interesse em sua vida, como forma de agradecimento.

Sora dá de ombros.

— Acho que vou terminar com ela.

Eu me espanto:

— Por quê?! O que ela fez?

Por algum motivo, ele ri.

— Nada. Nada em específico. Eu só… não a amo. Nós nos divertimos bastante, mas acho que chegamos ao nosso fim. Acontece. Eu sei disso, ela sabe disso. Nem sempre relacionamentos acabam por algum erro de uma das partes. Às vezes… só acabam.

Eu suspiro.

— Espero que ela não se machuque muito.

— É natural, Kaito. Eu também vou me machucar. Mesmo que seja eu quem esteja tomando a decisão inicial, no final das contas, é algo que nós dois entendemos que é necessário. Relacionamentos adultos, geralmente, são assim. Nós lutamos para que dê certo, mas precisamos entender quando é uma batalha em vão.

“Eu não sei o que estou fazendo, Kai, por favor… Eu estou bêbado…”

“É claro! Eu não parei de pensar em você! Foi por isso que bebi, porque não aguentava me sentir mal com você…”

Essa era a questão: será que essa era uma batalha em vão?

— Mas, vai dar tudo certo – Promete ele – Sempre dá, no final.

— Claro.

“Me perdoe, me perdoe, me perdoe…”

Água com Gelo (Parte 18)

11 de abril, 23h30min

É a primeira vez que me encontro numa festa como essa, com música, álcool e cheiro de drogas e sexo no ar. Fico sentando no sofá olhando as horas de cinco em cinco minutos e observando todos ao redor, todos muito engajados em suas atividades recreativas para sequer notarem minha presença – ou seria ausência? – ali.

De qualquer forma, me distraio analisando as máscaras que as pessoas usavam em situações como essas. Olho os grupos que riam alto e faziam piadas e engoliam litros e litros de bebidas e percebo como eventos como esse serviam apenas como catalisadores para sexo e dominação.

Havia sempre um líder na roda e, tudo o que ele fazia, os outros faziam igual. Copiavam a maneira como ele mexia as mãos, posicionava as pernas e até mesmo imitavam as gírias que ele usava. Percebo nitidamente Douglas falando e agindo de maneira completamente inédita para mim até então.

Era como se fosse uma pessoa completamente diferente. Havia ligado seu modo “macho alfa”, e tudo que fazia ali era para impressionar. Impressionar não as garotas, como muitos pensam, mas, os rapazes, os outros machos da banda. Era tudo um jogo de aparências, sua maneira de se tornar presente, visível, admirado pelo grupo e ser eleito líder.

E eu estava falhando miseravelmente nesse jogo. Só ficava olhando para ele na esperança de ele me olhar de volta e se lembrar de que aquele rapaz barulhento e arrogante não era ele de verdade, era apenas uma máscara, e voltar a ser aquela pessoa sensível, doce e sorridente que me conquistou.

No entanto, quando ele me olha, vejo desapontamento em seus olhos.

Aquilo me irritou. Levanto-me, vou até ele e ele me entrega esse olhar de desespero, como se tivesse medo de que eu acabasse por gritar aos quatro ventos de que nós dois éramos namorados e de que estávamos juntos havia um mês.

“É minha mãe! Droga!”

É claro que eu jamais faria isso.

— Douglas? Posso falar contigo? Sozinho?

Ele, inicialmente, suspira, mas acena para os outros para minimizar o drama, me passando, novamente, como um mero colega e nada mais. É difícil até conseguir sua atenção, pois ao menos três pessoas no grupo gostariam de ter uma conversa privada com ele, ou quem sabe algo mais.

Já fora da casa, eu o confronto:

— Qual é o problema?! – Pergunto.

— Problema nenhum.

— Não me venha com essa! Você não trocou uma palavra comigo na festa inteira!

— Talvez porque eu não queira!

— Por quê? Porque eu fiz uma piada para quebrar o gelo depois que você basicamente me apresentou para todos como o “esquisitão antissocial”?

— Ah, por favor…

— Foi só uma piada! Absolutamente ninguém pensou que era eu de quem eu estava falando!

— Você não sabe… – Ele começa, mas é interrompido por um arroto repentino e de cheiro muito característico.

— Espera um pouco… Você bebeu?!

— E daí?!

— “E daí”? E aquela história de viver sem vícios?!

Douglas balança a cabeça e me olha irritado:

— Bom, isso já foi por água abaixo quando comecei a namorar você, não é mesmo?! – Conclui ele, dando meia-volta e voltando para a festa.

Meu coração despenca. Eu não conhecia aquele rapaz. Fosse quem fosse, não era meu namorado.

 

11 de abril, 23h55in

“Você vai se divertir! Garanto.”

Estou urrando de alegria.

“Esse aqui é meu amigo Kai…”

Amigo. Amigo do coração.

“Bom, isso já foi por água abaixo quando comecei a namorar você, não é mesmo?!”

Pois é isso que sou: um vício. Afinal de contas, eu também era um bolo de chocolate, só não tinha me dado conta disso até hoje.

Depois de quinze minutos ali do lado de fora, decido entrar para tentar convencê-lo a irmos embora. Foi a pior festa da minha vida. Não só não tive uma só conversa interessante com alguém, acabo sendo colocado de escanteio pela única pessoa que, supostamente, me queria ali.

Entro e procuro por ele por toda parte. A barulheira já havia diminuído, a bagunça, aumentado, com copos e garrafas espalhados por toda parte, e todos estavam agora ou conversando em grupos menores ou se beijando.

Ver os casais ali fez com que meu coração batesse mais depressa. Olho em volta e não vejo sinal de Douglas. Na sala, havia apenas garrafas, um casal se agarrando indiscretamente no sofá e um grupo sentado em círculo fumando maconha.

— Alguém viu o Douglas?

Um cara me olhou como se eu fosse um holofote direcionado bem em sua face:

— Acho que tá na cozinha, cara.

Na cozinha.

“Olhe só o que tem no forno!”                    

Passo por um corredor apertado e abro discretamente a portinhola e a primeira coisa que vejo é ele…

…com uma garota em seus braços, beijando-o.

Fico parado ali, congelado, esperando o momento em que ele vá se dar conta do que está fazendo e me notar.

Cinco segundos, dez segundos, quinze segundos, vinte segundos.

Ele, enfim, se afasta. Olha para ela com uma cara confusa e enfim, me nota, arregala os olhos e leva a mão na boca.

Jogo os braços para os lados, balanço a cabeça e saio.

Sem me importar em me despedir de ninguém, saio porta fora e começo a andar pela rua à noite.

Eu não choro. Estou com raiva demais para chorar, mas sinto minhas mãos tremerem como bambu. Minha respiração está forte e rápida como se eu fosse um touro pronto para avançar pelo tecido vermelho, e ando indiscretamente sem nem ao mesmo prestar atenção para onde estava indo.

“…eu realmente gosto de você…”

Gosta mesmo?

“Eu sonhei com você.”

Eu também sonho com você. Do que isso adiantou?

“Kai, quer ser meu namorado?”

Quero, mas o que isso significa para você?

O que significa, afinal de contas?

Eu nunca tive uma namorada, tampouco um namorado. Nunca me ensinaram como se namora um rapaz. Nunca me explicaram se isso significava que eu teria que agir como uma garota, ou se ser eu mesmo era o suficiente. Mas, se era, porque durante toda essa festa eu me senti tão deslocado? Por que eu não podia falar dele para meu pai e meu irmão? Por que eu precisava sempre vê-lo às escondidas como se estivéssemos cometendo um crime? Por que eu sentia esse medo no fundo do peito toda vez que nos beijamos à luz do sol?

Por que, por um segundo, eu senti que não tinha direito de me sentir traído por ele ter beijado uma garota?

A resposta era que, por mais que estivéssemos juntos, nessa festa, nós não éramos namorados. Não éramos nem sequer amigos.

Éramos completos desconhecidos. Eu não existia em seu mundo. Estava guardado em sua gaveta, como um diário trancado à chave. Ninguém que fazia parte de sua vida sabia meu nome, quem eu era, o que eu fazia e o que eu significava para ele. Enquanto esse secretismo inicialmente fazia com que tudo parecesse mais picante e interessante, com o tempo, ele tornava aquela relação menos real e mais simbólica, atrelada a aventuras e não na convivência. Enquanto o segredo existia, eu não podia fazer parte de seu mundo, vivendo um eterno Romeu e Julieta, cujo final não era muito promissor.

Com a raiva já mansa, aí me vem à tristeza. Eu vejo um carro vindo em minha direção e diminuindo a velocidade para me acompanhar, e já não consigo lutar contra as lágrimas.

— Kai! Kai, por favor! – Grita Douglas, agora saindo do carro e correndo em minha direção.

— Vá embora!

— Eu não sei o que estou fazendo, Kai, por favor… Eu estou bêbado e… Eu sei que isso não é desculpa, mas ela me beijou e eu não entendi o que estava acontecendo, aí eu me lembrei de você…

— Se lembrou?! Por acaso você se lembrou de mim em algum momento nessa festa?!

— É claro! Eu não parei de pensar em você! Foi por isso que bebi, porque não aguentava me sentir mal com você…

— Eu não fiz nada de errado, Douglas. Foi só você.

— Eu sei! Eu sei disso… Eu que sou um idiota…

Ele parecia prestes a vomitar a qualquer momento. Parou, jogou as mãos em frente o rosto e percebi que, por mais que eu estivesse furioso, eu não podia deixa-lo ali sozinho com um carro.

Paro, dou meia volta e vejo que ele está entre chorar e vomitar. Mal parecia conseguir ficar de pé e sinto um enorme mal estar no peito.

“…isso já foi por água abaixo quando comecei a namorar você, não é mesmo?!”

— Vem aqui.

Vou até ele, conduzo-o até o banco de passageiro e o faço se sentar e colocar o cinto. Pego no volante, dou partida na ignição e sigo em direção a sua casa.

Sinto sua cabeça tombar para cima do meu ombro e o escuto murmurar:

— Me perdoe, me perdoe, me perdoe…

Até não dizer mais nada.

 

12 de abril, 00h01min

Estaciono o carro de Douglas em frente a sua casa. Ele já dorme no banco do passageiro e fico o olhando desacordado, bêbado, sem saber o que sentir.

Vícios, realmente, eram perigosos.

Eu não queria falar com ele. Agora que ele estava seguro em casa, pego meu telefone e ligo para a única pessoa que poderia me ajudar naquele momento.

— Alô? Kai?

— Sora? Onde está você? Está em casa?

— Não, estou numa festa com minha namorada.

É claro.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não, não, eu estou bem, é só que… Eu preciso que alguém me busque.

— Por quê? O que aconteceu?

Tento não chorar, mas assuo o nariz, e continuo mudo no telefone.

— Nada demais…

— Tá, se não quer falar… Onde está você?

Eu propositalmente dou o endereço de duas ruas acima. Sora me promete chegar em menos de dez minutos, então lhe agradeço e volto a encarar o inconsciente Douglas.

Ele, assim como no dia do nosso primeiro beijo, flutuando na piscina, estava em paz. Paz forçada, talvez, pelo álcool, mas, ainda assim, em paz.

Sua paz me deixava ainda mais enfurecido. Saí do carro, deixando a porta aberta, e toquei a campainha, esperei escutar alguém vir abrir e saí às pressas.  De longe, vi seu pai sair, ver o carro, encontrar o filho desacordado e o carregar para dentro pelos ombros.

Dou um grande suspiro. Estava, de novo, sozinho. Com ainda sete minutos para Sora chegar, fico esperando no ponto de encontro, um cruzamento, e repassando todo aquele maldito dia na minha cabeça – a cena daquela garota o beijando em especial.

Eu me sentia completamente sozinho. Queria desesperadamente escrever para minha mãe. Queria seu colo, sua proteção, seu amor. Queria que ela me viesse dizer que tudo ficaria bem. No entanto, quando olho para os lados, não vejo nada. Quando olho para frente, percebo que as luzes das ruas estão todas apagadas, e, atrás de mim, existem só casas velhas.

Fico me abraçando, protegendo a mim mesmo do frio da noite até o momento em que Sora aparece com seu carro.

Ele não faz perguntas. Só entro e continuo me abraçando, seguindo pela rua de Douglas até passar novamente pela sua casa, as luzes todas apagadas.

Água com Gelo (Parte 17)

11 de abril, 22h03min

Saímos do carro e Douglas aperta meu ombro como se para me encorajar. Eu lhe sorrio, mas logo fico sério, pois sabia que esta seria a última troca de carinho que ele me daria essa noite.

Quando abrem a porta, ele imediatamente assume outra personalidade. Sorri e fala alto, abraça seus amigos com vontade e é recebido com satisfação por todo mundo.

Eu simplesmente desapareço naquele holofote.

Fico encolhido com as mãos para frente do corpo enquanto ele, meu namorado, trocava gargalhadas com um pessoal o qual nunca vi antes. Uns bons três minutos se passam até ele, meu namorado, resolver me apresentar para todos em vez de me deixar ali, parado e imóvel como um poste, numa tentativa infeliz de sorrir e parecer confortável.

— Esse aqui é meu amigo Kai. Achei que ele precisava sair um pouco. É meio tímido.

Pelo amor de… Não diga isso! Quando as pessoas extrovertidas vão entender que a única coisa que acontece quando se anuncia que uma pessoa tímida é tímida é fazê-la ficar ainda mais tímida?

— É um prazer, gente. – Falo, nervosamente.

Ninguém me deu muita importância. Não foram rudes, nem extraordinariamente hospitaleiros. Só estavam felizes por Douglas estar ali, pois…

—…faz um mês que não vemos esse rapaz fora da escola, não é mesmo? Até parece que está namorando! – Fala um dos rapazes.

Hora da vingança.

— E está mesmo! Uma garota linda! – Falo.

Douglas me olha com clara surpresa:

— O quê?!

— Muito inteligente, também.

A algazarra foi geral. Começaram a empurrá-lo de um lado para o outro e bagunçar seu cabelo enquanto ele tentava dizer aos gritos que era mentira.

— Gente, gente! O Kai tá só brincando. Não é mesmo, Kai?! – A última frase saiu quase como uma ameaça.

Sinto uma frieza em seu olhar, então dou de ombros.

— É. Claro.

Seria uma noite muito divertida, com toda certeza.

 

11 de abril, 23h30min

É a primeira vez que me encontro numa festa como essa, com música, álcool e cheiro de drogas e sexo no ar. Fico sentando no sofá olhando as horas de cinco em cinco minutos e observando todos ao redor, todos muito engajados em suas atividades recreativas para sequer notarem minha presença – ou seria ausência? – ali.

De qualquer forma, me distraio analisando as máscaras que as pessoas usavam em situações como essas. Olho os grupos que riam alto e faziam piadas e engoliam litros e litros de bebidas e percebo como eventos como esse serviam apenas como catalisadores para sexo e dominação.

Havia sempre um líder na roda e, tudo o que ele fazia, os outros faziam igual. Copiavam a maneira como ele mexia as mãos, posicionava as pernas e até mesmo imitavam as gírias que ele usava. Percebo nitidamente Douglas falando e agindo de maneira completamente inédita para mim até então.

Era como se fosse uma pessoa completamente diferente. Havia ligado seu modo “macho alfa”, e tudo que fazia ali era para impressionar. Impressionar não as garotas, como muitos pensam, mas, os rapazes, os outros machos da banda. Era tudo um jogo de aparências, sua maneira de se tornar presente, visível, admirado pelo grupo e ser eleito líder.

E eu estava falhando miseravelmente nesse jogo. Só ficava olhando para ele na esperança de ele me olhar de volta e se lembrar de que aquele rapaz barulhento e arrogante não era ele de verdade, era apenas uma máscara, e voltar a ser aquela pessoa sensível, doce e sorridente que me conquistou.

No entanto, quando ele me olha, vejo desapontamento em seus olhos.

Aquilo me irritou. Levanto-me, vou até ele e ele me entrega esse olhar de desespero, como se tivesse medo de que eu acabasse por gritar aos quatro ventos de que nós dois éramos namorados e de que estávamos juntos havia um mês.

“É minha mãe! Droga!”

É claro que eu jamais faria isso.

— Douglas? Posso falar contigo? Sozinho?

Ele, inicialmente, suspira, mas acena para os outros para minimizar o drama, me passando, novamente, como um mero colega e nada mais. É difícil até conseguir sua atenção, pois ao menos três pessoas no grupo gostariam de ter uma conversa privada com ele, ou quem sabe algo mais.

Já fora da casa, eu o confronto:

— Qual é o problema?! – Pergunto.

— Problema nenhum.

— Não me venha com essa! Você não trocou uma palavra comigo na festa inteira!

— Talvez porque eu não queira!

— Por quê? Porque eu fiz uma piada para quebrar o gelo depois que você basicamente me apresentou para todos como o “esquisitão antissocial”?

— Ah, por favor…

— Foi só uma piada! Absolutamente ninguém pensou que era eu de quem eu estava falando!

— Você não sabe… – Ele começa, mas é interrompido por um arroto repentino e de cheiro muito característico.

— Espera um pouco… Você bebeu?!

— E daí?!

— “E daí”? E aquela história de viver sem vícios?!

Douglas balança a cabeça e me olha irritado:

— Bom, isso já foi por água abaixo quando comecei a namorar você, não é mesmo?! – Conclui ele, dando meia-volta e voltando para a festa.

Meu coração despenca. Eu não conhecia aquele rapaz. Fosse quem fosse, não era meu namorado.

Água com Gelo (Parte 16)

11 de abril, 11h38min

Espero no mesmo lugar em frente à escola aquele mesmo carro popular estacionar para me levar para a minha parte favorita da semana. Espero debaixo da árvore que já começa a secar, agora que o outono havia chegado. As manhãs eram mais frias e as tardes eram quentes o bastante para passear na rua, mas ainda frescas o bastante para vestir roupas longas.

Só ficava cada dia mais complicado de ir nadar no clube.

— Oi, Kai. Esperando alguém? – Fala Lily, que tinha acabado de sair.

— Um amigo. Nas sextas nós nos encontramos para… jogar videogames e ver filmes.

— Amigo, é? E quem é esse sujeito do qual nunca ouvi falar?!

— Acredite se quiser, Lily, existem adolescentes nessa cidade que você não conhece.

— Eu duvido.

Rio.

— É, eu também.

Ela me belisca no braço.

— Então, Kai, você está sabendo do acampamento de inverno que estamos preparando?

— Não, e se por “acampamento de inverno” você quis dizer “acampamento de inverno”, deve ser por isso que eu não estou por dentro.

— Qual é? É uma tradição da escola! Precisa vir esse ano. Não é muito longe daqui, é perto do riacho.

Chego até tremer.

— Eu não sei, Lily.

— É seu último ano de colegial, Kai! Nós não teremos mais momentos como esse juntos. Ano que vem, todos vão para a faculdade, ou vão mudar de cidade, ou simplesmente vão parar de se encontrar.

— Eu não faria muita falta.

— Faria, sim. – Retruca ela, com sinceridade.

Sorrio.

— Vou pensar.

11h40min. Meu namorado desliza o carro até a calçada e estaciona, mas não sai.

— Ah, meu… amigo chegou.

— Tudo bem. Pensa com carinho, d’accord? – Fala ela, e me puxa pra um abraço e me dá um beijo na bochecha – Au revoir!

Ela segue seu caminho e eu sigo o meu. Entro no carro e Douglas me olha com um olhar de deboche, já dando a partida:

— Por acaso é pra eu ficar com ciúmes daquela moçoila ali?

— Sim. Eu e ela estamos tendo um caso. Ela está grávida. Nasce mês que vem.

Douglas gargalha.

— Bobo.

— Ela só queria me convidar para um acampamento da escola durante as férias de inverno. – Continuo.

— E você vai?

— Não sei.

— Por que não? Já acampou antes?

— Já. É só que…

Eu não gosto do riacho.

—…eu não sou muito enturmado.

Douglas faz que sim com a cabeça.

— É bom fazer algo diferente de vez em quando.

— É, claro.

— Falo sério! Olha, inclusive, era o queria falar com você… Toda sexta-feira nós fazemos a mesma coisa: assistimos a um filme na minha casa, nadamos no clube a tarde e comemos na Mãe Joana à noite.

— Eu sei. É porque você quer manter nossa relação em segredo.

Douglas aperta o volante com mais força.

— Sim, sim, eu sei disso. Mas, nós poderíamos fazer algo diferente, para variar. Uns amigos me chamaram para uma festa hoje à noite.

Ergo as sobrancelhas. Fico me imaginando numa festa acompanhado de Douglas, meu namorado, mas fingindo não o ser.

Era um cenário estranho. Eu já não lido bem com situações sociais; fico o tempo todo tentando ser aquilo que eu não sou e, quando finalmente me sinto tranquilo em ser apenas eu mesmo, sou visto como um caladão esquisito.

No entanto, Douglas sempre fazia tudo para me acomodar. Nos nossos encontros de sexta-feira, sempre chegava às 11h40min em ponto, e eu me sentia um tanto culpado por mantê-lo numa rotina que também servia para o meu conforto.

Ele se vira para me encarar e me olha com a mesma expressão que Bobão usa para me pedir comida.

— Tudo bem.

Ele sorri.

— Você vai se divertir! Garanto.

E me beija na bochecha assim que o carro para na luz vermelha.

Água com Gelo (Parte 15)

7 de março, ??h??min

— Douglas? Está em casa?!

Douglas salta da cama no susto de alguém o chamando do lado de fora do quarto.

— É minha mãe! Droga! Pensei que ela voltaria só de noite! – Fala ele para mim, sussurrando, depois mais alto – Estou aqui, mãe!

Eu me levanto da cama e tento agir naturalmente. “Naturalmente” talvez não fosse bem a palavra, mas tento agir como se não estivesse acabado de beijar o filho da mulher que estava para entrar. Ela abre a porta e mal se dá conta de minha presença.

— Ah! Achei que estaria jogando futebol com os amigos. – Fala ela, e um enorme Golden Retriever salta para cima de mim – Jujuba! Deixa o moço em paz!

— Tá tudo bem, mãe, o Kai é gente boa. Ele gosta de cães.

Jujuba começa a me lamber por toda parte, mas não me importo.

— Mãe, esse é Kai, um colega da escola. Estávamos terminando um trabalho.

“Colega”.

A mãe de Douglas me entrega um sorriso radiante. Percebo que é dela que Douglas herda os olhos: tem o mesmo tom de azul vibrante.

— Muito prazer, querido. Sinta-se em casa. Já almoçaram?

— Sim, eu preparei um macarrão. Sobrou um pouco, se quiser. Também fiz um bolo de chocolate.

— Um bolo normal ou um “especial”?

— Um especial.

Ela contorce a cara.

— Ficou bom. – Eu falo, e Douglas me sorri.

— Vou dar uma chance.

— Mãe, você não ia para a casa da tia com a Jujuba, como você faz toda sexta-feira?

— Ela não estava, querido, ela teve que fazer uma viagem.

— Entendi…

— Bom, vou deixa-los em paz, então, para trabalhar. Qualquer coisa que precisarem, é só chamar. Jujuba, vamos!

Ela fecha a porta assim que a cadela passa e percebo Douglas inflar o peito.

— Quer ir ao clube?

 

7 de março, 16h45min

Douglas nada de um lado para o outro e eu apenas fico o observando. Algumas crianças nadam animadamente e soltam gritinhos estridentes, suas mães ficam o tempo todo tentando discipliná-las e eu fico esperando o momento de elas irem embora.

Mergulho e, debaixo d’água, não escuto nada.

…eu realmente gosto de você…

…eu realmente gosto de você…

…eu realmente gosto de você…

Eu me sinto tão preenchido por dentro ao pensar em Douglas me dizendo isso que é impressionante como consigo ficar submerso na água. Enquanto fico ali mergulhado, uma canção de Anadel percorre em minha mente.

Put your hands into the fire,

 Put your hands upon my face,

Leave them there, your warmth to hold,

To know is to love.

 Put your hand inside my own,

 Watch the sound, watch it flow.

The fields will change just like the waves,

 The rise and fall of tempest days.

Are we afraid, or are we alive?

Are we afraid, afraid to find?

The flame touches all.[1]

Água estava para se tornar fogo.

Quando emerjo na superfície, vejo que as crianças haviam saído da piscina e iam embora com suas mães. Douglas nada até mim e fica me observando a um palmo de distância com um sorriso sereno na face.

— Eu sonhei com você; agora a tarde.

— Foi um bom sonho?

— Foi um ótimo sonho. Quero continuar sonhando com você. Kai, quer ser meu namorado?

Estamos com medo?

— Sim.

Ou estamos vivos?

[1] Coloque suas mãos dentro do fogo/Coloque suas mãos sobre minha face/Deixe-as nela, para segurar seu calor/Conhecer é amar/Coloque suas mãos dentro das minhas/Veja o som, veja-o fluir/Os campos mudarão assim como as ondas/Os altos e baixos de dias tempestuosos/Estamos com medo, ou estamos vivos? Estamos com medo, com medo de encontrar? A chama toca tudo. (Are We Afraid – Anadel)